Publicado no dia em que o país vota nas eleições presidenciais, este artigo dominical conta com três sugestões para ocuparem o tempo que passarem em casa antes ou depois de exercerem o vosso direito. Há três propostas díspares que estão presentes em duas plataformas diferentes.

O primeiro texto apresenta as considerações que Pedro Martins tece a O Tigre Branco. O filme estreou sexta-feira na Netflix e chega ao catálogo da gigante do streaming como uma adaptação do livro assinado por Aravind Adiga. É a viagem de  Balram Halwai, que passa de pobre a empresário de sucesso ao longo de duas horas.

Não deixem também de ler as palavras de Marco Gomes sobre os três primeiros episódios de Viagens Pelo Cinema Francês, obra de Bertrand Tavernier que foi editada em Portugal pela Midas Filmes. É um arranque que vale a pena, segundo o Marco, com “a dimensão sonora e sua dinâmica nos ritmos da imagem” a serem pontos de destaque na abordagem de Tavernier.

Finalmente, a última participação este domingo é assinada por Filipe Urriça. O redator escreveu sobre Pokémon: Mewtwo Contra-Ataca - Evolução, obra que está também disponível no catálogo da Netflix Portugal. Depois de os créditos aparecerem no ecrã, menciona o Filipe que estamos perante uma peça de entretenimento que não merece o vosso tempo se não conseguirem encontrar a versão sem cortes.

Pedro Martins, O Tigre Branco (Netflix)

Baseado no livro de Aravind Adiga, O Tigre Branco estreou no catálogo da Netflix na passada sexta-feira. Conta-nos a história de Balram (Adarsh Gourav), que começa a película na pobreza e ascende ao estatuto de empreendedor. São praticamente duas horas onde ficamos a conhecer essa ascensão e tudo o que foi necessário.

Balram deixa para trás o seio de uma família que vive com praticamente nada e tenta a sorte como motorista de uma família abastada. Privando sobretudo com o filho Ashok (Rajkummar Rao) e com a esposa do mesmo, Pinky Madam (Priyanka Chopra), o protagonista vai ganhando calo e perdendo a inocência, ou melhor, deixando a ambição tomar conta das suas atitudes.

Logo nos primeiros minutos, O Tigre Branco mostra-nos que Balram obteve sucesso, ou seja, a curiosidade passa a ser como é que chegou lá. É uma película pejada de comentários sociais sobre a estratificação social na Índia, com o protagonista a ser tratado sem qualquer respeito por diversas personagens. Além disso, há dois momentos que definem a trama: tanto mostrando o que as pessoas que o rodeiam são capazes de fazer, quanto mostrando ao que o próprio Balram está disposto.

Não tive oportunidade de ler o livro de Adiga, mas a película consegue ter momentos interessantes, especialmente na janela que abre para uma Índia de polos tão distintos. Mas mesmo sem ser uma recomendação retumbante, O Tigre Branco tem em Rajkummar Rao  um ator que brilha pelo seu magnetismo que cresce consoante a transformação da personagem que coloca no ecrã.

Marco Gomes, Viagens Pelo Cinema Francês - Episódios 1 a 3 (DVD)

O mercado doméstico de Cinema em Portugal é estimulante o suficiente para de quando em vez nos surpreender com lançamentos improváveis, como a de Viagens Pelo Cinema Francês (2017) editado pela Midas Filmes. Série de oito episódios, cada com duração aproximada de cinquenta e cinco minutos, dividida por três DVD.

Da autoria de Bertrand Tavernier, escrita e realização, ele próprio cineasta de currículo internacionalmente avalizado, aí residindo o grande factor diferenciador do registo enquanto exercício explicitamente pessoal guiado por seu conhecimento, memória e gosto.

Dos três episódios constantes do disco iniciático o título dos dois primeiros desde logo o atesta, “Os Meus Cineastas de Cabeceira” parte um e dois, não desiludindo o conteúdo ao convocar nomes pouco expressivos fora de território gaulês como Jean Grémillon, Henri Decoin e Marcel Pagnol. Aos quais juntará os mais reconhecidos Sacha Guitry, e, principalmente, Max Ophüls (alemão com parte significativa da carreira feita em França) e Jacques Tati.
 
Uma das particularidades mais destacadas na abordagem de Bertrand Tavernier prende-se com a dimensão sonora e sua dinâmica nos ritmos da imagem, enfatizada na primeira metade do episódio terceiro, “As Canções/Julien Duvivier”. Nele elenca compositores que pontuaram o meio nas décadas trinta a cinquenta do século passado, atores cantores provenientes do espectáculo de variedades e, num fenómeno pouco analisado, realizadores autores de canções.

Vários cineastas referenciados no primeiro terço da série entram no lote dos mal-amados, uns porque o valor da obra ainda espera que lhe faça jus a História, outros a quem aquela não encontrou estima em vida ou os incapazes de sociabilização empática como Julien Duvivier que levou o fervor pelo métier ao extremo, acabando consumido pela solidão.

Filipe Urriça, Pokémon: Mewtwo Contra-Ataca - Evolução (Netflix)

O primeiro filme de Pokémon tem uma história curiosa, o original do Japão foi cortado e este ausência de conteúdo altera completamente o filme, sobretudo quanto ao protagonista Mewtwo. A Netflix recebeu o que intitula de uma produção original, quando Pokémon: Mewtwo Contra-Ataca - Evolução é apenas o mesmo filme mas com uma direção artística diferente - por isso, na minha opinião era escusado terem feito este filme.

A minha grande, no entanto, seria tirada nos primeiros minutos do filme. Infelizmente, esta nova versão do filme não tem como base o original japonês. Além de faltar um bom pedaço do prólogo, a animação digital deste filme não funciona sempre bem, é quase repugnante ver as expressões típicas do animé retiradas com a direção artística desta versão Netflix.

Brock, o que tem mais expressões deste género, quando se apaixona pela enfermeira Joy, fica com uma aparência muito estranha quando mostra através do seu rosto distorcido o que sente pela enfermeira. No animé este tipo de expressões são hilariantes de tão exageradas que são, nesta produção digital interrogo-me como é que aquilo passou para a versão final do filme.

Apesar destes problemas, mesmo a versão intacta do filme não é nenhuma obra de génio, é um bom filme, nada de mais. Há algumas questões filosóficas que são levantadas quanto à clonagem e à condição humana. Mas é óbvio que um filme destinado a crianças não vai responder a estas questões. Poderia, mas não o faz. Sinceramente, não aconselho ver este filme, mas se conseguirem comprar um DVD do filme de 1998 sem cortes, é um filme que vale a pena ver.

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