Aqui está a primeira edição de 2021 da rubrica que versa sobre o que andamos a ver. Como é habitual, três membros da equipa VideoGamer Portugal sentaram-se para partilhar convosco as obras que têm passado pelos seus ecrãs. Antes, contudo, ficam os votos de um excelente 2021 para todos os nossos leitores e para os seus.

O Pedro Martins aproveitou os primeiros dias do novo ano para assistir a um documentário no Filmin Portugal - e é uma agradável e emocionante surpresa. Realizado por Patricio Guzmán, Nostalgia da Luz leva-nos até ao deserto do Atacama para sermos confrontados com a exploração espacial num paralelismo com a história das mulheres que procuram os restos mortais dos seus entes amados.

Sem sair do Filmin Portugal, a segunda colaboração este domingo é assinada pelo Marco Gomes. O Lux Film Days Online mostrou sete obras candidatas ou vencedoras do Prémio Lux, com o responsável pelas imagens das análises e dos artigos publicados no VideoGamer Portugal a versar sobre um quarteto, como podem ler neste artigo.

Saltando para a Netflix Portugal, o Filipe Urriça versa sobre High Score, o documentário que chama a lugar de destaque várias figuras para contar parte da história dos videojogos. Não é a primeira vez que esta rubrica acolhe a proposta do gigante do streaming, mas ficam assim a conhecer uma segunda opinião sobre a mesma.

Pedro Martins, Nostalgia da Luz (Filmin Portugal)

Nostalgia da Luz é uma surpresa para todos os espectadores que esperam uma obra sobre o estudo espacial. Realizado por Patricio Guzmán, o documentário que está disponível no catálogo do Filmin Portugal traça um paralelismo interessantíssimo e importante sobre dois temas que se sobrepõem no deserto do Atacama, no norte do Chile até à fronteira com o Peru.

Contando naturalmente com vários depoimentos de astrólogos e estudiosos sobre a observação astronómica, Nostalgia da Luz inspira ao incidir o seu foco sobre um grupo de mulheres que passa o deserto a pente fino enquanto procuram restos mortais dos seus entes queridos que foram vítimas da ditadura de Pinochet.

É angustiante e emocionante, é o retrato feito pelas próprias mulheres que nunca desistiram de tentar encontrar no solo algo que lhes proporcione fazer um luto digno do amor que ainda sentem por quem perderam. O grupo tem perdido membros com o passar do tempo, mas continua ativo, resiliente, capaz de enfrentar condições adversas pois essas mesmas condições são pouco comparadas com a dor que sentem.

Guzmán não entra em dramatismos escusados ou fabulados. É uma construção de dores reais que colocam à frente dos nossos olhos um período desolador. Nostalgia da Luz ganha ainda mais força quando as duas situações se tocam: as mulheres comentam o Espaço e os astrólogos versam sobre as mulheres que vasculham o deserto. É uma situação que merece a vossa atenção e, felizmente, fica apresentada com todo o tacto e respeito que merece.

Marco Gomes, Lux Film Days Online (Filmin Portugal)

Um pouco de batota por boa causa. O conteúdo versado esta semana é da anterior em verdade, simbolizando o fechar de um ano em que, muito no intuito de ajudar ao confinamento da população devido à pandemia, várias foram as iniciativas disponibilizando sem custos associados cinema para ver em casa, em especial nas plataformas de streaming.

Desta feita, de 18 a 24 de Dezembro tivemos no Filmin a secção Lux Film Days Online com sete obras candidatas ou vencedoras do Prémio Lux, eleito pelos deputados do Parlamento Europeu enquanto representação dos valores e diversidade da União Europeia. Dessas tive oportunidade de ver quatro, em baixo sintetizadas por ordem ascendente de preferência.

Vencedor na edição 2017 é Sami Blood (2016), Sameblod, um retrato da sueca Amanda Kernell sobre a discriminação de uma minoria étnica, lapões, também conhecidos como sámi, em seu país na primeira metade do século XX. Criando uma barreira à empatia com o espectador, principalmente através da personagem central nos dois períodos distintos de vida retratados, dela nunca se liberta, desembocando numa pouco trabalhada justificação para a sequência final.

Candidato ao prémio do presente ano, assim como ao Óscar de Melhor Filme Internacional representando a Polónia temos Corpus Christi - A Redenção (2019), Boze Cialo, de Jan Komasa. Partindo de acontecimentos verídicos, o que em filme se traduz paradoxalmente em matéria inusual para guião e registo acessível à formação cinematográfica da generalidade do público, muito se oferece aos excessos do momento e, semelhante ao caso anterior, à parca consistência dos fundamentos que enformam a vida e ações de Daniel, jovem delinquente que quando dá por ela se torna pároco não oficial de uma pequena localidade.

Mulher em Guerra (2018), Kona Fer Í Stríð, é uma comédia de Benedikt Erlingsson tendo como pano de fundo a afronta de uma activista ambiental às multinacionais poluentes operando na Islândia. Sem aspirar a ser mais do que é, conquista pessoalmente na inclusão de um recurso que, não sendo original, é elevado ao grau de sua mais impressiva marca identitária, a execução da banda-sonora em plena cena e relevância dos próprios músicos em apontamentos narrativos.

De um lote satisfatório, quanto muito, vai minha predileção para A Minha Vida de Courgette (2016), Ma Vie de Courgette, do suíço Claude Barras. Filme animado por modelação que descarta os universos de fantasia, retratando as vivências de um menino institucionalizado, e, mesmo que superficialmente, até pela classificação etária a maiores de seis anos, aflora tópicos habitualmente interditos no segmento como as relações sexuais, consumo de estupefacientes ou criminalidade gravosa.

Filipe Urriça, High Score (Netflix Portugal)

Confesso que estava um pouco relutante em ver High Score mas, dois episódios depois, fiquei convencido com o rumo e abordagem que tomaram em relação à História da indústria dos videojogos. Um projeto deste calibre só tem qualidade de acordo com os entrevistados que consegue arranjar ou às perguntas que lhes são feitas. E acho que é por aí que este documentário da Netflix é tão bom - pelo menos em relação aos dois episódios que vi.

O primeiro episódio, visto que este documentário de seis episódios segue uma ordem cronológica, tinha de ser o aparecimento e a implosão da indústria dos videojogos. Não sei quem seria melhor do que o criador do infame E.T., para a Atari 2600, Howard Scott Warshaw, para falar sobre este tema. Obviamente, que não foi este o jogo que causou o colapso da indústria dos videojogos, mas foi um dos fatores que levou à queda de um mercado que hoje é um dos mais valiosos.

O segundo episódio, muito mais interessante, porque foi nesta época que comecei a jogar, com o lendário Game Boy e o seu Tetris. Aqui o tema é o regresso da indústria dos videojogos através da Nintendo. Achei curioso, mas pertinente, terem ido buscar Hirokazu Tanaka para falarem da casa de Quioto. Para quem não conhece, também só o conheci depois de ver este episódio, este funcionário da Nintendo trabalhava no departamento de som, onde fez os efeitos sonoros e músicas de notáveis jogos do legado da Nintendo.

Também houve outro entrevistado que achei genial, porque era um consultor de jogos Nintendo, onde trabalhava num call center para receber chamadas de miúdos que não conseguiam ultrapassar níveis de certos jogos. E também fiquei a saber que esta foi a génese da revista Nintendo Power, um marco dos media de videojogos.

Enfim, acho que este documentário vale a pena ver, sobretudo pelo seu conteúdo histórico, visto que ainda conseguiram uma entrevista a John Kirby (advogado que defendeu a Nintendo) antes de ter falecido em 2019, assim como pela abordagem diferente que deram a uma produção deste género. Só acho que é pena que esta produção seja tão curta.

Continuem a conversa nos fóruns VideoGamer!