VideoGamer Portugal por - Mar 24, 2019

Castlevania (Netflix) – Segunda Temporada – Crítica

Ainda que possa estar fresca na memória dos que a viram, a primeira temporada de Castlevania chegou à Netflix há mais de um ano. Apanhando bastantes fãs de surpresa, o calcanhar de Aquiles da primeira toma acabou por ser mesmo a sua longevidade. Felizmente, haverá novos episódios para ver em breve.

A segunda temporada será composta por oito episódios – o dobro do que ficou disponível em 2017. Depois de ter tido oportunidade de assistir a seis, o número disponibilizado pela Netflix, fica claro a sensação de continuação, a sensação de que, sem ser apenas mais do mesmo, é uma segunda temporada que certamente será acarinhada pelos fãs que ficaram à espera de mais.

O arco narrativo está claramente dividido em dois focos, com os espectadores a começarem a nova temporada a testemunharem o que aconteceu a Lisa, mulher de Vlad Dracula Tepes, em Wallachia, no ano 1945. Parte da narrativa acompanha Dracula, focando-se no seu castelo e no plano que está a tecer para a batalha. A segunda parte acompanha um trio de personagens que investiga o que pode fazer para salvar a humanidade face às intenções do próprio Dracula.

É um trio composto por Trevor Belmont, Sypha e Alucard, que como já deverão saber é meio-humano e filho de Dracula. O problema que isto levanta é que, aproximadamente durante dois terços dos episódios que tive oportunidade ver, a série dedica-se a dar profundidade às personagens do trio recorrendo à exultação da química que há entre elas, não necessariamente recorrendo a momentos fracturantes ou particularmente memoráveis. 

Isto não é propriamente mau do ponto de vista narrativo, até porque nunca chega a ser maçador ouvir as piadas infantis entre Trevor (que explica a origem do seu nome) e Alucard (que basicamente não está para o aturar), tal como não é maçador ouvir a voz da razão que é Sypha nas diversas tentativas de colocar água na fervura – mencionado até que “Trevor não teve oportunidade de concluir a sua infância”.

A questão é que há claras quebras de ritmo na forma como isto é apresentado, ou seja, particularmente depois de chegarem à biblioteca onde fazem a sua pesquisa, não se passa muito de verdadeiramente fascinante – algo que está guardado para o quinto e sexto episódios. Há alguns vislumbres de emoção – como quando Belmont encontra a Morning Star – mas demora até começar a carburar com todos os cilindros que tem à disposição.

Na frente liderada por Dracula, há muita desconfiança e ameaças de traição entre os seus planos. Curiosamente, os momentos mais interessantes nem são alimentados por Vlad, mas sim por Carmilla, uma nova personagem que está disposta a quase tudo para minar os seus planos, e também Godbrand, um Viking, e pela dupla Hector e Isaac, humanos escolhidos pelo Dracula para serem o seu braço direito na extinção da raça humana.

Graças a flashbacks com um ritmo cuidado, conhecemos os seus passados interessantes e, sem grande surpresa, torturados. Ou seja, até ao momento, é quando a narrativa está focada aqui que está melhor. E isto faz com que os problemas de ritmo acabem por ser ainda mais notórios. Aliás, julgo que tal não é ainda mais penoso porque os episódios são apresentados em doses de aproximadamente 25 minutos.

Não deixa de ser irónico – e provavelmente estudado pela Netflix – que seja no final do sexto episódio que esta colisão se torna iminente, o que promete um final de temporada com potencial, ou pelo menos o potencial suficiente para me fazer sentir motivado para o ver. Isto não quer dizer que a segunda temporada de Castlevania é má – porque não é – quer dizer apenas que podia haver uma coesão no ritmo entre os dois vértices narrativos.

Outro ponto curioso é a forma como a ação é apresentada na segunda temporada. Um dos aspectos mais proeminentes durante a primeira temporada, aqui é dada uma amostra durante o arranque, antes de chegarem as cenas que fazem os olhos arregalar. Não só são cenas memoráveis, como são ritmadas de uma forma incrível – como se fossem camadas, os espectadores ficam a achar que já não há mais; antes de ser revelado que mais uma e outra cabeça degolada era apenas o início.

Isto atesta a qualidade da animação, que continua a ser excelente, seja na atenção dada aos pormenores, como sobretudo na mestria com que Castlevania nos transporta para uma atmosfera gótica que fica connosco à laia de vários cenários escolhidos a dedo para embalar os espectadores. É deveras notável como no meio de tamanha fantasia, a animação faz com que este mundo seja credível o suficiente para não passarmos a temporada a questionar o que aconteceu no ecrã.

No outro campo técnico a excelência continua. Primeiro, a banda sonora é memorável: não só é épica, como está presente na maioria das cenas, dando a Castlevania um cunho épico. E a vocalização não lhe fica atrás. Graham McTavish como Dracula – ainda a lamentar o que aconteceu a Lisa -, Richard Armitage como Trevor, Alejandra Reynoso como Sypha e James Callis no papel de Alucard, continuam a compreender o cômputo geral da série, sendo credíveis e absolutamente indissociáveis da qualidade da obra.

Se gostaram da temporada de estreia de Castlevania, vão certamente apreciar os novos episódios. Não tem o mesmo efeito surpresa, obviamente, mas não é uma desilusão, mesmo com os problemas de ritmo já mencionados. E é uma série com algo a dizer além dos corpos esventrados, mostrando até onde pode ir a cegueira por um ídolo ou a força que tem a inequívoca vontade de impor a sua ideia. Isaac, por exemplo, que acredita tanto em Dracula que menciona que é o seu líder que fará um mundo limpo e puro.

A segunda temporada de Castlevania estreia em exclusivo na Netflix dia 26 de outubro.

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