Este domingo, dois terços dos textos que estão prestes a ler referem-se a obras que estão disponíveis em exclusivo no catálogo Netflix. O Pedro Martins voltou à sua paixão por documentários para perceber as valências de Unsolved Mysteries, série que repesca casos em aberto que, como o título deixa antever, nunca chegaram a ser resolvidos.

O Marco Gomes foi o único a não dedicar o seu tempo à gigante do streaming, optando por assistir a Tráfico, filme português realizado por João Botelho. Escreve o Marco que estamos perante uma obra com um “alto teor satírico”, continuando acutilante em 2020 apesar de ter estreado em 1997.

Finalmente, o Filipe Urriça voltou também à Netflix e assistiu a The Umbrella Academy. Depois da primeira temporada ter estreado em fevereiro, 2019, a segunda temporada está quase a chegar, ficando disponível dia 31 de julho. As palavras do Filipe podem ser encontradas no final deste artigo.

Pedro Martins, Unsolved Mysteries (Netflix)

Agora tido como uma das mais recentes novidades da Netflix, Unsolved Mysteries começou a sua jornada nos anos oitenta e noventa. Não tive oportunidade de assistir à encarnação original, mas durante os últimos dias assisti aos novos episódios que estão disponíveis no catálogo da gigante do streaming.

É uma série documental que apresenta seis episódios, cada um edificando um caso diferente. Recorrendo a uma fórmula que já lhe deu saborosos frutos anteriormente, a Netflix foi buscar Terry Dunn Meurer e John Cosgrove, criadores do formato original, e conta ainda com o talento de Shawn Levy, produtor de The Stranger Things.

Vale a pena ver estas investigações, que variam entre pessoas desaparecidas, pessoas que morreram em circunstâncias suspeitas, e que se estica para incluir o misterioso avistamento por vários testemunhas de um Objecto Voador Não Identificado em Berkshire em 1969. O método assente em entrevistas de figuras principais e da reconstituição do que terá acontecido já tinha sido testado, mas continua a espicaçar o interesse do espectador.

Ainda assim, Unsolved Mysteries provocou-me a sensação que vai perdendo fulgor com o passar dos episódios, isto é, que o arranque é mais apelativo do que a segunda parte. Não devem esperar investigações com um final, algo que é transversal a toda a temporada, a começar pelo título.

Marco Gomes, Tráfico (DVD)

Fazendo da coincidência propósito, outra semana de um realizador português cujo território de nascença é seiva do ofício. A condição de João Botelho como autor para consumo essencialmente interno muito deve à principal matéria-prima, grandes clássicos da literatura nacional.

Deles não sendo adaptação, embora recorra a inúmeros excertos, é sua oitava longa-metragem, Tráfico (1997), comédia de alto teor satírico sobre o caso lusitano, ou não tivesse o inequívoco subtítulo “Uma Comédia Portuguesa”. A direito cortando em caricaturas e estereótipos de estratos sociais diversos e de diversa influência na sociedade.

O registo é como o medley da banda-sonora no acompanhamento dos créditos finais. Se a opção prima pelo invulgar no cinema de autor, sua utilização comum não deixa de ser hegemonicamente frívola. Ao todo aplicado, vemos um intercalar de sequências de engenho desgovernado, ora em humor recesso, mesmo com isso brincando, ora guindando-se a patamar superior no intelecto do riso.

Delas a mais icónica, Paulo Bragança cantando “A Portuguesa” num cabaré, é-o pela carga simbólica, mas facilmente ultrapassada por Nuno Melo alegando indignado possuir a inteligência média de um europeu, Adriano Luz à bulha com um autorrádio onde só sai poesia declamada, ou a derradeira onde José Pinto e José Eduardo leem uma passagem d’Os Desastres de Sofia de Condessa de Ségur no meio de uma lixeira.

Filipe Urriça, The Umbrella Academy (Netflix)

Vi The Umbrella Academy e fiquei satisfeito por ter visto uma série que nada tem a ver com os heróis da Marvel ou da DC. Porém, esta série da Netflix é baseada numa banda desenhada menos conhecida, criada pelo vocalista da banda My Chemical Romance. É uma série que tem os seus altos e baixos como qualquer outra, mas acaba com uma boa nota, apesar de nos forçar a querer visionar a próxima temporada, que está quase a estrear.

Esta é uma narrativa muito invulgar, no que a heróis coloridos diz respeito. Cerca de quatro dezenas de crianças nasceram ao mesmo tempo, sem sequer as suas progenitoras estarem grávidas. Um excêntrico bilionário, atento a este fenómeno, decide adoptar sete destas crianças e educá-las de acordo com os poderes que desenvolvessem. Depois de atingirem a maioridade e de haver alguns problemas na família, separaram-se todos e cada um deles foi à sua vida, até ter sido necessário voltarem a juntar-se.

Sem união familiar, há um evento catastrófico que vão tentar impedir de acontecer. E é precisamente isto que os vai unir, apesar de haver comportamentos e temperamentos mais complicados de gerir, porque alguns têm poderes ligados às suas emoções mais profundas. Ainda há ocorrências relativamente a viagens no tempo que vai criar um episódio totalmente irrelevante, assim como complicar aquilo que os irmãos querem impedir de acontecer.

Há boas interpretações, contudo, a atriz mais conhecida do elenco, Ellen Page, só se destaca no fim, visto a sua personagem ser muito fechada e apática. Também é notável a química que existe entre vários pares, pessoalmente adorei Hazel e Cha-cha. Agora estou realmente interessado em ver a continuação desta aventura que ficou bruscamente interrompida. Felizmente, vi esta série na altura certa, pois não vou ter que esperar muito até poder ver o que acontece a estes irmãos.

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