por - Nov 3, 2017

John Oliver e o regresso do riso para esclarecer

Os espectadores que querem acompanhar John Oliver no seu Last Week Tonight não têm tido uma vida fácil. A série chegou a ser transmitida na RTP 3, mas acabou por sair da grelha, relegando os fãs para os vídeos que eram publicados no YouTube. O problema é que no canal oficial do programa apenas e compreensivelmente era partilhado o segmento principal, ficando por mostrar os restantes temas abordados pelo humorista inglês há muito residente nos Estados Unidos.

Com a estreia da sexta temporada a situação mudou radicalmente. O YouTube continua a mostrar o segmento mencionado, mas graças à chegada a Portugal da HBO podemos finalmente assistir aos episódios desde o primeiro ao último minuto. Disponível desde ontem – e ainda sem legendagem em português, o primeiro episódio é, novamente, dedicado ao Brexit.

Antes, a atenção de quem vê é colocada no passar em revista o que aconteceu enquanto Oliver esteve ausente. Trump volta a ser tema central, seja na forma como estilhaçou a crença de uma criança de sete anos no Pai Natal, seja no estado de emergência para a construção do muro. Ironicamente, também esta declaração é estilhaçada, com Trump a afirmar que “podia fazer isto durante um período de tempo mais longo, não precisava disto, mas prefiro fazê-lo mais rapidamente”.

São declarações que se calhar já tinham tido oportunidade ver, Oliver não as tem em exclusivo. Contudo, a forma como a abordagem pega nessas declarações e as sobrepõe numa situação íntima entre Trump e Melania, não só soltam o riso, como ajuda na memorização do espectador. Aprendemos também que o IKEA esteve envolto numa polémica ao vender um mapa em que a Nova Zelândia não aparecia, o que se torna ainda mais irónico se tivermos em consideração a gigante sueca está prestes a inaugurar a primeira loja no país.

John Oliver consegue passar em revista temas que variam em importância e em relevância para quem vê, todavia, a forma como estica a corda e edifica sobre a notícia serve para acrescentar informação, preparando o espectador para a investigação profunda e documentada que é exibida durante o segmento principal. Oliver tem obviamente uma equipa, mas o verdadeiro beneficiário é o espectador, que é alimentando com factos a que provavelmente passaria ao lado se não fosse o trabalho feito pela equipa de pesquisa.

O tema principal, por exemplo, não é novidade e só quem passou os últimos anos debaixo de uma rocha é que nunca terá ouvido falar do Brexit. Porém, com o aproximar de 29 de março, dia em que o Reino Unido sairá da União Europeia, Oliver volta a dedicar-lhe atenção, respondendo factualmente a três perguntas cruciais, nomeadamente, por que é que as pessoas não gostam do acordo proposto por Theresa May? O que acontecerá se  o Reino Unido sair da União Europeia sem acordo? E se o Brexit pode simplesmente não acontecer?

Não só este trio de perguntas obtém respostas o mais factuais e sem histerismos possíveis, como a sua explicação permite a quem vê reflectir – ou reformular a reflexão anterior com novos ângulos – sobre problemas que poderão acontecer e que vão desde a escassez de frutas, legumes e flores frescos, como à racionalização de medicamentos e à falta de comida nas prateleiras – o que levou à criação de caixas com alimentos enlatados, conhecidas como “Brexit Boxes”.

Claro que entra na equação o carisma do apresentador e o timing com que as piadas são feitas, tal como o conhecimento que quem vê dos termos usados. Quando Oliver descreve Boris Johnson como um “projeto Gary Busey sem título”, terão que saber quem é Busey; ou quando menciona Pompeia e o vulcão. Contudo, há o sublinhar de situações graves que podem estar prestes a acontecer, como a criação de checkpoints entre as duas Irlandas, com o Last Week Tonight a dar dicas para que pesquisem o que aconteceu e depois resumindo tudo com Zombie, o tema assinado pelos Cranberries.

O programa semanal não é, não quer ser, e não precisa de ser um documentário. Sendo na sua essência um programa de humor, quem vê repara facilmente na investigação e ficará a pensar no que aprendeu ou no que pensou graças à gravidade dos temas, mas também às punchlines que servem como pontos de interesse a que a memória vai recorrer. Relembrar uma determinada piada é, neste caso, relembrar o que estava à sua volta, a informação que foi mencionada para o golpe final fosse eficaz.

Oliver faz isto com mestria, não se escusando a algumas polémicas e a ser processado, por exemplo, quando foi atrás da indústria do carvão nos Estados Unidos. Oliver sabe-o bem, com os argumentistas a alimentarem-se também disto para que o que é dito fique gravado. Com Last Week Tonight é muito difícil passar um episódio sem nos rirmos, mas é também muito difícil passar um episódio sem aprender algo, ou melhor, sem elevarmos o pensamento crítico e informado sobre os temas, que ocasionalmente nem são atuais ou válidos para o nosso quotidiano.

Mas essa relevância está muitas vezes escondida, podendo ser também preparada por antecipação. O Brexit, por exemplo, levará certamente à queda da Libra, o que acabará por afetar mais do que “apenas” a economia inglesa, levando a ondas de choque que certamente vão acertar na economia europeia e mundial. Last Week Tonight funciona porque enquanto esperamos a próxima punchline prestamos a atenção necessária para compreender, aprender e pensar os temas.

Não precisarei certamente de explicar que há várias categorias de humor destinado a vários tipos de público. Isso é notório em todas as formas de entretenimento, desde as séries aos especiais de stand-up. Este tipo de humor serve um propósito: preparar o espectador, fazê-lo querer saber. E quem o fizer é também recompensado com uma sapiência que faz rir desbragadamente.

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