Terminamos o primeiro mês de 2021 com três participações que versam sobre uma série com pequenos-grandes heróis, um filme e uma série documental sobre o cinema. É um trio de propostas disponíveis em três plataformas diferentes e como é sempre expectável, o tipo de conteúdo varia consideravelmente.

O Pedro Martins escreve sobre Marvel's Hero Project, série que está disponível no Disney+ e que oferece vinte janelas sobre outros tantos jovens que fazem algo para ajudarem as suas comunidades, tentando resolver problemas ou défices que encontraram. A Marvel está envolvida, recompensado-os, mas deixando os seus atos serem o centro das merecidas atenções.

Por sua vez, o Marco Gomes continua a sua viagem pelo cinema francês. Ou melhor, continua a sua viagem pela proposta Viagens Pelo Cinema Francês, escrevendo este domingo sobre os episódios quatro a seis - o texto sobre os primeiros três episódios pode ser encontrado neste artigo.

E, finalmente, a terminar este artigo podem encontrar as palavras de Filipe Urriça sobre Knives Out, a obra assinada por Rian Johnson que tanta tinta fez correr nos momentos seguintes à sua estreia. O redator ficou fã e escreve mesmo que o final é “genial”.

Pedro Martins, Marvel's Hero Project (Disney+)

Todos sabemos que a Marvel é um dos pilares do catálogo Disney+ e esta semana tive oportunidade de ver uma série que conta com o seu carimbo, mas que nos chega assente em moldes diferentes do que é habitual. Marvel's Hero Project é composto por vinte episódios, cada um dando protagonismo a um jovem que fez um trabalho assinalável pela sua família e comunidade.

Cada episódio não passa a marca dos trinta minutos. Temos direito a uma apresentação do que o protagonista fez, ao processo de criação da Marvel para surpreender quem é celebrado e ao momento em que a surpresa é entregue. Cada um recebeu uma carta, uma caixa com um casaco e a primeira edição de uma banda desenhada que representa o seu percurso. Além disso, é feita uma doação de dez mil dólares a uma instituição.

Desde os maus-tratos infantis a uma horta para ajudar os membros da comunidade que passam fome, passando pela sensibilização sobre a forma como sociedade vê as pessoas com Alzheimer, os cuidados animais ou como a qualidade da água afeta as existências, os episódios são variados tanto em personalidades como no que cada um conseguiu realizar.

São crianças incríveis, algumas das quais amplamente reconhecidas anteriormente, com a Marvel a amplificar a mensagem que as próprias já tinham transmitido: a inspiração e a demonstração de que qualquer um consegue realizar atos que fazem a diferença. É também uma série que naturalmente mostra como o suporte familiar ajuda a que estas mentes e estas motivações encontrem o caminho da execução.

Cada episódio tocará cada espectador de forma diferente, é verdade, mas quase todos os episódios entregam um palco a estas ações. Curiosamente, a maioria das crianças fica emocionada com a surpresa, mas nota-se que não fizeram nem fazem estes atos de altruísmo à espera de qualquer recompensa. São heróis nos seus próprios termos, ajudando quem precisa e sentindo que isso é a maior recompensa que poderiam obter.

Marco Gomes, Viagens Pelo Cinema Francês - Episódios 4 a 6 (DVD)

Longe da vaga e impacto verificado no dos Estados Unidos da América, acolheu o cinema francês número significativo de expatriados políticos ou por convulsões sociais, o abordando a primeira metade do quarto episódio de Viagens Pelo Cinema Francês com dois exemplos em períodos históricos distintos, o russo - nascido em território actualmente da Ucrânia- Viktor Tourjanski e o alemão Robert Siodmak.

Com os títulos “O cinema sob a Ocupação, o antes e o pós-guerra” e “A Nova Vaga da Ocupação”, dedica-se a outra metade do episódio quatro e a totalidade do quinto ao impacto que a Segunda Guerra Mundial teve no meio em território gaulês.

Com esse pano de fundo destaca-se mais ainda uma das características diferenciadoras com que Bertrand Tavernier dotou a série, a de expressar a personalidade e identidade criativa dos autores abordados, assim como a contextualização social, profissional e política, através do relato de episódios ou constatações factuais de pertinência humorística, dramática ou de pura curiosidade.

O hiato temporal em que a França foi ocupada pela força opressora nazi corresponde ao aparecimento de uma nova geração de realizadores que fizeram do filme um ato de resistência, considerando Tavernier ser a primeira Nova Vaga, Nouvelle Vague, com nomes como Claude Autant-Lara, René Clément ou Henri-Georges Clouzot.

Por sua vez, o sexto episódio, “Os esquecidos”, juntamente com o que lhe seguirá, “Os desconhecidos”, a abordar aqui na próxima semana, representam o explícito da série enquanto preocupação cimeira, evidenciar o menos evidenciado pelo tempo que passou.

Existindo neles um perfil próximo, o de técnicos competentes cujo trabalho, conotado com o cinema comercial, carece personalidade. Visão que Tavernier contesta para defender o talento e inventividade de Raymond Bernard, Maurice Tourneur - pai do bem mais acarinhado Jacques Tourneur -, Anatole Litvak - ucraniano com parte do percurso feito em França -, Jean Boyer e René Clair. Este último, generosamente referenciado no estudo, análise e crítica de cinema, abusivamente incluído na lista.

Filipe Urriça, Knives Out - Todos São Suspeitos (TVCine+)

Adoro literatura policial, sejam os clássicos de Agatha Christie, Raymond Chandler ou Ellery Queen; assim como os contemporâneos como Lars Kepler, Robert Galbraith ou Jane Harper. Enfim, pessoalmente acho que são a narrativa perfeita para manter o leitor interessado e simultaneamente investido na tarma, fazendo ele próprio as suas investigações à medida que a história avança. Knives Out - Todos São Suspeitos é um filme que presta uma enorme homenagem a este género literário, que só podia ter vindo do brilhante Rian Johnson.

Um bom murder mystery que se preze tem que ter vários ingredientes para que se vá cozinhando lentamente até estar pronto para revelar a sua solução. Um dos elementos que mais dou valor em policiais são o detetive privado ou uma personagem que nada tem a ver, legalmente, com o crime mas que tenha as capacidades para resolvê-lo. Benoit Blanc, interpretado por Daniel Craig, encaixa perfeitamente no meu conceito de bom detetive. Tem alguns maneirismos e, sobretudo, tem a insistência que um investigador precisa de ter e tem de ser um bom avaliador de caráter. Felizmente está tudo lá como deve ser.

Como o crime ocorreu numa noite em que uma família estava toda reunida, é claro que, tal como o subtítulo português o indica, todos são suspeitos. No início da investigação são todos interrogados um a um, onde há um culpado bem claro. É um autêntico jogo do Cluedo onde a arma do crime e o assassino (vou chamá-lo assim para não o revelar caso ainda não tenham visto o filme) são bastante evidentes. Isto seria demasiado simples ficar por aqui, porque ainda há a revelação de quem serão os herdeiros da fortuna do falecido - o que revelará as intenções de quem cometeu o crime.

Tudo parece cair em clichés, mas Rian Johnson revela o seu talento de realizador quando as nossas expectativas são superadas, quando vai para além da resolução do crime. O fim é genial, todos os pontos são colocados nos "is" e fico satisfeito por todas as personagens terem tido o que merecem. Quem ainda não viu Knives Out deve fazê-lo, pois recomendo-o vivamente, principalmente se forem apaixonados por este género.

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