por - Mar 25, 2018

Com Altered Carbon, a Netflix mostra-nos os perigos de viver demasiadas vezes – Crítica

Desde os primeiros minutos que se percebe que a Netflix apostou forte em Altered Carbon, a nova série de ficção científica que acaba de ficar disponível no seu catálogo de streaming. Ao longo dos últimos dias tive oportunidade de ver os dez episódios que compõem esta primeira temporada. A sua nova série original tem muito a dizer, mas não evita alguns solavancos pronunciados na fluidez deste primeiro capítulo.

Não tanto como Dark, mas Altered Carbon é intransigente na atenção que exige ao espectador. Centenas de anos no futuro, a vida e a sua cessação não assentam nos moldes como conhecemos em 2018. Para os ricos daquela sociedade – conhecidos como Meths -, morrer pode não ser morrer. É uma utopia que não demora muito a passar a distopia. O berço que o arco narrativo embala ao longo de aproximadamente dez horas é precisamente a revelação dos perigos de se viver demasiadas vezes.

A consciência humana pode agora ser armazenada num Stack, um implante circular colocado entre o crânio e a espinha. Fazendo lembrar um disco rígido futurista, estes Stacks podem passar de corpo em corpo, que em Altered Carbon se chamam Sleeves. Ou seja, um homem pode ser uma mulher, um adulto pode ser uma criança, as raças não se distinguem, com a combinação de carne e feições a ser perfeitamente descartável.

Imagens Critica Altered Carbon Netflix

É uma trama rica, a transbordar de mensagem atual, algumas vezes corrosiva. Não é de estranhar, uma vez que tudo isto foi inspirado no livro de Richard K. Morgan. Não olhar a géneros nem a raças podia correr bem, mas no futuro, a sociedade continua gananciosa, sedenta de poder, a lutar pela morte definitiva – sim, se o Stack for destruído, essa pessoa não poderá passar para um novo Sleeve.

Altered Carbon acentua ainda mais a diferença entre os Meths e os restantes membros da sociedade, colocando-os a viver numa parte distinta da cidade, acima daqueles que se consideram superiores. Laurens Bancroft é um desses Meths e a trama arranca com ele a contratar Takeshi Kovacs para investigar a sua própria morta. Bancroft viveu várias vezes em corpos clonados do original. Agora quer saber quem o matou. 

Pode parecer mais um caso de investigação, um whodunnit mascarado de cyberpunk, contudo, aquando do final da temporada, posso assegurar que esse veio narrativo nem sequer é o principal. Obviamente, escrever sobre a segunda metade da temporada em pormenor é estragar a surpresa, mas posso mencionar que há muito que circunda a morte de Bancroft, com o argumento a munir-se de várias ramificações para se manter relevante.

Imagens Critica Altered Carbon Netflix

Remover praticamente a mortalidade de um estrato social, faz com os membros desse restrito clube percam grande parte da noção do medo, o que lhes dá uma vontade de serem semideuses patrocinados por bolsos fundos. Nos seus pontos mais podres, é uma sociedade mais vil do que a que conhecemos da nossa mera existência. 

Infelizmente, ter uma história relevante não é o mesmo que ter uma história ritmada. O meu problema não é com a atenção exigida, pois acaba por ser um interessante puzzle de quem é quem, de quem habita determinado corpo em determinado momento. Não, o meu problema é que em diversos episódios a construção narrativa tem momentos que simplesmente se arrastam em demasia, aproximando-se perigosamente do espectador perder o interesse por completo no que está a acontecer no ecrã.

Kovacs tem que lidar com a força policial em vigor, ou seja, há alguém que investiga o investigador. Ainda que a explicação de tal acontecer ser uma reviravolta interessante, a dinâmica entre o protagonista e Kristin Ortega, polícia, nem sempre funciona a favor da narrativa. E os flashbacks, que servem para contextualizar de onde é que estas personagens chegaram até aqui, ocasionalmente parecem ocupar demasiado espaço no episódio.

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E é pena que tal aconteça, pois nos últimos dois episódios, as pontas começam a ser atadas mais rapidamente, o ritmo começa novamente a apanhar os nossos colarinhos. Não é, ainda assim, uma série que devam evitar logo à partida. Nos seus momentos de ficção científica mais apurada, sente-se perfeitamente uma profundidade de pensamento a ser usada para surpresas genuínas e para nos fazer pensar na sociedade, na sua evolução.

Os momentos que ficarão comigo estão relacionados com a consciência humana, a forma como a série a coloca em vários patamares de realidade e brinca com isso para enaltecer a nossa percepção. Já na recta final, há uma personagem que diz algo como “no plano da realidade estão a matar-me”. Remover o limite físico do corpo deu uma liberdade particular ao autor.

Altered Carbon é também muito provavelmente a série mais violenta da Netflix até ao momento. Sim, há alguns tiros em cabeças, ossos expostos – uma cena em particular com as costelas marcadas de dentro para fora nas costas salta-me à memória, mas refiro-me à violência como algo cru, como algo que não é visível nas cenas de luta que inclui, mas sim na rudeza da linguagem.

Imagens Critica Altered Carbon Netflix

Há vernáculo em praticamente todos episódios e há também nudez a rodos. Nudez artística e filmada de ângulos enquadrados para não revelar demasiado? Não. São inúmeras cenas de nudez frontal que deixam pouco à imaginação. A nudez faz parte do meio – a HBO que o diga –  e pode enaltecer uma série, mas aqui não se escusa a resvalar momentaneamente para o gratuito. Vejam a série, cheguem ao oitavo episódio e prometo que têm aí uma cena de luta memorável – por vários motivos.

O arco narrativo tem estes altos e baixos, algo que não se aplica à atmosfera cyberpunk. A comparação mais fácil é Blade Runner, contudo, os neons e a chuva e os placards, tudo em conjugação serve para que não tenham dúvidas do que estão a ver. Isto é especialmente vibrante nas zonas mais pobres, contudo, o contraste com a zona dos Meths está bem feita – o negro dá lugar ao claro celestial, aproximando-os à já mencionada figura de semideuses sem qualquer pingo de remorso.

É uma atmosfera que se impregna mesmo nos cenários que não foram criados por computador, fazendo lembrar o pano de fundo de videojogos como Horizon. É particularmente aqui, em todo este ensemble, que se passa a sentir Altered Carbon como uma grande aposta da Netflix. E o elenco também tem alguns nomes conhecidos que assinam performances que não desiludem.

Imagens Critica Altered Carbon Netflix

Kovacs é o grande destaque. Interpretado por Joel Kinnaman, que tinha estado ainda melhor em The Killing – série que também podem ver na Netflix. Ainda que não tenha presença assegurada em todos os episódios, é impossível deixar de assinalar a performance de James Purefoy como Bancroft. Martha Higareda faz o que pode com a sua Ortega. 

Enfim, é simples. Gostam de ficção científica e têm um fraquinho por cyberpunk? Então provavelmente já estavam convencidos a dar uma oportunidade a Altered Carbon. Par os fãs que nunca toleraram o género, dificilmente estará aqui a vossa primeira paixão. Perdoem-lhe os problemas de ritmo e terão um interessante puzzle para resolver em dez episódios. Se o investimento da Netflix não fosse crença suficiente para uma segunda temporada, espero francamente que este final indique que pelo menos mais dez episódios serão confirmados nos próximos tempos.

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