Enquanto a nova semana de trabalho não arranca, há ainda tempo para ver algo no vosso ecrã se os videojogos não forem opção para este domingo. Como é habitual, a equipa VideoGamer Portugal está de regresso com três recomendações num trio de plataformas diferentes.

O primeiro a dizer de sua justiça é Pedro Martins, que durante os últimos dias teve oportunidade de ver os oito episódios de Little America, a mais recente aposta do serviço de streaming da Apple. E é, segundo o próprio, uma das melhores séries que podem ver se tiverem o serviço da empresa da Cupertino.

Posteriormente temos ainda mais duas propostas. O Marco Gomes dedicou o seu tempo a Amar, Beber e Cantar, obra que está disponível desde 2014 e que se destaca pelo seu trabalho cenográfico, segundo escreve o Marco. Finalmente é a vez de Filipe Urriça tecer considerações sobre Captain Marvel, como podem ler no final deste artigo.

Pedro Martins, Little America (Apple TV+)

Contando oito histórias de imigração, Little America consegue captar a atenção de quem vê não apenas pela esperança que transmite, mas também pelo ritmo dos episódios. É uma primeira temporada composta por oito fragmentos antológicos, ou seja, não há uma continuação entre cada uma das propostas, o que lhe dá um fôlego enorme.

Isto permite mudar o elenco, mas sobretudo o local onde decorre e as origens dos imigrantes, tocando no espectador quase sempre pela compreensão do que foi deixado para trás. Há um homem que chega a Oklahoma vindo da Nigéria perseguindo uma educação melhor sem nunca esquecer o fascínio pelos cowboys. Há uma família iraniana que tem no seu pai a força da determinação - determinado a construir uma casa de sonho apesar de encontrar uma enorme rocha no terreno.

Little America raramente perde o sentido de humor e os diálogos memoráveis, mas também nunca esquece o drama destas famílias. Uma estudante sem documentos legais oriunda do México desafia o destino e torna-se campeã de squash. Uma mulher chega a Louisville vinda do Uganda. Passa mal, mas graças a não esquecer os costumes do seu povo singra a vender bolachas - convidando a sua mãe para a visitar e para conhecer a sua nova padaria.

Não menos importante é que estamos perante episódios inspirados em histórias verdadeiras originalmente relatadas na Epic Magazine. No final de cada episódio são mostradas várias fotografias das pessoas que estiveram nas origens dos episódios e um breve resumo conta-nos como é que as suas vidas prosseguiram. Little America consegue mostrar o drama, o humor, mas sobretudo a esperança. Se tiverem uma subscrição Apple TV+, é muito provavelmente a melhor série que têm disponível.

Marco Gomes, Amar, Beber e Cantar (DVD)

Consciente ou inconsciente de que Amar, Beber e Cantar (2014), da tradução literal gaulesa Aimer, boire et chanter, seria o derradeiro projeto antes de corporeamente nos deixar pouco tempo após concluído aos noventa e um anos, não deixa de conter transcendente carga simbólica ter Alain Resnais nele escolhido adaptar “Life of Riley”, peça de Alan Ayckbourn tendo por eixo os últimos meses de vida de uma personagem invisível, George Riley.

A leveza da proposta sente-se desde logo na contextualização despreocupada ao situar-se no condado de Yorkshire em Inglaterra, tendo dele apenas um vislumbre iniciático e curtos trechos de transição nas paisagens campestres que ladeiam a rodovia quando todo o elenco é francês, incluindo companheiros de longa data do realizador, e na língua nativa expressarem-se frente às câmeras.   

O dispositivo estrutural com que o guião adaptado ganha vida muito não difere de, por exemplo, o seu díptico de 1993, Fumar/Não Fumar, alinhando-se com muitos rituais do teatro para mostrar a complexidade da psique humana na relação de um controlado número de entidades, no caso seis, três casais, somando-se-lhes outras três existentes apenas na alusão daquelas, com exceção de Tilly que aparece na cena de encerramento, e a voz de um sacerdote.  

Sendo no todo um valoroso canto do cisne, existe todavia um departamento onde Amar, Beber e Cantar dá lição a quantos creem que a ambiência fílmica se compra na quantidade de zeros à direita nos orçamentos e/ou na maratona de efeitos especiais barraqueiros. Singelo nos valores, é o trabalho cenográfico de fino recorte no compromisso entre simplicidade e inventividade, creditando-se acima dos elementos nele envolvidos Dominique Bouilleret, direção de fotografia, e Matthieu Beutter, direção de arte.

Filipe Urriça, Captain Marvel (TVCine Top)

Vi, novamente, Captain Marvel, um dos filmes mais odiados pelos fãs do universo cinematográfico da Marvel. Há duas razões para que tal tenha acontecido: uma polémica no site Rotten Tomatoes e comentários de Brie Larson em relação ao filme. Sou da opinião que Captain Marvel é um bom filme e, dadas as classificações que obteve, acho que é um dos filmes mais subvalorizados da Marvel.

Como a Marvel Studios queria que a heroína participasse em Avengers: Endgame, Captain Marvel foi feito para responder a essa necessidade. Contudo, não é um filme que foi feito à pressa. Conta-se a sua origem de forma clara e concisa, apesar de haver períodos cronológicos deixados em branco.

É uma narrativa que conta com todo o tipo de momentos emocionais. Há ação que chegue e sobra, também há algumas ocasiões que nos fazem esboçar uns sorrisos, assim como outras situações de maior impacto dramático, sobretudo em relação à origem de Carol Denvers.

Captain Marvel existe pela sua personalidade forte não pelo poder que exala dos seus punhos. Denvers é uma pessoa que não desiste, que tem uma determinação e convicções inabaláveis. E vê-la a superar dificuldades, o que é muito complicado de exemplificar numa personagem com tanto poder, é realmente interessante.

Obviamente, este filme não é o melhor do universo cinematográfico da Marvel, mas estou convicto que não é um dos piores e está longe de ser tão mau como o pintam. Acho que se deve ver pela presença que tem em Endgame, porém não ficarão perdidos na narrativa se o filme vos passou ao lado.

Continuem a conversa nos fóruns VideoGamer!