A última edição da rubrica O que andamos a ver de 2020 chega com três recomendações para terminar o ano, duas das quais advindas do catálogo Disney+ em Portugal. Publicada no meio das celebrações festivas, é também o momento para a equipa VideoGamer Portugal desejar a todos os leitores uma excelente entrada em 2021, esperando que tenham tido o melhor Natal possível.

Na primeira contribuição podem ler as palavras de Pedro Martins sobre o grande destaque Disney+ esta semana. Mais concretamente, fiquem a conhecer a opinião do diretor de conteúdos do VideoGamer Portugal sobre Soul - Uma Aventura com Alma, a mais recente produção da Pixar que chegou ao catálogo do serviço na passada sexta-feira, dia 25 de dezembro.

De seguida é a vez do Marco Gomes explanar o que ficou consigo depois de assistir a Máscara de Aço Contra Abismo Azul. Película assinada por Paulo Rocha, versa sobre as obras de Amadeo Souza-Cardoso. Escreve o Marco que o realizando vai também “manipulando de forma cínica comentários de visitantes de uma exposição retrospetiva de Amadeo na Fundação Calouste Gulbenkian”.

Finalmente é a vez de Filipe Urriça escrever sobre Mandalorian, série que continua a ser um dos principais motivos para muitos terem uma subscrição Disney+. O redator teve oportunidade de assistir à primeira temporada, que se revelou ser suficientemente boa para que tenha continuado com, para já, três episódios da segunda. A recomendação desta “excelente” série está então assegurada.

Pedro Martins, Soul - Uma Aventura com Alma (Disney+)

Estava previsto para o grande ecrã, mas a pandemia trocou as voltas a Soul - Uma Aventura com Alma, a mais recente produção da Pixar, e a estreia aconteceu em exclusivo no Disney+ dia 25 de dezembro. Perdem-se as dimensões do aparato no grande ecrã, mas não se perde o impacto, a excelência do arco narrativo e da animação, nem tão pouco a mensagem que os espectadores levam da película co-realizada por Pete Docter e Kemp Powers.

Levando quem vê até Nova Iorque, Soul conta-nos a história de Joe Garner (Jamie Foxx), um pianista de jazz que é também professor de música numa escola secundária. O protagonista recebe uma proposta para passar a professor a tempo inteiro, promoção que lhe garantirá uma estabilidade profissional e pessoal. No mesmo dia, conquista a oportunidade de tocar ao vivo com o Quarteto Dorothea Williams, numa clara batalha entre enveredar pela segurança ou perseguir o sonho e a paixão.

Nesse dia, contudo, Joe morre. Não é um spoiler, é literalmente o que acontece no início do filme e o que alimenta o argumento. Soul assenta os seus ganchos emocionais e narrativos no que acontece à alma antes e depois de uma pessoa falecer; Soul consegue, de uma maneira praticamente imaculada, dançar entre estes dois planos esquivando-se aos clichés tantas e rotineiras vezes associados à alma.

Todos os leitores interessados em ver a obra devem fazê-lo sem saber praticamente nada sobre a mesma, mas importa ainda mencionar que há um lugar etéreo onde as almas recebem as suas feições. Neste lugar, Joe conhece uma alma, simplesmente conhecida como Número 22 (Tina Fey), que não tem qualquer interesse em ganhar um corpo na Terra. Por sua vez, Joe está desesperado para regressar ao seu corpo a tempo de subir ao palco com Williams (Angela Bassett).

Há, naturalmente, uma porção do filme que decorre no domínio das almas e outra porção que edifica digitalmente Nova Iorque. Decisão inteligente da Pixar, diversificando os cenários que nos passam pelas retinas. A produtora tem um olho artístico irrepreensível e um pulmão tecnológico que eleva Soul. Os detalhes da Grande Maçã dão-lhe vida e carisma, dão-lhe estatuto de personagem por direito próprio na obra.

Os efeitos de luz e as texturas são irrepreensíveis, tal como são as expressões das personagens e a representação da música. Soul é protagonizado por um músico e os detalhes das cenas que envolvem instrumentos musicais brilham pela sua autenticidade. Brilho que, aliás, não se perde na aferição da própria banda sonora - Trent Reznor, Atticus Ross e Jon Batiste estão envolvidos e o resultado são temas jazz que agasalham o cômputo geral do filme.

Num ano complicado, a Pixar edifica uma viagem em redor da existência. Pergunta qual é o nosso propósito, sim, mas também versa sobre os prazeres e os encantamentos tantas vezes anónimos enquanto vivemos. O tema é naturalmente pesado e complexo, mas a produtora dá-lhe uma roupagem própria, conquistando pequenos e graúdos, seja pelos pensamentos que se afundam em quem vê, seja pelo sentido humor que nunca perde a sua inteligência, seja por uma animação que atinge uma qualidade única. Vejam-no e vivam.

Marco Gomes, Máscara de Aço Contra Abismo Azul (DVD)

“Um aviso. Neste país nos próximos cem anos será assim! Amadeo, Pessoa, Pessoa, Amadeo. Mais ninguém!”

Três décadas volvidas sobre a declaração final da primeira cena, equivalendo a mais de um quarto do período referido, constatamos não ser equiparável a justiça feita a esses nomes maiores da modernidade artística portuguesa. A poesia de Fernando Pessoa alcançou estatuto universal. A pintura de Amadeo de Souza-Cardoso espera ainda os encómios devidos.  

Nesse peditório deu Paulo Rocha em 1989 com, aludindo a títulos de obras do amarantino, Máscara de Aço Contra Abismo Azul. Objeto intrigante desde logo na catalogação, documentário ficcional, procurando pela invenção colmatar lacunas documentais sobre um tão precoce talento quão breve percurso em vida. Nascido em 1887, faleceria em 1918 aos trinta anos.

Para tal não se privou Paulo Rocha de recursos expressivos, manipulando de forma cínica comentários de visitantes de uma exposição retrospetiva de Amadeo na Fundação Calouste Gulbenkian, idealizando segmentos que transpiram o ambiente cultural de Lisboa à época, seus principais dinamizadores, assim como referências internacionais para o autor ou fazer cenário de algumas das pinturas e personagens nelas inscritas, dando estas voz a apontamentos biográficos.

Filipe Urriça, The Mandalorian (Disney+)

Ontem acabei de ver a primeira temporada - e mais três episódios da segunda - de The Mandalorian, a coqueluche do serviço de streaming Disney+. Primeiro devo dizer que The Mandalorian é o melhor conteúdo da atribulada saga Star Wars que alguma vez vi. Segundo, é um formato que encaixa perfeitamente no mundo Star Wars.

Adorei a primeira temporada desta série criada para o Disney+. Se a Netflix tem Stranger Things como porta-estandarte, se o serviço Prime Video da Amazon tem Fleabag e a HBO tem Game of Thrones, The Mandalorian é, definitivamente, a série que têm de ver quando subscreverem ao Disney+. O universo Star Wars tem gigantescas oportunidades para contar histórias fantásticas e sinto que só agora é que a Disney está a fazer render a mina de ouro que comprou a George Lucas.

The Mandalorian conta a história de um caçador de recompensas que vive segundo a cultura e a doutrina dos mandalorianos, que são facilmente identificados pela armadura e capacete que usam, tal como Boba Fett. É Pedro Pascal quem dá vida a esta personagem numa realidade em que poucos têm conhecimento dos Jedi e da Força que podem utilizar. É por isso que a personagem carinhosamente intitulada de "Baby Yoda" pelos fãs é tão emblemática.

Quem vê sabe o que são os poderes utilizados por alguns Jedi e malfeitores do Império. É normal que nem todos, no vasto universo de Star Wars, saibam o que é ter um poder simplesmente chamado de Força. Há muito mais narrativas que podem ser descobertas em Star Wars do que uma simples oposição entre o bem e o mal, Kuiil e IG-11 são as melhores personagens desta primeira temporada e tive pena do destino que Jon Favreau lhe deu.

O que é certo, é que esta é uma boa altura para se ser fã de Star Wars, visto que no último evento da Disney houve uma enxurrada de anúncios relativamente ao mundo idealizado por Lucas. Depois de ver The Mandalorian irei, muito possivelmente, ver The Clone Wars, porque fiquei fascinado pelo facto de virmos a ter uma série dedicada à Ahsoka Tano. Enfim, vejam The Mandalorian, é excelente.

Continuem a conversa nos fóruns VideoGamer!