Este domingo, a equipa VideoGamer Portugal regressa a este espaço para versar sobre um trio de propostas bastante díspares. Ainda que o sol pareça querer fazer parte dos resquícios do fim de semana, são dois filmes e uma série que podem abrir vias para o vosso tempo de lazer caseiro - tudo rico em emoções que não são tímidas.

O Pedro Martins teve oportunidade de assistir a Um Caderno para o Meu Filho, filme argentino que não tem quaisquer reticências a retratar o aproximar da morte e o que fazer com dias que nunca serão súbtis. Minutos sobre uma pessoa com cancro terminal não serão minutos solarengos, mas a espinha da mensagem pode ser aproveitada como uma nova perspetiva sobre o fim, sobre não colocar um ponto final após o último abraço.

Posteriormente podem ler os parágrafos que Marco Gomes dedica a Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões, que segundo o responsável pelas imagens que ilustram os artigos e as análises do site é uma pergunta sobre o que é uma família. Na resposta, continua, encontramos “um autor desassossegado”.

Finalmente temos as palavras de Filipe Urriça sobre o que continua a ser uma das pedras basilares do catálogo Prime Video, The Boys. O redator está agora na segunda temporada e atesta que “é incrível como pode ser tão graficamente chocante com as suas cenas de violência e divertido no sentido de ser quase cómico”. Uma recomendação para os leitores que gostam de super-heróis.

Pedro Martins, Um Caderno para o Meu Filho (Netflix)

Assinado por Carlos Sorin, Um Caderno para o Meu Filho - ou El Cuaderno de Tomy no seu título original - chega à Netflix advindo da Argentina para retratar a reta final da vida. Se a premissa parece dura desde o primeiro momento, é porque o é, até porque estamos perante entretenimento baseado numa história verídica - Vázquez morreu dia 21 de abril, 2015.

María Vázquez (Valeria Bertuccelli) está doente e sabe que vai morrer em breve. Atirada para uma cama de hospital, a protagonista reúne forças e vontades para se despedir nos seus próprios termos: escrevendo um caderno para o seu pequeno filho, Tomy, ler quando a maturidade adequada chegar. Sabendo de antemão o desfecho, Sorin, que também escreveu a película, tinha como derradeiro objectivo ilustrar uma mensagem sobre o tema que tem praticamente tanto de penoso como de tabu.

Ao longo de aproximadamente uma hora e vinte e três minutos, Vázquez salva a obra com o seu humor mordaz: da sua cama de hospital vê um mundo cada vez mais distante, lá fora, mas sem nunca deixar essa separação ser o factor determinante. Através do Twitter relata os seus pensamentos e achados morais, atinge a popularidade e é convidada para entrevistas; através do seu coração reúne amigos que transformam o seu quarto hospitalar num rodopio de emoções. E nas fundições do adeus: o seu marido e, naturalmente, o seu filho.

O caderno que acabaria por escrever foi transformado em livro e o filme não se escusa a tocar em temas satélites à morte e ao sofrimento: leia-se eutanásia. Não é preciso muita adivinhação para se adivinhar uma película emotiva, mas Sorin raramente cede ao patrocínio da lágrima fácil. “Nada dura para sempre”, é relembrado nesta comunicação entre mãe e filho que derradeiramente é uma comunicação para todos os vivos: as vivências mantêm e manterão os corações a bater, nem que seja nas nossas memórias.

Marco Gomes, Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões (DVD)

Já lá vai o tempo em que não só as premiações nos grandes festivais de cinema mediam o estado da arte como arriscavam num futuro interdito de compreensão ao presente.  

Mudaram as prioridades, mudou a agenda. Entre outras a ela chegada, o ajuda a explicar a Palma de Ouro atribuída em 2018 pelo júri presidido por Cate Blanchett no Festival de Cannes.

A atenuante do modesto alinhamento de candidatos ao galardão vale o que vale, lá existindo ainda assim trabalhos de nomes destacados como Asghar Farhadi, Jia Zhang-Ke, Lee Chang-Dong, Jafar Panahi e, claro, provavelmente a única lenda viva no meio, Jean-Luc Godard.

O vencedor desse ano é o filme que encerra a caixa da Legendmain Filmes sobre Kore-Eda Hirokazu ocupando este espaço no último mês, Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões, de título original Manbiki Kazoku.

O comentário acima tecido espelha uma apreciação de obra curta para o estatuto histórico do prémio mas não destituída de méritos próprios, antes pelo contrário.

A pergunta que levanta, O que é uma família?, e a resposta que concede, a estrutura comunitária elementar às sociedades onde os vínculos de afeto se devem sobrepor aos genéticos, continuam a revelar um autor desassossegado e comprometido com o quotidiano mas de visão, por vezes, confrangedoramente simplista, cujo trajeto é atualmente sobrevalorizado.

Filipe Urriça, The Boys (Prime Video)

Já comecei a ver a segunda temporada da grande série da Amazon Prime Video, The Boys. Além de ser muito boa, pessoalmente, a par com Doom Patrol acho que The Boys é a melhor série com super-heróis da vasta oferta que existe nos serviços de streaming.

Ainda só vi quatro episódios da segunda temporada, mas Antony Starr, que interpreta Homelander, é um ator genial. É incrível quanta emoção consegue expressar, quando se está simplesmente a sorrir para esconder essas mesmas emoções. Homelander ameaça sem precisar de o fazer, aliás as suas ações falam por ele.

A melhor decisão que tomaram para a nova temporada de The Boys foi colocar alguém que fosse um perigo para o ego de Homelander. Pelos trailers, vi logo que Stormfront fosse ser um problema para um super-herói egomaníaco e sedento de poder como aquele que é interpretado por Starr.

Contudo, Starr não é o único grande ator deste exclusivo Amazon, agora entrou em cena Giancarlo Esposito, o Gus Fring de Breaking Bad. Infelizmente, ainda não vi nenhuma cena que faça justiça ao seu grande talento como ator, a sua personagem tem a audácia de fazer frente a Homelander, para uns episódios depois não ter a mesma energia para enfrentá-lo.

Enfim, se gostam de super-heróis deviam ver The Boys, é excelente. É é incrível como pode ser tão graficamente chocante com as suas cenas de violência e divertido no sentido de ser quase cómico. Ainda não acabei de ver esta temporada e já estou curioso para saber como vão fazer a próxima.

Continuem a conversa nos fóruns VideoGamer!