VideoGamer Portugal por - Mar 31, 2019

Era Uma Vez em Watership Down – Crítica

A versão de Era Uma Vez em Watership Down que estreou recentemente na Netflix não é a primeira vez que o livro de Richard Adams sai das páginas, mas será certamente o primeiro contacto com esta fábula para uma nova geração. A minissérie é composta por quatro episódios e é produzida em associação com a BBC. É também um soco no estômago e o contar de uma história apaixonante.

Como os episódios não se arrastam, sente-se claramente que cada um dos episódios com aproximadamente cinquenta minutos é focado naquilo que tem a dizer, edificando sobre os acontecimentos anteriores sem se perder em demasiados pormenores apenas para chegar à mágica marca da dezena ou da dúzia. O ritmo é, regra geral, o ideal para nos fazer querer saber do paradeiro destes coelhos, preocuparmo-nos com aquilo que lhes acontece, ficar contentes com as suas conquistas e de coração partido com as suas perdas.

O arranque é marcado por Fiver, um dos coelhos em destaque que tem visões. A sua visão tem tanto de simples como de alarmante: a colónia onde vivem será destruída e não têm muito tempo escapar. Tido como um louco pertença do absurdo por muitos, incluindo Threarah, o coelho no comando, Fiver é auxiliado por Hazel, o seu irmão e principal aliado na hora de alertar e convencer os coelhos que era altura de deixarem para trás a vida que tinham naquela comunidade.

As visões que Fiver tinha estavam certas e está estabelecida a viga mestra da metáfora de Era Uma Vez em Watership Down. A destruição da colónia acontece porque o humano resolveu que aquele local era ideal para construir um complexo de habitações, entrando pelo solo onde luras e luras tinham sido escavadas com retroescavadoras. Esta decisão de partir serve também o propósito de abrir o argumento à sensação de aventura que leva o espectador com as personagens.

Durante os quatro episódios torna-se evidente que as criaturas associam os humanos à morte, seja pelas estradas que têm de atravessar ou pela caçadeira que chega a ser disparada contra alguns dos membros. Contudo, a série mostra também que o perigo pode chegar de outras espécies e até de outros coelhos, sendo várias as vezes em que a espécie se vira contra a própria espécie – e nem sequer estou a falar das lutas que começam quando durante a construção da nova colónia chegam à conclusão que há demasiado “machos” e uma escassez de “fêmeas”.

Como fábula que é, Era Uma Vez em Watership Down contém uma lição moral a ser ensinada e consegue-o com mestria, mostrando indelevelmente que mesmo aquilo que tememos e que associamos a algo terrível – neste caso, os humanos – podem ter o seu ponto de redenção e de respeito, podem ver os outros num plano que não seja o de automaticamente subjugar e vulgarizar numa espécie inferior à sua apenas por ser diferente. Contudo, a minissérie é também sobre a confiança, o amor, a compreensão e as diferentes formas de conquistar o respeito, de ser líder nas alturas de maior aflição.

Estas personagens, que vão revelando as suas personalidades graças a hierarquias, políticas e até religiões, acabam por conquistar o espectador. Em parte porque são escritas de forma sólida, claro, mas também com nuances que intrigam e que lhe dão profundidade. Mesmo uma personagem como Bigwig, que resolve tudo à força, acaba por revelar as suas verdadeiras cores na valentia que coloca ao serviço do grupo. Strawberry, uma coelha destemida, ou até mesmo Kehaar, uma gaivota que entra na obra com uma asa aleijada (e é uma ameaça para os coelhos que a resolvem ajudar) e que acaba por ter uma papel importantíssimo nos momentos finais. São todos diferentes, mas que servem bem o seu propósito na série.

Em determinado momento, quando um humano anda a caçar os coelhos, a sua mulher diz-lhe que “é bom que não mates um da Lucy”, aludindo ao facto de haver coelhos de estimação. “Era um dos selvagens”, é dito como resposta. A ironia é que quando esta cena acontece, para o humano que vê, já não há coelhos de estimação e coelhos selvagens, tamanha é, acima da simpatia, a compaixão que temos com o grupo que desafia praticamente tudo e todos enquanto luta por vidas melhores.

E já que se fala nesta dicotomia entre coelhos e humanos, esta citação de uma das cenas diz muito de como o humano impressiona esta espécie. “Não tens integridade. Os animais não são como os homens. Se tiverem de lutar, lutam. Se tiverem de matar, matam. Mas não planeiam formas de magoar outra criaturas”. Planear a mágoa de outra pessoa é de uma crueldade e calculismo que os coelhos não conseguem ter, preferindo lutar ou até matar em vez de estudar a forma de provocar a maior mágoa possível.

Curiosamente, apesar desta feroz crítica ao humano – e consequente mensagem de esperança e até de redenção – não deixa de ser irónico que várias lutas entre os coelhos sejam movidas graças a uma sede de poder, entre colónias e também enquanto se estabelece a hierarquia entre os protagonistas. É uma crítica à sociedade enquanto são adoptadas alguns comportamentos tão bem conhecidos daqueles com dois polegares opostos.

Mesmo que possa ser mais “suave” que o livro, esta versão de Era Uma Vez em Watership Down não é de todo recomendada a um público mais jovem. Se estão a pensar vê-la na companhia de crianças, não se deixem iludir pelo seu aspecto. São socos emocionais e o lidar de temas adultos que deixam marcas mesmo nos adultos. É uma tarimba de mágoa transversal à obra, mas particularmente uma cena perto do final é simplesmente devastadora e, novamente, o espelho da vida e da passagem do tempo que é similar para todas as espécies.

E por falar em estilo, de salientar que a aposta numa recriação CGI tem os seus méritos nos cenários e em certos pormenores das criaturas, mas acaba por ficar aquém na forma de locomoção dos animais. Não é suficiente para deixar que a série não seja recomendada, mas ocasionalmente parece que os coelhos estão feridos, quando na verdade é apenas uma limitação do grafismo gerado por computador. Mas é uma escolha acertada, até porque a realização leva-nos a uma cinematografia variada o suficiente para que esses pormenores sejam enriquecidos e para que o espectador nunca se canse do que está a ver.

Por outro lado, a vocalização é assinalável – o que não será propriamente uma surpresa se tivermos em consideração os nomes associados ao projeto. Hazel é vocalizado por James McAvoy, Fiver conta com a voz de Nicholas Hoult (sim, o Nux de Mad Max), Ben Kingsley empresta a sua voz ao General Woundwort, uma das personagens mais maquiavélicas da série e que faz os Capitães Orchis e Vervain parecerem celestiais, mas também com Olivia Colman como Strawberry e o possivelmente o grande destaque, John Boyega como Bigwig. Todos estão muito bem e são inquestionavelmente convincentes, mas Boyega apresenta uma personagem com diferentes camadas e outras tantas formas de fazer o espectador prestar atenção.

Era Uma Vez em Watership Down é então uma boa surpresa. Pode ter alguns momentos em que o aspecto visual podia ter-lhe sido mais favorável, mas graças a uma história penetrante e um chorrilho de momentos que levam o espectador a sentir algo e a pensar sobre o que acabou de lhe acontecer, faz com que este quarteto de episódios tenham a cadência e a importância necessárias para nos fazer querer por estas personagens e por fazer a inevitável comparação com a nossa sociedade e, sobretudo, com a nossa vida. Tenham à mão uma caixa de lenços para prevenir e lembrem-se que podem sempre dizer que alguém começou a cortar cebolas ao vosso lado.

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