Nesta edição da rubrica semanal onde a equipa VideoGamer Portugal escreve sobre o entretenimento não-jogável que lhe tem passado pelo ecrã, há duas propostas Netflix e uma consideração sobre o cinema português. São três recomendações bastante díspares que marcaram os três membros da equipa de formas bastante diferentes.

Michael Jordan nunca chegou a desaparecer, mas agora está novamente nas luzes da ribalta graças a um novo documentário. The Last Dance, que depois de ser produzido pela ESPN está a ser exibido em Portugal pela Netflix. O Pedro Martins viu os dois episódios disponíveis e está a contar as horas até o terceiro ficar disponível.

O Marco Gomes continua a descobrir a fonte de conteúdo que é o Vimeo, este domingo escrevendo sobre Os Mutantes, um dos filmes mais “emblemáticos” de Teresa Villaverde, segundo adjetiva o próprio Marco. Podem ler as suas considerações a meio deste artigo.

Finalmente, o Filipe Urriça termina esta edição da rubrica semanal com as suas palavras sobre I Am Not Okay With This que, tal como The Last Dance, pode ser visto no catálogo da Netflix. Não é a primeira vez que a adaptação de Charles Forsman é chamada a este espaço, restando saber se a opinião do Filipe coincide com o que o Pedro Martins já tinha argumentado em março.

Pedro Martins, The Last Dance (Netflix)

Não sou o maior fãs de basquetebol do mundo, mas tal como milhões de pessoas, cresci com a clara noção que Michael Jordan estava a definir a sua geração. Da minha adolescência ficaram também os ecos de nomes como Pippen e Rodman, dos Bulls que faziam história conquistando campeonatos da NBA depois de terem passado pelas ruas da amargura.

Agora, em 2020, a ESPN dedicou uma série documental a essa época, a esses jogadores, a essa equipa. Chamou-lhe The Last Dance, pois foi esse o nome que o treinador Phil Jackson deu à época que começou quando lhe tinha sido dito na cara que seria a última. A Netflix está a transmitir os episódios em Portugal e o arranque tem tanto de formidável como de informativo.

Dos dez episódios estão disponíveis dois neste momento, precisamente os que vi. Há algo quase mágico em ver jogadas que emocionam mesmo quem não respira basquetebol, mas há também tempo para ficarmos a conhecer melhor as origens de vários jogadores, sendo uma dupla de episódios marcada por Jordan e Pippen.

Há também muito drama, ou melhor, há o drama de situações que na altura não me chegaram. Pippen, que foi uma das principais figuras de suporte a Jordan, assinou um contrato milionário, mas longo, demasiado longo. Quando estava no auge valia muito mais do que os Bulls lhe estavam a pagar. Ele sabia e os Bulls também. Uma lesão expôs a falta que fazia, a desmotivação tratou do resto.

The Last Dance é um documentário que permite compreender aquele período na história da NBA sem perder a noção que tem em mãos algumas das imagens mais emocionantes do desporto. As entrevistas estão incluídas também, o que deixa o espectador ouvir as lendas comentarem as suas carreiras, o que sentiram naqueles momentos em que chegam a ser comparados aos The Beatles, tal era a sua popularidade, mesmo na Europa. O terceiro episódio estreia amanhã, dia 27, e só tenho que pena que não seja já hoje.

Marco Gomes, Os Mutantes (Vimeo)

Tempos e textos diferentes, menos sobre o particular, fazendo roteiro do que aqui se vai vendo. Por ordem de visualização, nem de propósito, inicia-se com um filme de viagem que, em período totalmente dedicado à feitura nacional, foi integralmente rodado em super 8mm nos Estados Unidos da América das estradas que realçam desertos. Da autoria de Pedro Maia, Rita Lino e Paulo Furtado, esse mesmo, The Legendary Tigerman, assumiu-se Fade into Nothing (2017) como proposta dúplice também em cine-concerto.

O Primeiro Verão (2014), ficção de quotidiano em contexto documental de Adriano Mendes transborda sinceridade e amadorismo, nunca negando o que é, um registo iniciático. Dito isto, revela a vontade de fazer de quem começa e o muito que tem a crescer, colhendo elogios pela tenra idade com que enfrentou o projeto acumulando realização, argumento, banda sonora e representação.

Ao abordar Montanha (2015) aqui o dissera tendo a esperança de, por bons motivos, não o voltar a fazer. Face à visão e talento demonstrado, falta cumprir o destino a João Salaviza. Tudo o que faz tem qualidade indesmentível mas não suficientemente único para o alçar à elite. Na curta-metragem Altas Cidades de Ossadas (2017) retorna às minorias étnicas nas cercanias da grande urbe para, se me permitem a piada, nos entregar um Pedro Costa a cores. Sobra-lhe uma componente visual de arrebate.

A Raposa da Deserta (2015) é uma abordagem clássica de Pedro Neves ao documentário tendo como eixo o único habitante da, traindo assim o nome, Ilha Deserta no Algarve. A favor do modesto exercício está a figura peculiar de Fernando Alves, conhecido apenas por “Alves”, bom conversador, amigo de seu amigo e Professor Pardal nas horas vagas.

Os Mutantes (1998) é o filme mais emblemático de Teresa Villaverde e, não será exagero afirmar, já ganhou estatuto de clássico de nosso cinema. Sua terceira longa-metragem é um repisar da temática de juventude sem norte numa visão negra do enquadramento institucional de crianças, quer pelo comportamento desviante quer pela precária condição socioeconómica dos progenitores.

Caminhando sobre a frágil estrutura da consistência global, sente-se a fita como um ajuntamento de quadros de discrepância variável entre planeamento e concretização, elevando-se pela pulsação irreverente e destemida face aos cânones técnico-processuais. Destaque igualmente para a estreia no formato longa-metragem de uma das mais fascinantes atrizes portuguesas, Ana Moreira, à altura de um papel de elevada exigência com dezoito anos.

Filipe Urriça, I Am Not Okay With This (Netflix)

Johnathan Entwistle e Charles S. Forsman são dois argumentistas que revelam bastante experiência a escrever narrativas apelativas em forma de série. The End of the F***ing World (TEOTFW) e, uma recente entrada na Netflix, I Am Not Okay with This (IANOWT), são séries surpreendentes apesar de terem uma curta longevidade por temporada.

Talvez por não se afastar tanto da normalidade, ou pela química entre Sophia Lillis e Wyatt Oleff, gostei muito mais de ver I Am Not Okay with This do que The End of the F***ing World. Contudo, os traços da forma como é contada a trama em TEOTFW também estão presentes em IANOWT.

A narrativa é contada na primeira pessoa, por Sydney (Sophia Lillis), uma jovem que vive com o peso emocional da perda do seu pai. Incentivada a escrever um diário pela psicóloga da escola que frequenta, são essas páginas que ouvimos, as emoções dolorosas de alguém que perdeu o pai misturadas com todas as vivências da adolescência e ainda a descoberta de ter poderes telecinéticos. É muito peso para uma jovem só suportar, felizmente é mais fácil ultrapassá-los com amigos como Dina e Stanley.

Stanley rouba um pouco do protagonismo a Sydney e ainda bem que o faz. É uma personagem que parece banal, mas que no fundo tem muito mais do que revela à superfície. É também com Stanley que se passam grande parte dos momentos mais cómicos da série.

E desconfio que Stanley Barber será uma personagem com uma relativa importância na segunda temporada, visto que ficou com o diário de Sydney nos momentos finais da temporada de estreia. Só espero que a continuação não demore muito a chegar.

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