VideoGamer Portugal por - Jan 23, 2022

O que andamos a ver, 23 de janeiro, 2022

O que andamos a ver este domingo leva-nos por um filme de animação que não arrisca e não petisca, por uma das obras que marcou o cinema português nos últimos anos e por mais um colosso que dá pulmão ao catálogo do Disney+.

Abrindo o catálogo do Prime Video, o Pedro Martins teve oportunidade de assistir a Hotel Transylvania: Transformania. Não esperem uma proposta de animação capaz de encantar e de vos fazer ligar com emoções ou pensamentos profundos. O molde é familiar e o resultado final é algo que não é memorável a longo prazo, mas que também não incomoda.

O que é memorável é Cavalo Dinheiro, o filme assinado por Pedro Costa que é tido como um marco no cinema português dos últimos anos. “A fragmentação do dispositivo narrativo é ordenada pelas memórias de Ventura e seus consortes, numa cadência de espectros lentos que murmuram feridas,” escreve o Marco.

Para terminar esta edição da rubrica O que andamos a ver, o Filipe Urriça versa sobre Eternals, mais um blockbuster que alimenta o Disney+. O redator ficou rendido ao que viu, chegando a afirmar que “não liguem aos agregadores de críticas, vejam Eternals, é genuinamente bom”.

Pedro Martins, Hotel Transylvania: Transformania (Prime Video)

Hotel Transylvania: Transformania não foi criado para mudar a vida de quem o vê. Ao quarto filme, a saga protagonizada por Dracula, assenta a aventura num argumento centrado numa misteriosa arma que é capaz de transformar monstros em humanos e humanos em monstros. É ligeiro, mas entretém quem vê; não encanta, mas também não aborrece.

Dracula deixa de ser vocalizado por Adam Sandler e passa a ter a voz de Brian Hull, contracenando com Ericka (Kathryn Hahn), a sua filha Mavis (Selena Gomez) e o seu marido, Johnny (Andy Samberg). De regresso está também Van Helsing (Jim Gaffigan), que tem a arma que transforma Johnny num dragão e o Dracula num humano.

Isto acontece porque Dracula tinha intenções de entregar o seu Hotel Transylvania à sua filha, mas perde a coragem e afirma que tal não poderá ser feito porque Johnny é humano. Sem grande surpresa, o cristal que alimenta a arma perde o efeito e o elenco tem que se aventurar para encontrar um substituto.

As piadas dependem muito da comédia física que, por sua vez, está dependente da edição. É verdade que alguns cortes se repetem e é também verdade que o cerne da película não varia muito dos filmes anteriores. Contudo, Hotel Transylvania: Transformania tem o coração no sítio certo, não querendo ser mais do que é.

Está disponível em exclusivo no catálogo do Prime Video e não chega aos noventa minutos de duração. Entra na vossa vida, passa a mensagem sobre família e aceitação, e sai. A dupla de realizadores, Derek Drymon e Jennifer Kluska, é competente, colocando ao serviço da gigante do comércio digital uma proposta familiar – ou para ser vista enquanto recarregam a massa cinzenta. E, às vezes, uma soalheira manhã de domingo não precisa de muito mais.

Marco Gomes, Cavalo Dinheiro (DVD)

Com a evanescência física de João César Monteiro e Manoel de Oliveira, respectivamente em 2003 e 2015, ficou disponível entre viventes o posto de mais reconhecido realizador português aquém e além-fronteiras.

O nome mais consensual a o ocupar é Pedro Costa, em paz com o estatuto. Quem faz uma carreira à margem, não vive de e para estatutos. Filho de outro realizador, Luís Filipe Costa, apresenta argumento suplementar para ser daqueles digno sucessor, a difícil convivência da obra com o público compatriota.

Outra relação mais apaixonada, com as gentes de Cabo Verde, acabou por lhe moldar vida e percurso artístico desde a segunda longa-metragem, Casa de Lava (1994), mas terá no díptico Cavalo Dinheiro (2014), Vitalina Varela (2019) a mais cravada marca dessa influência.

Abrindo com fotografias de Jacob Riis vendo-se plasmada a indigência vivencial de africanos e afro-descendentes em Nova Iorque na fronteira dos séculos XIX e XX, faz aí Cavalo Dinheiro paralelismo com a rude integração da comunidade cabo-verdiana em território nacional.

A fragmentação do dispositivo narrativo é ordenada pelas memórias de Ventura e seus consortes, numa cadência de espectros lentos que murmuram feridas. Nem sempre justificada no carácter simbólico, a teatralidade imposta aos quadros parece ganhar urgência inédita em Costa, e mesmo que às custas da desenvoltura do conjunto, distanciando seu horizonte criativo de praticamente tudo o que a arte cinematográfica ofereceu neste começo de milénio.

Filipe Urriça, Eternals (Disney+)

Eternals era o filme da Marvel Studios que mais curiosidade tinha em ver, dado que não conhecia o conceito das personagens e da narrativa. A minha curiosidade também vem, em parte, das aglomerações críticas do Metacritic e do Rotten Tomatoes que têm sido bem mais baixas do que outros filmes notáveis do universo cinemático da Marvel, o que me deu ainda mais vontade de ver o filme. Captain Marvel sofreu um lançamento semelhante e adorei o filme, por isso, adivinhei que ia gostar muito do filme e não me enganei, é um dos melhores da Marvel.

Imagino que é preciso uma condição muito própria para se ter a criatividade necessária para se chegar à ideia geral de Eternals. Dado que Eternals toca em conceitos filosóficos do existencialismo e metafísico da condição humana, é como termos uma pequena fração do que Kierkegaard, Sartre e Nietzsche argumentam. Portanto, adorei a escrita e a direção que o filme tomou, ou seja, foi praticamente andar em sentido contrário a um típico filme da Marvel.

Em vez de ação em quantidades excessivas, temos diálogos excelentes e momentos mais pausados dignos de uma boa fotografia. Fiquei com pena de Chloé Zhao só ter raspado superficialmente o lado filosófico das questões que foram colocadas e das respostas que foram dadas. Mas claro, basta termos noção que isto é um filme da Disney para percebermos que há limites impostos aos produtores daquilo que podem ou não fazer.

Eternals tem, obviamente, falhas. Uma das maiores lacunas são as personagens pouco desenvolvidas. Há um ou outro Eternal com mais protagonismo e, por isso, não sofre tanto com o seu desenvolvimento, mas com um grupo de Eternals maior do que os Vingadores, é difícil dar destaque a todos. Por muito que seja irrelevante, além de um elenco bastante diversificado, ainda houve a sensibilidade de colocar uma personagem muda que comunica através de língua gestual, tal como Maya em Hawkeye.

Porém, apesar de ter gostado bastante de Eternals, ainda não consigo perceber como é que este filme se vai encaixar nesta fase do MCU, principalmente pelas personagens que são apresentadas e do seu papel em futuros projetos da Marvel. O melhor que Eternals faz é dar um novo contexto aos outros filmes dos super-heróis com os quais já estamos familiarizados. Para acabar só vos digo isto: não liguem aos agregadores de críticas, vejam Eternals, é genuinamente bom.

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