São dias em que ainda nos estamos a habituar aos novos processos, com o corpo a acompanhar a mente e a mente atenta às instruções dos profissionais. Não é fácil para ninguém, mas este respeito é para o bem de todos. São dias também em procuramos escapes temporários pela mão do entretenimento, quando e sempre que possível.

Depois de ontem a equipa ter mencionado um trio de videojogos a que tem dedicado as suas horas, este domingo o exercício é igual, mas com filmes e séries. Pedro Martins escreve sobre The Plot Against America, a nova série exclusiva da HBO. Baseada no livro de Philip Roth, vemos a uma versão alternativa da América pelos olhos de uma família judia em que Charles Lindbergh chega a presidente.

O Marco Gomes dedicou parte da sua semana a ver os acontecimentos retratados em Quo Vado ou Já Foste!. Fica escrito que é uma obra com um sentido de humor idiota. A seu favor tem a consciência, já que esta idiotice, segundo o Marco, está presente do primeiro ao último minuto. Gennaro Nunziante realiza assim uma película em que Checco se dedica a convencer uma tribo que ser queimado vivo não é o caminho a seguir.

Finalmente, na parte final deste artigo está a participação de Filipe Urriça. Tal como na semana passada, as considerações chegam de uma película exibida pelos canais TVCine. Este domingo, a escolha é Aladdin, obra que estreou originalmente em 2019 e que marcou as redes sociais pelas imagens que ilustram um génio interpretado por Will Smith. Todas as considerações podem ser lidas pela interpretação do Filipe, que afirma que o filme, afinal, não é tão mau como se apregoou. 

Pedro Martins, The Plot Against America (HBO Portugal)

Quando David Simon está envolvido num novo projeto, eu presto atenção. Estamos a falar do criador de The Wire, uma das séries mais celebradas dos últimos vinte anos. Com The Plot Against America, estamos perante uma proposta que estreia com um episódio onde são expostas as bases, mas que deixa tudo em aberto para os restantes cinco capítulos.

É uma realidade alternativa dos Estados Unidos da América baseada no livro de Philip Roth. Pelos olhos de uma família judia na década de quarenta, sente-se durante estes minutos os ataques e a perseguição aos judeus. Na HBO, há uma mistura de caracterização de personagens e cenários com temas que se prestam facilmente a comparativos com a América e o mundo em 2020. 

O episódio de estreia não se fecha aos dramas familiares locais, cruzando-os com a situação que a América vive. Os pais são filtros também, capazes de lamber as próprias feridas, gradualmente mais abertas, enquanto tentam que os mais pequenos não tenham que chocar de frente com a realidade onde há a progração da crença de que não são bem-vindos no seu próprio país.

The Plot Against America é uma minissérie e Simon tem a experiência para lhe dar o ritmo adequado. É possível que terminem este episódio a acharem que não é uma obra para vocês. Claro que é um ponto de vista válido, contudo, o passado mostra-nos que estas bases lançadas agora irão revelar-se sólidas com o passar do tempo. Se será assim, ou não, ainda não foi confirmado, mas certamente valerá a pena testemunhar até onde vai esta malha densa.

Marco Gomes, Quo Vado ou Já Foste! (DVD)

Só neste país! Expressão bem nossa com direito até a canção no álbum de 2006 de Sérgio Godinho, Ligação Direta, deverá ter, por estas ou outras palavras, um reflexo geográfico alargado, pelo menos ao nível da franja latina europeia. Tomai por exemplo os constantes reparos ao funcionalismo público, faltando em eficácia o que excede em peso ao orçamento de estado. Padecendo das mesmas dores, resolveram em Itália disso fazer uma comédia para cinema. 

De seu nome Quo Vado ou Já Foste! (2016), Quo Vado? apenas de título original, é-nos vendido como o maior sucesso de bilheteira de sempre em Itália, em número acima de onze milhões de espectadores, não sendo a explicação para tal óbvia analisando a sinopse onde uma reforma na administração pública coloca Checco Zalone, nome do ator e de sua personagem, em postos e lugares cada vez mais agrestes ao recusar a rescisão de contrato. 

Apesar de ser fita satisfatoriamente universal esconde esse mecanismo narrativo o verdadeiro propósito, levar os italianos a rir-se de si próprios desenhando-lhes o retrato identitário com base na caricatura, enfatizado no recurso comparativo a um povo cuja cultura, forma de ser e estar lhes é bem diversa, o norueguês.

O sentido de humor idiota pouco cativará um público mais criterioso, embora, sendo-o em congruência do primeiro ao último milímetro de celuloide ajuda a acomodar a miríade de apanhados e o inopinado, quase surreal, de algumas situações, à cabeça o enquadramento de todo o guião na vida de Checco contada aos membros de uma perigosa tribo africana na tentativa de impedir ser queimado vivo. 

Filipe Urriça, Aladdin (TVCine)

Vi finalmente a nova versão de Aladdin, com atores de carne e osso, para perceber o porquê de tanto histerismo em torno de uma produção que decidiu colocar Will Smith no papel de génio com uns efeitos especiais de qualidade duvidosa - ninguém tem a menor dúvida que são maus. Sem surpresas, o filme não é tão mau como o pintaram.

Os desenhos animados dos anos noventa são uma parte da história da Disney, uma empresa que decidiu dar uma nova edição ao seu catálogo e criar novas versões de grandes obras de arte feitas em desenho animado. Não é difícil imaginar o porquê de quererem fazer uma nova de filmes: atingir uma nova audiência.

Quanto ao filme, é razoável e conta uma boa história, apesar de diferente da original. Will Smith não é tão mau como muitos o dizem, apesar de não ter o mesmo carisma de Robin Williams. Os comportamentos do génio adequam-se bem ao tipo de comédia que o ator costuma interpretar.

O pior é a mensagem e a moralidade que quer fazer passar. Se no início ficamos a pensar que se trata de uma história de um amor não correspondido, no fim sabemos que a Disney queria passar uma mensagem diferente. A mensagem pretende atingir as jovens mulheres e dizer-lhes que podem ser o quiserem na vida, mesmo ocupar um cargo tradicionalmente ocupado por homens. No fim fomos enganados, porque não é até aí que o caminho narrativo traçado nos leva.

Continuem a conversa nos fóruns VideoGamer!