por - May 24, 2020

Bright, o Grinch da Netflix em 2017

A Netflix quis dar um presente de Natal aos que assinam o seu serviço. Bright, filme que foi ganhando tracção por ser uma produção cara e por ter Will Smith como protagonista, era esse presente. Acabei de ver o filme ao início da tarde e é inquestionavelmente um enorme falhanço. Bright não é apenas um daqueles filmes maus, é uma película paupérrima – um daqueles exemplos que exalta quem vê, que gasta a paciência até à exaustão.

Podem pensar em ver a obra enquanto dão umas férias de duas horas à massa cinzenta, mas não é o caso. Não demora muito até o cérebro perceber que terá que pensar inúmeras vezes como é que isto foi aprovado pela Netflix, como terá sido difícil a vida de quem nas reuniões terá dito “se calhar era melhor adiarmos a estreia; se calhar era melhor repensarmos aquilo que vai ser visionado por largos milhares em quase todos os cantos do mundo”.

Mas vamos por partes. Ainda que tenha quase duas horas de duração, o arco narrativo assinado por Max Landis não perde muito tempo a dar contexto às personagens e a esta realidade alternativa em que Los Angeles não é apenas uma cidade onde reinam os humanos. Cinco minutos depois do início e vemos Daryl Ward (personagem interpretada por Will Smith) a desfazer à vassourada uma fada. Literalmente a desfazer, entranhas espalhadas no relvado e tudo.

Imagens Critica Bright

Ward é polícia nesta Los Angeles mitológica. O seu companheiro é Nick Jakoby (um Orc interpretado por Joel Edgerton). No mínimo dos mínimos para dar contexto ao que estamos a ver, percebemos que Jakoby não é bem-vindo na força policial depois de ter falhado uma detenção que acabou por danificar a carreira de vários. 

Logo aqui, nesta integração de raças, o filme torna-se uma piada de mau gosto, não tendo qualquer tacto para lidar com uma metáfora que até podia ser interessante – um comentário social que facilmente podia levar o espectador a pensar na realidade em que vive. Mas não, tudo é atabalhoado, tudo é raso ao mínimo dos mínimos. Claro que não resulta e o espectador percebe logo o martírio que vai ser terminar de ver esta chalaça que não devia ser apelidada de “filme”.

Aos humanos, aos Orcs e às fadas, juntam-se os Elfos. O problema é que nem todos podem ser Tolkien, como é comprovado nestas frases seguintes. A dupla de polícias tem que proteger uma jovem Elfo que detém uma Varinha Mágica. A Varinha é capaz de convocar o mal. E os Inferni querem a todo o custo ficar na posse da Varinha Mágica. Se isto parece uma composição feita para o terceiro ou quarto ano, é porque bem podia ser. Digam-me se já viram este argumento em algum lado: há o mal e o bem numa luta que coloca em causa a humanidade. 

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Irrita perceber que Bright podia ser algo minimamente interessante, mas foi completamente estraçalhado por duas horas de clichés em clichés. Não falta a corrupção, claro que não, e gangues hispânicos, uma vez que parece ser obrigatório sempre que olhamos para Los Angeles. E claro – claro! – que apenas as entidades superiores podem tocar na Varinha Mágica sem se desintegrarem. Essas entidades, esperem pelo nome original, chamam-se Brights.

Em teoria, talvez tenham pensado que isto serviria alguma reviravolta interessante. Na prática, é algo que todos adivinham desde o início e a surpresa é demorar tanto a acontecer. Bright é desprovido de conteúdo, um ovo com uma casca bonita, mas vazio. Olhando para o cômputo geral do argumento ficamos com essa ideia; olhando para o pormenor da escrita essa ideia é sublinhada.

Os diálogos parecem escritos à pressa, apanhando ideias e frases soltas no meio de um autocarro em hora de ponta. O humor tem a profundidade de uma folha de papel vegetal e a inteligência de um pisa-papéis. Reparem neste rendilhado trocado entre Ward e Jakoby: “- Somos Amigos?” “- Não somos amigos.” “-Não me queres como amigo”. Uma cabeçada na parede tem mais métrica.

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Fica a ideia que apenas Edgerton faz o mínimo esforço para apresentar uma performance minimamente interessante – sim, um dos Orcs. A produção foi cara, sendo avançados valores entre os 90 e os 100 milhões de dólares. Talvez o dinheiro tenha sido gasto nos efeitos especiais, além do que foi necessário para convencer Will Smith a alinhar nesta piada. Há efeitos bons, há efeitos muito bons, há efeitos que parecem apressados na pós-produção. 

Todo o filme é pautado por explosões de palavrões e ocasionais cenas de ação que nos relembram que a televisão ainda está ligada. De uma ponta à outra é tudo em banho-maria, tudo sem pontos altos, porque isto de entusiasmar ou de surpreender o espectador requer talento. Digo mais: só vi Bright até ao fim porque tinha que escrever este texto. Uma hora parecem duas horas e as duas horas de duração parecem anos. 

É preocupante como é que a Netflix consegue resultados tão bons com séries e tão fracos com filmes. Ironicamente, muito – mesmo muito melhor – que Bright é The Meyerowitz Stories, filme que suspeito não tenha custado 90 ou 100 milhões de dólares. Seja como for, os executivos devem pensar bem no que estão a fazer, no processo que estão a usar para serem um nome de respeito no mundo cinematográfico.

Imagens Critica Bright

Olhem para o que a A24 está a fazer. A produtora que filme após filme lança histórias profundas e emocionais. David Ayer também realizou Esquadrão Suicida e com Bright responde à pergunta “o que poderá ser pior que isto?”. Têm Netflix? O meu sincero conselho é que dediquem o vosso tempo a Dark e Mindhunter. Esperem por Black Mirror e fiquem a apanhar o queixo do chão. O catálogo tem tantas, mas tantas, séries excelentes, que ver Bright é pressionar o botão errado.

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