Desejando uma boa Páscoa a todos os leitores que a celebram, esta rubrica dominical é publicada com mais três sugestões para um domingo que se espera tranquilo. Como é habitual, estamos perante três propostas díspares que nos chegam de duas plataformas diferentes.

O Pedro Martins teve finalmente oportunidade de assistir a uma obra que marcou 2018, A Favorita. Realizado por Yorgos Lanthimos, o filme oferece um vislumbre sobre uma época onde a rainha precisava de ajuda e foi obrigada a lidar com um jogo de traições dos dois lados da sua porta mais próxima. Obra fascinante e imperdível.

Quem continuar a ler terá oportunidade de descobrir o ensaio que Marco Gomes escreveu sobre a Quarentena Cinéfila, desta vez versando sobre o que foi mostrado entre os dias 18 de março e 1 de abril. E, finalmente, o Filipe Urriça escreve sobre Bora Lá, obra da Pixar que pode ser vista em exclusivo no Disney+. Vale a pena verem, deixa por escrito o redator do VideoGamer Portugal.

Pedro Martins, A Favorita (Disney+)

A trajetória profissional de Yorgos Lanthimos tem sido fascinante, um percurso inequivocamente marcado por A Lagosta, O Sacrifício de Um Cervo Sagrado e, mais recentemente em 2018, A Favorita. Esta semana tive oportunidade de ver o último e é uma recomendação inequívoca e retumbante.

Ao longo de aproximadamente duas horas somos levados para a Inglaterra do Século XVIII. A trama centra-se em três personagens: Anne, a frágil e dependente rainha interpretada por Olivia Colman; Sarah Churchill, duquesa de Marlborough (Rachel Weisz) que ajuda a rainha em tudo o que pode; e Abigail (Emma Stone), outrora Lady que entra no filme com muito pouco e com uma motivação desmedida de se aproximar da rainha e de singrar.

Não é necessário desbravar muitos minutos para se perceber que este triângulo passará a película a ganhar complexidade. A Favorita apresenta alguns momentos dominados pelo sentido de humor, mas fica marcado indelevelmente pelas prestações do elenco e pela realização de Lanthimos. Viajamos alguns séculos no tempo para descobrir uma acutilante crítica social.

Colman entrega uma performance memorável, edificando uma rainha com problemas de saúde que se vão alastrando numa dependência que procura Abigail e Sarah. Contudo, as duas estão envolvidas num jogo pelo braço direito da rainha. O tempo revela jogadas interligadas numa tentativa ininterrupta para puxar o tapete debaixo dos seus pés.

O espectador nunca sabe o que vai acontecer no capítulo seguinte, nunca tem a certeza de até onde chegará esta sequência de traições alimentadas por uma sede insaciável de poder. Sabe, contudo, que a falsidade de todas as restantes personagens está em rota de colisão com a honestidade da rainha. A Favorita é um elaborado jogo de cadeiras que decorre dentro de um saco de cobras.

Ainda com o filme a ecoar na memória, a escrita de Deborah Davis e Tony McNamara está sempre em boa companhia. Minuciosamente preparados, olhem para os cenários e olhem para o guarda-roupa, percebam que são as telas onde o realizador grego pinta com o talento - sobretudo - das três atrizes. O filme é uma dupla pergunta: Quem é a favorita da rainha? Quem é a favorita do espectador? Quando os créditos rolarem, esse ponto de interrogação dará lugar ao ponto de exclamação.

Marco Gomes, Quarentena Cinéfila - 18 Março a 1 Abril (Plataforma Medeia Filmes)

Há data em que estas linhas são escritas não se anunciou nova fornada de títulos para a Quarentena Cinéfila Medeia Filmes/Leopardo Filmes. Se por aqui ficar a iniciativa, seja isso prenúncio de retoma a um quotidiano menos disfuncional. Entretanto, faz-se em baixo o resumo da quarta fase.

O destaque inicial vai para um dos dois Luis Buñuel produzidos em 1956, concretamente, Labirinto Infernal, La Mort en Ce Jardin de título primogénito. Inserido no período mexicano -por aí se ter radicado e, desgostoso com o regime ditatorial em Espanha, mais tarde naturalizado-, a fase da carreira mais apreciada pela comunidade cinéfila, não dela contudo um dos resplandecentes exemplares.

Baseado na obra literária homónima de José-André Lacour, é seguramente filme cuja linha de acontecimentos terá o espectador dificuldade em antever por invulgar dinâmica narrativa, contudo, esvai-se parte do fulgor nos repelões com que se molda a identidade das personagens e certos encadeamentos da trama.

A mais recente longa-metragem do cazaque Emir Baigazin, O Rio (2018), Ozen, mais do que dar a ver o confronto entre a ancestralidade e um presente moldado pela ciência e tecnologia, utiliza-o para atestar do à vontade do ser humano com a mentira e seu poder estratégico na socialização. A rigidez formal suscitada pelo processo de estetização esvai muita da competência da obra.

Os irmãos Lumière, Auguste e Louis, não auguraram vida longa a sua invenção. Um século e dele outro quarto volvidos sobre a primeira projeção pública do cinematógrafo, assim patenteado, constatamos ser indestrinçável da vida corrente, e também por isto, de novidade ainda fecundo.

Com sua, até agora, única longa-metragem, O Bosque dos Quincôncios (2016), La Fôret de Quinconces, ousou Grégoire Leprince-Ringuet, que à realização junta argumento e desempenho como ator principal, abordagem inédita ao drama romântico através de simulacro moderno de peça na veia de Shakespeare. Pelo valor de diferenciação é louvável o intento, significativamente encurtado de potencial na execução prática.

Muitos a não conseguindo enxergar, descambando o mais das vezes na crua vulgaridade, entre espetáculo e espalhafato existe fronteira bem delimitada. Provando merecido o estatuto no meio, dir-se-ia de Jean Renoir ser alquimista que dos terrenos pantanosos do espalhafato extrai cobre para transformar em ouro no registo espetáculo e daí em matéria de transcendência artística.

Com quarenta e dois créditos como realizador, a grande maioria em formato longa-metragem, estranhar-se-ia a fórmula aplicada ao percurso completo em meio século de trabalho, mas será com ela que conquista a História. Superior exemplo é a comédia romântica Helena e os Homens (1956), Elena et les Hommes, onde a princesa polaca Elena Sokorowska, num desempenho padrão de Ingrid Bergman, ou seja, sublime, arrebata quanto ser masculino lhe atravessa o caminho, e as tropelarias aí derivadas, até para os destinos políticos da França. Vive Rollan!

Filipe Urriça, Bora Lá (Disney+)

Adoro os filmes da Pixar. Tenho a perfeita noção de que nem todos são películas ao nível de um Toy Story ou de um Ratatui. Porém, dos que já vi, têm sempre algo memorável ou uma boa lição de moral a transmitir. Bora Lá, apesar de não ser o melhor trabalho do estúdio da Disney, é um bom filme sobre a importância que se deve dar à família, sobretudo aos irmãos.

Como já sou pai de duas filhas, acabo por ter mais sensibilidade para este tipo de temas, visto que quando as minhas pequenas forem adolescentes vou ter mais umas razões para ter dores de cabeça - por agora é "só" a falta de uma boa noite de sono. Em Bora Lá, que é protagonizado por Tom Holland e Chris Pratt, Ian e Barley são dois irmãos que procuram conseguir estar com o falecido pai mais uma vez.

Apesar do reencontro com o pai ser o objetivo da aventura que se vai desenvolver ao longo do filme, é a relação entre os irmãos que ganha mais destaque, pois é precisamente por aí que passa a mensagem do filme. Contudo, durante o filme todo fiquei bastante interessado em perceber o porquê destas personagens terem tanto amor pelo pai. A resposta nunca me foi dada, nem precisava de saber a resposta.

Ian, o irmão mais novo, não precisava de reencontrar o seu progenitor, mal se lembra dele e o seu irmão foi a figura paternal que sempre teve e precisou. Já Barley sente necessidade de se poder despedir do pai que partiu cedo demais, porque aí o seu pai teve um papel importante no seu crescimento e desenvolvimento pessoal, mais do que o seu irmão.

A narrativa é bastante boa e o filme passa-se num mundo de fantasia onde parece que um jogo de Dungeons and Dragon's ganhou vida. Há monstros de todas as formas e cores que se espera de um jogo deste género e a Pixar tem aquela habilidade especial em personificar todo o género de criaturas, sejam elas monstros (Monstros e Companhia), vida aquática (À Procura de Nemo) ou insectos (Uma Vida de Insecto). Enfim, vejam Boa Lá que vale a pena.

Continuem a conversa nos fóruns VideoGamer!