Pedro Martins por - Dec 5, 2015

Killing Eve resulta bem porque Villanelle é difícil de decifrar

Quando tropecei em Killing Eve não lhe prestei imediatamente atenção. Uma série sobre espiãs e serviços secretos é na teoria meio caminho andado para ser chuva em chão molhado. Contudo, depois li um nome: Phoebe Waller-Bridge. Pode não ser conhecido, mas é a autora de uma joia de série chamada Fleabag (Prime Video), que aqui é creditada por produtora executiva, mas também como argumentista de alguns episódios.

Então comecei a ver Killing Eve; e então acabei de ver todos os episódios que compõem a primeira temporada disponível na HBO Portugal. A série é, no entanto, um original da BBC America baseado nos livros de Luke Jennings. A escrita permite aos espectadores encontrarem duas protagonistas díspares, mas que se complementam, com o cômputo geral da proposta a resultar tão bem também graças à forma como a antagonista, Villanelle, é tão enigmática e difícil de decifrar.

O pulmão é fácil de compreender: Eve Polastri (Sandra Oh) tinha uma vida aborrecida e previsível como agente do MI5 no Reino Unido até que foi promovida para o MI6 graças à entrada em cena de uma assassina que está a baralhar os serviços secretos. O seu nome? Villanelle (Jodie Comer). As duas protagonistas começam em posições opostas, com a série a aproximá-las numa espiral de muito estudo e até admiração de ambas as partes.

O espectador sabe desde muito cedo que o encontro é uma questão de quando e não de se, mas não consegue adivinhar como é que tal acontecerá e, muito menos, qual será o desfecho. Esta perseguição tem obviamente inúmeras reviravoltas, com Villanelle a receber os próximos alvos a abater através de um código que tem que inserir no computador, sendo enviada a inúmeras cidades europeias, que servem aqui de pano de fundo para mortes que vão variando entre o bizarro e o cómico.

Esta situação faz o espectador pensar para quem é que ela trabalha, quais são as motivações de tal organização e quais são os seus membros e as suas ramificações. Mais ainda, leva o espectador a questionar se a organização tem ligações aos serviços secretos e se há informações e influências a serem trocadas. Killing Eve coloca-se assim numa posição perfeita para um chorrilho de clichés, mas graças a um argumento que consolida ainda mais o brilhantismo de Phoebe Waller-Bridge, não só evita esses clichés, como subverte as expectativas por inúmeras vezes.

A série responde a estas perguntas aos longo dos oito episódios, dando algum contexto ao passado de Villanelle, às relações que foi mantendo e removendo da sua vida. Ao edificar narrativamente uma Eve Polastri aborrecida com o trabalho que tinha e ainda mais com a vida que tem em casa, a perseguição a Villanelle é a adrenalina que precisava e que é ainda mais exponenciada pela personalidade da assassina. Quando Eve está confusa com a vilã, o espectador está ao lado dela, sem saber qual será a sua próxima reação.

Olhem para a primeira cena do primeiro episódio. Sem conhecimento algum sobre a personagem, vemos uma cena “querida” entre Villanelle e uma criança numa geladaria, rostos abertos e familiares, quase uma interação maternal com a mesa ao lado. Sem aviso, depois de se levantar e enquanto se dirige para a porta, Villanelle dá uma chapada no gelado que deliciava a criança inocente. O motivo? Nenhum além do prazer do caos, do desprezo que a personagem tem pela vida humana e pelo seu bem estar. Isto, sabe-se ao longo dos episódios seguintes, era Phoebe Waller-Bridge a avisar para não pensarem que conhecem as aparências de Killing Eve.

Há mortes que acontecem segundos depois de Villanelle sorrir ou de chorar com emoção; há mortes que acontecem só porque sim, porque podiam acontecer. No momento pode-se acreditar que se está a perder o respeito e o amor pelo semelhante, mas a questão é que Villanelle já perdeu tudo isso e muito mais antes de o espectador chegar à sua vida. Este comportamento é fascinante (para o espectador e para Eve) porque é sustentado por uma personalidade que toca também o ponto oposto, o que fomenta a já mencionada incógnita sobre o que a protagonista vai fazer a seguir.

Mais perto do final da temporada de estreia, por exemplo, há um episódio que coloca a jovem assassina a contracenar com Irina (Yuli Lagodinsky), uma criança que é capaz de fazer frente à sua personalidade como poucas personagens antes. O seu pai chega a mencionar que gosta imenso da sua filha, mas que ela é tão chata. Há praticamente um frente-a-frente em que uma assassina capaz de grandes barbaridades é apanhada a mentir por uma criança, pois, tal como uma criança, também Villanelle sacia parte da sua personalidade na mentira e no exagero daquilo que sabe – o que acaba por a distanciar da realidade e dos factos.

Com o passar dos episódios, são personagens colocadas em situações que parecem becos sem saída para os argumentistas, algumas das quais resolvidas com soluções que parecem saídas do mundo da banda-desenhada (que, importa salientar novamente, serviu de inspiração à série), mas sem nunca perder um humor que pode ser descrito como cáustico. Waller-Bridge não escreveu a totalidade dos episódios, mas o estilo que domina tão bem pode ser apreciado da primeira à última mostra. Em determinado momento, depois de escapar à prisão, as últimas palavras de uma determinada personagem são “preferia morrer”. Nunca um desejo terá chegado tão rapidamente.

Esta passagem do tempo pela série serve também para que as teorias da conspiração que o espectador começa a ter sejam – ou não – comprovadas. Entre revelações de quem trabalha para quem, de quem é filho de quem e, não menos importante, quem tem sentimentos por quem e que tipo de sentimentos são. O mesmo é escrever que Killing Eve não se escusa ao complexo sem perder o espectador. Tal como Villanelle, também o argumento vai oscilando entre os estados de espírito de que vai revestindo.

Quando o último episódio chega, as protagonistas têm talvez os seus momentos mais cândidos, onde o espectador é surpreendido novamente pela suas ações antes de perceber que se calhar estava a ver estas vidas por uma janela que talvez não fosse a mais transparente. A forma como a última cena em Paris é escrita mostra em crescendo o cansaço, mas também a vulnerabilidade em estado puro. Não é à toa que a última frase proferida na temporada é “Para onde?”

Villanelle não é uma equação de solução fácil, então. Isto é válido para fora, ou seja, para os alvos que vai liquidando, mas sobretudo é uma incógnita para dentro, para as pessoas que a acompanham, como por exemplo Konstantin (Kim Bodnia). Quando virem a série, comparem a sua relação no final com aquilo que tinham no início. O próprio rosto de ambos está diferente, aliás, Jodie Comer consegue o feito de mudar o sotaque que tem e de entregar à série um rosto que se transmuta incontáveis vezes, tantas quantas o espectador não sabe a veracidade das expressões, desconfiando se o charme é mesmo charme ou se somos todos aquela criança na geladaria prestes a levar com uma surpresa no meio dos olhos. A pergunta “Para onde?” será respondida no início de abril, altura em que a segunda temporada de Killing Eve começará a ser exibida.

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