O artigo dominical do VideoGamer Portugal volta a reunir algumas recomendações para adornar a televisão além dos videojogos. Depois de ontem ter sido dado destaque a duas obras PlayStation 5 e a um título independente na Switch, agora é a vez do entretenimento sem comando ou teclado. E há três considerações principais e uma bónus.

Como podem ler na primeira entrada, o Pedro Martins viu e recomenda The Queen's Gambit, minissérie da Netflix que edifica o xadrez como peça central numa rápida e viciante proposta. E, como bónus, fica também a recomendação de Fénix Renascida, um documentário sobre os Jogos Paralímpicos. Díspares, obviamente, mas são recomendações que marcaram estes dias.

O Marco Gomes teve oportunidade de ver e de escrever sobre O Terceiro Assassinato. Realizada e escrita por Hirokazu Koreeda, estamos perante uma investigação criminal que, segundo o Marco, assume o abrandamento sequencial para promover as condições necessárias para a reflexão. Há também muita “filosofia de algibeira”, é dito.

E, finalmente, temos as palavras de Filipe Urriça sobre A Favorita. Filme que recebeu uma atenção inequívoca durante a temporada de prémios, acabou por consagrar com um Oscar a excelente Olivia Colman como Melhor Atriz Principal. Fica recomendado pelo Filipe, com o destaque do seu tempo com a película a ser também dedicado à “exposição do jogo político da corte inglesa”.

Pedro Martins, The Queen’s Gambit (Netflix)

São sete episódios que se vão demorando na memória. The Queen’s Gambit - que em português ora aparece traduzido como O Gambito da Rainha, ora como O Gambito da Dama - é uma das novas coqueluches da Netflix. Não só a representação do xadrez é intensa e emocionante, a ascensão das personagens falíveis é ritmada, fulgurante e bem estruturada.

Os minutos iniciais são o isco: uma jovem acorda num quarto de hotel em Paris, toma comprimidos num cocktail feito com álcool. Há alguém na sua cama. Sai atordoada pois está atrasada. À sua espera tem uma partida de xadrez importantíssima. A série recua temporalmente e acabará por explicar tudo, incluindo quem é a personagem que pernoitou ao lado da protagonista. A jovem central é Beth (Anya Taylor-Joy) e esta é a sua história, como a sua vida foi moldada pelo orfanato depois da sua mãe ter morrido num acidente de viação.  

Beth é um prodígio do xadrez, mas isso tem custos. Antes de ser adoptada, fica dependente de comprimidos que a instituição regularmente deu às crianças. Vai conquistando prémios e reconhecimentos, mas internamente lida com fantasmas. Os exageros acumulam-se de mãos dadas com os triunfos. The Queen’s Gambit entusiasma sem nunca esquecer o xadrez, as suas partidas representadas freneticamente, e nesses segmentos faz todos os possíveis para nunca deixar para trás os espectadores que não sabem as regras.

A Netflix não arrasta a série em demasia, sendo inteligente ao dar-lhe sete episódios. Assim garante que o ritmo nunca é pastelão. A performance do elenco é saudável, a começar naturalmente por Anya Taylor-Joy, mas alargando-se por exemplo a Bill Camp, que dá vida a Mr. Shaibel, o primeiro e grande mentor de Beth, metódico e cauteloso, difícil de conquistar pelos primeiros sinais pródigos da protagonista, mas que acaba por definir de forma indelével a sua ascensão.

The Queen’s Gambit é uma série de época e a produção entrega um passado credível ao longo dos anos: carros, edifícios (exteriores e interiores), vestuário, maneirismos. O xadrez é representado com respeito e quando derem conta os sete episódios terminaram. E se quiserem algo completamente diferente sem saírem do catálogo da Netflix, vejam Fénix Renascida, um documentário incrivelmente inspirador sem ser lamechas sobre os Jogos Paralímpicos.

Marco Gomes, O Terceiro Assassinato (DVD)

A semana próxima tirará a limpo, ficando palpite de ser o registo hoje trazido, O Terceiro Assassinato (2017), Sandome no Satsujin, o mais denso e taciturno do quarteto encaixado pela Legendmain Filmes sobre a obra de Kore-Eda Hirokazu.

Há altura de lançamento, 2019, representando as mais recentes longas-metragens disponíveis em formato doméstico, ao mercado chegando sensivelmente dois meses após a estreia nas salas portuguesas de A Verdade, La Vérité, seu efetivo mais recente trabalho em cinema.

Continuando a linha de raciocínio do parágrafo inicial, é-o enquanto filme de investigação criminal sem espaço para os apontamentos graciosos característicos no autor, subvertendo o género Thriller ao manter a dúvida erradicando a tensão. Em termos práticos ficamos com um assumido abrandamento do ritmo sequencial, promovendo as condições necessárias a sua agenda reflexiva.

Discorrendo de forma conexa sobre o destino, a verdade e o sentido de justiça, nunca o pensamento, colocado na boca essencialmente de Takashi Misumi, o réu, e Tomoaki Shigemori, seu advogado de defesa, se distancia de filosofia de algibeira, ao léu colocando fundações da narrativa já de si fragilizadas pelo dúbio enquadramento de personagens, e por conseguinte, na sustentação de suas ações.

Filipe Urriça, A Favorita (TVCine Top)

Tenho uma certa curiosidade em ver filmes que foram nomeados para os Óscares, sobretudo aqueles que vencem. Foi por isso que, quando vi A Favorita na grelha de programação dos canais TVCine, decidi ver o filme que deu o Óscar de Melhor Atriz Principal a Olivia Colman.

A Favorita é um filme sobre a relação entre as amizades e a influência que o poder político tem nestas relações. É um filme que só poderia ser bom se pudéssemos verificar que há, efetivamente, uma química entre as três atrizes que protagonizam esta película. Felizmente, existe uma excelente relação entre as três atrizes - Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz - que dão vida a três personagens caricatas.

Olivia Colman ganhou, mas se o prémio tivesse sido atribuído a Stone ou Weisz, não teria sido mal entregue. O desempenho emocional de cada uma destas atrizes é fenomenal e conseguem ter um espectro de expressões emocionais muito vasto. Isto é um filme sobre a realeza de Inglaterra no século XVIII, nunca escolheria um filme deste género se não fosse ainua curiosidade em saber o porquê deste filme ter ganho este destaque todo.

A Favorita é um filme recomendável, não só pelas excelentes interpretações, mas pela exposição do jogo político da corte inglesa. Até seria capaz de o ver diversas vezes para reparar nas nuances de cada interpretação.

Continuem a conversa nos fóruns VideoGamer!