Novo domingo, novas recomendações da equipa VideoGamer Portugal sobre o que têm andado a ver durante os últimos dias. Depois de Parasitas ter estreado nos canais TVCine no final da semana, o Pedro Martins teve oportunidade de finalmente ver a obra de Bong Joon Ho. Depois de ter visto O Expresso do Amanhã e Okja, escreve o Pedro que Parasitas é um filme obrigatório.

Posteriormente é a vez de Marco Gomes tecer alguns comentários a Embriagado de Mulheres e de Pintura, película de 2002 assinada por Kwon-taek Im. O Marco viu a história de Seung-up, um pintor coreano do século XIX que era conhecido pelo seu gosto pelas mulheres e pelo vinho. O Marco explica se essa premissa deu ou não uma boa obra de cinema.

Filipe Urriça anda ocupado a ver The Good Place, uma das séries de comédia que tem marcado os últimos meses. Em exibição na Netflix, a criação de Michael Schur chegou ao fim este ano. Agora o Filipe aproveita para tecer comentários aos seus pontos fortes e porque conquistou progressivamente uma legião de fãs tão grande e fervorosa.

Pedro Martins, Parasitas (TVCine Top)

Parasitas não é o primeiro filme de Bong Joon Ho que vi e certamente não será o último. Depois de Expresso do Amanhã e de Okja, não só estou perante uma recomendação fácil, mas também defronte de um pedido para verem Parasitas assim que a oportunidade surja. Mais de duas horas depois, não só é um acutilante comentário sobre a estratificação social, mas um filme com duas reviravoltas memoráveis.

Terei o maior cuidado para não estragar quaisquer surpresas, mas a base do argumento é: uma família que vive no limiar da pobreza. A habitação fica abaixo do nível do solo e falta-lhe comodidades básicas. O filho Ki-woo (Choi Woo Shik) arranja trabalho como explicador de inglês a Da-hye (Jung Ziso), filha de uma família rica que vive na casa de sonho que provavelmente já viram nas redes sociais. É um contraste imediato, uma amostra de uma existência que Ki-woo não conhecia.

O filme continua com os outros membros da família de Ki-woo a conquistarem posições dentro da família rica: a irmã, “Jessica” So-dam Park, como explicadora de arte; o pai, Kim Ki-taek (Kang-ho Song) como motorista privado; e a mãe, Chung Sook (Chang Hyae Jin) como nova governanta.

A maneira como uma família se infiltra na outra é por si só um feito narrativo, contudo, Parasitas continua e mostra o que acontece quando alguém está a viver num cenário a que não pertence - a família rica não sabe que quem agora os ajuda não só se conhecem, como são uma família completa. Bong Joon Ho faz um excelente trabalho na realização, transformando a casa numa personagem que se vai transmutando ao longo da obra e, já na reta final, a forma como a chuva, por exemplo, é usada apenas dá ainda mais força à mensagem da obra.

Essa mesma chuva “é uma benção” para a família rica e um pesadelo para quem não tem nada. Parasitas revela o que para uns é um esforço descomunal e para outros é uma brisa. Ao mesmo tempo, temos humanos preocupados porque perderam praticamente tudo e outros membros da mesma espécie preocupados com uma festa surpresa. Há algumas metáforas súbtis - como o descer de escadas - e outras que são sal na ferida, como a queixa de que “as pessoas que usam o metro têm um cheiro único”.

Estamos perante várias realidades em simultâneo que terminam de forma primeiro inesperada e depois esperançosa. Evitando spoilers, que fique apenas evidente que Parasitas não se esquece de fazer ver que quem tem pouco a perder, perde o medo depois de perder a paciência. Julgo que serão muito poucos os que ficarão desiludidos depois de verem Parasitas, tal como penso que serão poucos os que não ficarão a pensar.

Marco Gomes, Embriagado de Mulheres e de Pintura (Vimeo)

Nestes tempos conturbados onde o recato social mais do que precaução é um imperativo, e algumas abantesmas munidas de seu egoísmo nunca tal compreenderão, sejamos caseirinhos. A preencher as horas que nos sobram alguma ajuda têm dado os meios audiovisuais, com os agentes portugueses de cinema a revelar sua quota-parte de solidariedade.

Prometendo ver a maioria da produção nacional graciosamente disponível para o efeito, e a quem estas linhas lê dela fazer testemunho nos casos meritórios, enceto, todavia, com outras paragens através da “Quarentena Cinéfila”, iniciativa da Medeia Filmes disponibilizando na plataforma Vimeo em cada semana, de Terça a Terça, três obras de seu valioso catálogo.  

Na primeira selecionando Wim Wenders, realizador alemão com ligação afetiva ao nosso país, em O Estado das Coisas (1982), Paris, Texas (1984), seu grande clássico, e Lisbon Story – Viagem a Lisboa (1994), destacou na segunda leva fitas sul-coreanas com, pela ordem de exibição, Sítio Certo, História Errada (2015) de Hong Sang-soo, Poesia (2010) de Lee Chang-Dong e Embriagado de Mulheres e de Pintura (2002) de Im Kwon-taek.

Tentando desta fazer o primitivo exercício de convocar a que ganharia mais afeto, sobrou um problema dos bons, todas recomendáveis e muito diferentes entre si, uma ficção de quotidiano, um drama clássico e um drama de época. O critério de escolha conscientemente fez vista grossa à objetividade valorativa condicionado por suplementos de interesse inerentes à personalidade e percurso de vida, levando até que a eleita seja a menos consensual junto da crítica especializada.  

Clarifica-se tal pela adoção de dispositivos simplistas, por vezes populistas, para contar a história de Seung-up, de nome artístico “oh-won”, das origens humildes até se tornar um pintor de vanguarda no conturbado século XIX sul-coreano. Não obstante, suplantam as virtudes grandemente as lacunas num credível filme de período, característica essencial ao subgénero, e um dos belos testemunhos extraídos da sétima arte sobre o manifestar do génio criativo e construção do mito.

Filipe Urriça, The Good Place (Netflix)

Vi finalmente as quatro temporadas da comédia protagonizada por Kristen Bell e Ted Danson: The Good Place. Não foram poucas as vezes que vi a série colocada em diversas listas de recomendações, por isso, para satisfazer a minha curiosidade, decidi vê-la na íntegra ao longo de várias semanas.

A premissa é bastante simples: "o que acontece depois de morrermos?". Uma questão complexa que não tem, portanto, uma resposta fácil. O tema foi abordado de uma forma genial, porque usa a filosofia, conceitos de moral e ética para responder de forma cómica a uma questão que pode encontrar resposta na religião.

Quatro pessoas foram enviadas para o seu destino após a morte, que foi uma forma de tortura meticulosamente desenhada por um demónio do Lugar Mau. Contudo, é esta experiência que os vai interligar definitivamente. Os quatro vão ter de melhorar enquanto pessoas, enquanto que no próprio episódio debatem questões filosóficas, mais propriamente de Filosofia Moral.

Não se deve praticar atos de maldade. Porém, se estes têm de ser feitos para o bem de uma maioria, já passam a ser aceitáveis? São questões como esta que perduram nas quatro temporadas. Para se chegar ao Lugar Bom da série, aquilo que chamamos de Paraíso, é preciso ter-se uma vida a praticar atos de grande altruísmo. Mas mesmo que não sejam praticados, justifica-se que uma pessoa pacata tenha de ser castigada para a eternidade?

Enfim, há todo um leque de perguntas filosóficas que elevam a série e mantém-na no alto. Se gostam de uma sitcom curta que se vê rapidamente, esta é uma grande escolha.

Continuem a conversa nos fóruns VideoGamer!