por - Feb 24, 2019

Black Mirror: Bandersnatch – Crítica

Black Mirror é uma série de grandes finais, mas raramente de finais felizes. Ao longo de várias temporadas, Charlie Brooker e companhia foram aperfeiçoando a nobre arte, não de nos fazer temer a tecnologia, mas de mostrar aos espectadores que o futuro pode não ser tão risonho como outras peças de entretenimento afincadamente mostram.

Os fãs provavelmente já saberão, mas a série está de regresso. Esta manhã estreou uma novidade que não é uma nova temporada, mas sim um filme com uma duração de aproximadamente noventa minutos. Porém, não é um filme nos moldes que estão habituados. Black Mirror: Bandersnatch é um filme interactivo, com o espectador a ter um papel muito menos passivo que até agora.

Não é a primeira vez que a Netflix brinca com esta fórmula, mas é a primeira vez que o faz com uma das suas principais propriedades intelectuais. Na prática, estamos perante aquilo que pode ser o arranque de uma nova estirpe de entretenimento, diluindo de forma considerável a linha que separa filme ou televisão e videojogo, aproximando-se muito de jogos como The Shapeshifting Detective ou The Infectious Madness of Doctor Dekker – para não mencionar as obra da Telltale e até mesmo da Quantic Dream.

Mas começando pelo arco narrativo propriamente dito, Bandersnatch arranca em julho de 1984 e tem em Stefan o seu protagonista. Stefan vive para a criação de videojogos e está obcecado com uma nova obra que está a desenvolver: Bandersnatch, um videojogo baseado num livro com múltiplas escolhas. Empreendimento enorme do ponto de vista da programação, o protagonista arranca a trama a deslocar-se aos escritórios de uma produtora, onde tentará vender o seu conceito.

Contudo, enquanto o filme passa grande parte do seu tempo a contemplar o desgaste emocional que a criação do jogo tem na psique de Stefan, há inúmeras ramificações que vão alimentando o argumento, dando-lhe a substância que se presta à parte interativa. A sua mãe morreu num acidente ferroviário quando ele tinha apenas cinco anos, e na produtora Stefan encontra Colin, um reconhecido programador e criador de vários jogos que definiram a indústria.

Estas linhas narrativas que lidam com os problemas e situações acabam por se cruzar na instabilidade mental do protagonista: uma instabilidade que já lá estava antes do stress da criação do jogo, mas que ganha novos contornos com a pressão exercida com o aproximar da quadra festiva e a exigência de publicar o videojogo atempadamente. E tudo isto é exponenciado pela tenacidade e mantra de ficção científica de Black Mirror.

Quanto mais o filme avança, mais se compreende o impacto psicológico que tudo isto está a ter em Stefan, com Brooker – que escreveu a película – a aproveitar a sua extensa experiência no mundo dos videojogos para não só inserir várias referências temporais, mas também a dar credibilidade ao argumento, seja no aspecto dos jogos que vão sendo apresentados, seja no jargão usado. A verdade é que quando o filme termina, sente-se claramente que as personagens não são as mesmas e sente-se também que, enquanto espectadores, passamos uma temporada a andar num labirinto tentando encontrar uma saída, tal como estas personagens.

A forma como a parte “interactiva” está implementada funciona bastante bem. Não só têm direito a um breve tutorial antes do filme começar, como se alinha perfeitamente com as mecânicas dos jogos já mencionados. Na prática, em diversos pontos da história aparece uma barra na parte inferior do ecrã com várias escolhas. O espectador pode fazer aquela que achar mais indicada antes da barra com o tempo decrescente chegar ao final. Caso não façam nenhuma escolha, a Netflix escolhe por vocês e o filme continua.

Isto resulta por dois motivos. Primeiro, porque a temporização nunca é demasiado longa, ou seja, não há momentos estranhos em que os atores em cena ficam simplesmente parados sem nada para dizer ou fazer, resultando num processo dinâmico para quem vê. E resulta também porque há uma curva na importância das escolhas feitas, ou seja, desde escolher que cereais é que queremos para o pequeno-almoço ou que música queremos ouvir no autocarro até às derradeiras escolhas, há um crescendo e a interiorização das mecânicas – que chegam mesmo a prestar-se a entregar ao espectador o papel de ser ele próprio a escrever uma palavra-passe e a marcar um número de telefone.

De notar, porém, que inicialmente a concentração no que está a acontecer em cena pode ser um pouco diluída com a antecipação de quando chegará a próxima escolha e também que pode sentir-se que se está a perder algo por escolher a hipótese A e não a hipótese B. Não é algo propriamente novo para quem experimentou os videojogos, mas será interessante perceber como é que a audiência que chega a Bandersnatch sem essa experiência lidará com as várias bifurcações narrativas.

A escrita não tem também medo de quebrar a quarta parede graças a estas mecânicas, um claro piscar de olho a quem vê que acaba por ser um dos momentos mais memoráveis do filme, pois acrescenta uma nova dimensão ao argumento e envolve quem vê de uma forma ainda mais profunda. Pode ser um filme ocasionalmente confuso, especialmente no último terço graças ao caminhar em círculos que alguns trilhos podem trazer à obra, mas nunca senti que essa complexidade labiríntica me fizesse perder o significado do final.

E não, não há apenas um final para ver, tal como seria expectável. Black Mirror: Bandersnatch pode ser um marco no entretenimento ou pode ser um caso isolado. Acredito que tudo vai depender da opinião e dos números registados pela Netflix. O que fica desde já definido é que, mesmo sem ser o melhor de Black Mirror, o aspecto interativo dá-lhe claramente uma nova dimensão, muito porque a escrita de Brooker continua a ser recomendável.

Black Mirror: Bandersnatch é descrito pela própria Netflix como um “filme interativo”, contudo acaba por ser uma experiência. Se são fãs das temporadas anteriores, é muito provável que gostem da nova proposta, que não é suficientemente diferente para ganhar uma nova legião de fãs. A minha experiência com Bandersnatch foi esta e a maravilha deste formato é que a vossa experiência com a nova criação de Brooker e do realizador David Slade poderá ser completamente diferente.

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