VideoGamer Portugal por - Jan 30, 2022

O que andamos a ver, 30 de janeiro, 2022

O que andamos a ver chega este domingo para versar sobre um trio de obras rico em emoções fortes e sobre como os espectadores têm oportunidade de as sentir no seu âmago. É um artigo sobre uma série, um filme português, e sobre um curta Disney.

Foi através do Prime Video que Pedro Martins teve oportunidade de ver seis dos oito episódios de As We See It. É uma série com um trio de protagonistas autistas, que mostra a quem vê a naturalidade dos altos e dos baixos. Uma recomendação inequívoca.

O Marco Gomes versa sobre Vitalina Varela, filme de Pedro Costa. Depois de na semana passada ter visto Cavalo Dinheiro, escreve neste O que andamos a ver que “apresenta estrutura narrativa mais linear, numa inflexão necessária a delimitar o abstraccionismo interpretativo daquele”.

A encerrar a rubrica este domingo temos as palavras de Filipe Urriça sobre a curta Longe da Árvore. São parágrafos que incluem uma série de reflexões sobre o que é ver propostas de animação enquanto pai – e o papel que as mesmas têm.

Pedro Martins, As We See It (Prime Video)

As We See It tem muito a dizer desde o primeiro episódio. Série com oito episódios, está disponível em exclusivo no catálogo Prime Video e é extraordinária, não deixando ninguém indiferente. Estamos perante lições de vida edificadas sem nunca cair num tom condescendente, sem nunca serem lições até cada espectador tirar, por si próprio, as ilações que conseguir ou que precisar.

No centro estão três jovens adultos com autismo. Violet (Sue Ann Pien) quer ser “normal”, ter encontros, encontrar o amor da sua vida; Jack (Rick Glassman) é um génio informático, sendo capaz de uma concentração que elimina o mundo à sua volta sem qualquer filtro; Harrison (Albert Rutecki) é o mais carinhoso do trio, mas tem pavor a sair do prédio onde habitam.

Os três são guiados por Mandy (Sosie Bacon), a sua assistente, que está a tentar – e tentada – ingressar no curso de medicina – uma decisão que lhe pode mudar a vida e que está a afetar a relação com o seu namorado. E, finalmente, os episódios contam também com Van (Chris Pang), o irmão de Violet, que lida também com a sua própria vida, com a sua namorada Salena (Vella Lovell) e com o cuidado apertado que dedica à sua irmã.

Os altos e os baixos das personagens de As We See It entram em cena com a naturalidade com que entram na vida real. Os risos e as lágrimas são parte das personagens. Não importa se têm autismo ou não, estão todas a tentar viver as suas vidas.

Vi seis dos oito episódios que estão disponíveis e é uma recomendação completa. O maior trunfo é que a série não se foca no autismo, mas sim na forma como a sociedade lida com as suas partes, independentemente das suas personalidades além da superfície. Os problemas são comuns, tal como as soluções encontradas. Ser diferente não é melhor nem pior, é precisamente perceber que não há regras escritas para o que pertence à normalidade.

Marco Gomes, Vitalina Varela (Blu-ray)

Não sendo órfã tem poucos irmãos em nosso mercado cinematográfico doméstico uma edição como a da Midas Filmes para o mais recente filme de Pedro Costa, juntando na mesma caixa versões DVD e Blu-ray de Vitalina Varela (2019).

O insólito por aqui se não fica ao constatar que o formato avantajado foi cravado à editora Second Run do Reino Unido, garantindo legendagem lusa para o crioulo da película mas não no conteúdo extra, permanecendo o inglês como idioma dos menus.

A redução dos custos justifica macular a dignidade da oferta? Provavelmente sim numa realidade onde sobram dedos de uma mão na contagem dos filmes portugueses saídos em Blu-ray, e Vitalina Varela, a bem da justiça, merece todo o esplendor de visualização.

O trabalho de fotografia, especialmente o tratamento lumínico, na concepção estética global como na planificação individualizada de cada quadro eleva-se à profanação da imagem no mero ativar das legendas.

Comparado com Cavalo Dinheiro (2014) – com que faz díptico, já aqui referido na semana passada – apresenta estrutura narrativa mais linear, numa inflexão necessária a delimitar o abstraccionismo interpretativo daquele.

O desejo mal assimilado de Vitalina de pacificação com a memória do cônjuge entretanto falecido, simbolizado na relação da viúva com a habitação precária por ele deixada, é contido retrato da miséria, exclusão e desesperança em valor empírico provenientes que são os atores, e aí sido filmados, da Cova da Moura, Bairro 6 de Maio, Quinta da Lage e Casal da Boba, todos na Amadora. Lugares onde o mundo só lá entra pela maledicência.

Filipe Urriça, Longe da Árvore (Disney+)

Há quase três anos que sou pai e todos os dias tento aprender a sê-lo melhor. Tento tomar as decisões corretas, mas é sempre uma dúvida quando tenho de perceber se fiz realmente bem ou não. Por isso, tudo o que tenha como tema a parentalidade interessa-me sempre bastante.

Nestas, como já o disse nesta rubrica, tenho visto várias vezes o filme Encanto (as minhas filhas adoram as músicas do filme) e, quando termina, o Disney + faz-me sempre a mesma recomendação: Longe da Árvore. Com tanta insistência que decidi ler a sinopse e fiquei intrigado e, portanto, fui-vê-lo.

Longe da Árvore é uma curta-metragem de sete minutos, que consegue ser muito eficaz na mensagem que passa. Neste pequeno conto temos dois guaxinins: um pai preocupado com o filho ser atacado por predadores e um filho destemido, sem medo do mundo exterior ao seu ninho.

Na realidade são duas gerações de guaxinins, onde cada progenitor tem uma abordagem diferente para passar os seus ensinamentos à descendência. Uma dessas abordagens é claramente natural para um animal qualquer, enquanto a outra forma de passar ensinamentos vitais para a sobrevivência é mais humana.

Pessoalmente, acho que ser pai passa muito por aí, é ensinar de maneiras diferentes até vermos que a criança conseguiu entender a mensagem. São sete minutos para nos dizer precisamente isto: todas as crianças têm a sua forma de aprender e de assimilar informação que é diferente de criança para criança.

Claro que ensinar como se fazia há décadas ainda resulta, mas convém mudar-se os métodos de ensino se os tempos mudaram. E sem esquecermos que há métodos mais eficientes. Enfim, o que se deve fazer é tudo em prol das crianças, que aprendam o que é essencial para o seu desenvolvimento.

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