VideoGamer Portugal por - Mar 27, 2022

O que andamos a ver, 27 de março, 2022

O que andamos a ver deste domingo versa sobre um trio de filmes. Antes de março chegar ao fim, o Pedro Martins acedeu à Netflix para testemunhar Visitas Inesperadas, uma experiência narrativa que certamente será amada por alguns e detestada por outros tantos. Unânime, porém, parece ser um final que demorará algum tempo até ser esquecido.

Três Irmãs é a escolha de Marco Gomes. Realizado e escrito por Bing Wang, é uma proposta que nos transporta até uma pequena casa nas montanhas da região de Yunnan. Afirma o Marco que “de todas as sub-categorias da miséria a mais nociva é a de esperança, como lembra a passagem em que o avô prega um ralhete à neta de dez anos por estudar quando devia vigiar o rebanho”.

A terminar esta edição da rubrica semanal encontramos as palavras de Filipe Urriça, que dedica uma segunda opinião a Free Guy: Herói Improvável, obra que já tinha sido mencionada por Pedro Martins em janeiro. É divertido e “dá uma outra perspetiva de como é que os jogos poderão hipoteticamente evoluir graças aos avanços tecnológicos no campo da Inteligência Artificial”.

Pedro Martins, Visitas Inesperadas (Netflix)

Visitas Inesperadas – ou Windfall na versão original – é um filme contido praticamente até aos últimos cinco minutos. Realizado por Charlie McDowell, conta-nos a história de três personagens que vivem a película num vácuo – uma casa no meio do nada – depois de um encontro, bem, inesperado no arranque da obra.

Um ladrão, personagem sem nome interpretada por Jason Segel, está numa casa que não é sua quando os donos regressam. Jesse Plemons empresta o seu talento a um CEO de uma empresa e Lily Collins dá vida à sua mulher. São praticamente noventa minutos para lidar com os efeitos secundários deste encontro.

O filme guarda o seu trunfo narrativo para o final, dando ao espectador uma viagem pelas peças que vão sendo reveladas deste trio de vidas. Durante este sequestro amador, há alguns imprevistos, como por exemplo a chegada de um jardineiro incrivelmente talentoso (Omar Leyva).

Podemos encarar Visitas Inesperadas como um filme em que (quase) não acontece nada, porém, gostei da experimentação narrativa. A escrita é usada para edificar personagens num marcante momento nas suas vidas.Três interpretações bem conseguidas ajudaram a manter a minha atenção, sobretudo pelas interações que tendem a fugir do que é habitualmente retratado neste tipo de situações.

Talvez por conhecer os moldes em que iria apresentar o seu filme, McDowell não prolongou em demasia a sua longevidade. E é um final que deixará qualquer um de queixo caído, um culminar que coloca à tona mais uma camada de uma destas personalidades. Não é um filme que obterá uma opinião unânime, mas o cinema também é isto.

Marco Gomes, Três Irmãs (DVD)

Pode e deve-se classificar o produto do género documental por margem de independência consignada à reflexão do espectador. A vertente de conteúdo mastigado e em papinha entregue bifurca-se em díspar intenção, nem sempre perceptível por aqueloutro, ficando por tal o alerta: quem através de veículo audiovisual expressa opinião e quem a alheia procura manietar.

Mesmo nos espécimes furtados ao processamento ostensivo de informação, fazendo âmago da captura de imagem e som no envolvente, percamos a ingenuidade, a opção por filmar e posteriormente editar isto em vez daquilo é, mesmo em operação inconsciente, um ato político.

Há contudo impossíveis de corromper os sentidos a terceiros, e assim são desejados. Num trilho ascendente sinuoso escuta-se o arfar do esforço em o atacar a pé. Levo segundos mas por fim associo correctamente o som a quem filma e não aos filmados.

A ilusão -formulada da experiência comum com este meio artístico- cai por inteiro quando o pai e as menores chegam ao destino e o condutor do autocarro indaga se o “tipo da câmara” fizera reserva do título de transporte. Ao léu fica a humildade de produção, sustentada na perseverança de um indivíduo, Wang Bing. Até para documentários, incomum no circuito dos grandes festivais internacionais de cinema.

Três Irmãs (2012), San Zimei, choca pelo expectável quando a alta probabilidade não prepara a certeza. Escolheu o realizador uma família entre cerca de oitenta que habitavam Xiyangtang na península de Yunnan para auditar assimetrias na mais populosa das nações.

Pelas bugigangas e agora também utensílios hi-tech vai a China saciando o consumismo mundial enquanto revela dificuldades em levar alguma dessa fartura à porção ruralizada de território. Aí, de todas as sub-categorias da miséria a mais nociva é a de esperança, como lembra a passagem em que o avô prega um ralhete à neta de dez anos por estudar quando devia vigiar o rebanho.

Filipe Urriça, Free Guy: Herói Improvável (Disney+)

Gosto bastante de filmes que tenham como temática os videojogos ou usem elementos típicos deste meio. Por isso, decidi ver Free Guy: Herói Improvável no serviço de streaming da casa do rato Mickey. O filme é bastante divertido e cómico, mas obviamente que não é aqui que vão encontrar um filme que mereça ser candidato aos Óscares.

Ryan Reynolds interpreta uma personagem que está num videojogo similar a um GTA online. No videojogo representado no filme, Free City, a personagem de Reynolds, Guy, tem um papel passivo, ou seja é um NPC que não interfere com absolutamente nada nas tarefas do jogador, é um simples figurante que serve para enriquecer a cidade do jogo.

Contudo, numa certa altura do jogo, há um estímulo que faz despertar a sua Inteligência Artificial dando-lhe livre-arbítrio e uma consciência própria. E é precisamente esta particularidade do filme que o torna tão interessante.

Aparentemente, como Guy está limitado a agir no mundo onde existe, as suas ações não têm qualquer efeito no mundo real. Assim, haverá determinadas pessoas que vão usar Guy para os seus fins no mundo real. É quase surreal como é que um NPC tem quase uma relação íntima com uma pessoa que está apenas a jogar um jogo online. Guy, quando encontra a sua cara-metade partilha os seus sentimentos e paixões e há, quase, uma reação emocional da pessoa que interage com Guy.

Claro que aqui há inúmeras referências à cultura popular que são os videojogos e, como é óbvio, Fortnite – que é “só” o jogo mais famoso do planeta – tinha de ter uma referência. Até o streamer Ninja tem algumas linhas de diálogo. Enfim, vejam isto que é bastante divertido, até porque nos dá uma outra perspetiva de como é que os jogos poderão hipoteticamente evoluir graças aos avanços tecnológicos no campo da Inteligência Artificial.

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