por - Nov 6, 2016

La Casa de Papel: Parte 3 – Crítica

A terceira parte de La Casa de Papel chegou ao catálogo de streaming da Netflix com as expectativas mais altas do que nunca. Quem começar a ver os oito episódios novos terá visto as duas primeiras partes que começaram praticamente no anonimato e terminaram sendo constantemente apelidadas de fenómeno. Depois de ter escrito que a criação de Álex Pina era “o nirvana do binging”, agora está na altura de escrever sobre a direção tomada em 2019.

Terminado que está o assalto à Casa da Moeda espanhola, a terceira parte arranca com os assaltantes espalhados pelo mundo, a gozar os milhões de Euros que carregam nos bolsos. Desde cedo, porém, sabemos que não demora muito para que sejamos convidados a uma nova situação fracturante e decisiva. É mostrada, por diversas vezes, uma indicação que informa a quantos dias estamos do “Dia D”.

O casal Tóquio e Rio está no paradisíaco arquipelago Guna Yala, Panamá. Mostrando toda a ânsia social da sua personalidade, Tóquio decide que está cansada do paraíso e que “precisa de pessoas”. Quando sai do arquipélago, Rio fica para trás, contudo, cada um fica com um telefone comprado no mercado negro. A promessa é que as comunicações, caso sintam a falta um do outro, serão seguras porque os telefones não foram registados.

Não são seguras, obviamente; são sim interceptadas pela Interpol. É um arranque algo forçado, com os argumentistas obviamente a precisarem de algo para que o tempo de férias terminasse. E termina, pois pouco tempo depois Rio está preso e a ser torturado, a equipa está novamente reunida e está a ser planeado um novo novo assalto. Se a Casa da Moeda parecia impossível, a Reserva Nacional do Banco de Espanha parece algo saído dos filmes Missão Impossível.

O assalto propriamente dito será feito ao “único ouro importante” e estará, eventualmente, intrinsecamente ligado à tentativa de salvar Rio. É um argumento que se move então em duas frentes, colocando O Professor e a Raquel Murillo – ou Lisboa, como é agora conhecida – numa autocaravana, liderando os dois planos. Como poderão ler ao longo desta crítica, há muito das duas primeiras partes que aparece nos novos episódios, provando que a equipa está a tentar não mexer muito na fórmula que lhe concedeu o tal estatuto de fenómeno.

Há ainda assim alguns apontamentos interessantes. A forma encontrada para entrar no Banco de Espanha é criar caos, despejando 140 milhões de dólares sobre as ruas de Madrid. Como? Espalhando dirigíveis pelos céus da capital espanhola. É um processo que adapta a série a adoração – e a utilização – que as pessoas cultivaram sobre a máscara do Dali, esbatendo a linha entre realidade e ficção de uma forma bem conseguida.

É uma série onde não se pode levar tudo a sério. Por exemplo, o lado mais técnico, ou seja, o lado mais informático do entretenimento é necessário para controlar as comunicações das várias polícias envolvidas. É dito que graças ao WhatsApp, a equipa do Professor e de Lisboa passou a aceder aos telemóveis da polícia e do CNI (Centro Nacional de Inteligencia) espanhóis, conseguindo até ativar o microfone, câmaras e GPS dos dispositivos e dominar as telecomunicações do Ministério da Defesa.

Isto é um “feito” que nunca é devidamente explicado, porque a série não precisa de o fazer, uma vez que não quer rivalizar com Mr. Robot. Se há este lado técnico estapafúrdio, há também ideias menos complexas, mas que denotam mais criatividade: há o uso de telemóveis de segunda geração, sem GPS ou Internet. Os telefones são colocados um face ao outro de uma caixa que é transportada por um membro da equipa, Marselha, pela cidade, colocando o “local” em movimento e no meio de zonas com milhares de pessoas. Isto enquanto o Professor está a largos quilómetros de distância.

Este plano, que “não é do Professor nem do pai do Professor”, acaba por ser uma homenagem a uma das principais personagens durante as duas primeiras partes. Há incontáveis cenas que se apresentam como flashbacks, puxando a trama dias, meses e até anos atrás. Esta prática denota, novamente, que Pina e companhia não estão preparados – ou simplesmente não querem – deixar para trás alguns momentos e personagens, dando-lhe o tempo de antena necessário para que assinem algumas das melhores cenas da terceira parte.

Outra das imagens de marca que está de volta são as confrontos cara-a-cara, ou melhor, pistola-a-pistola com a câmara a oferecer um plano circular. Há um impasse no terceiro episódio, por exemplo muito parecido com o que já tínhamos visto. Ou até mesmo planos que parecem cópias de outros tempos, como um dos membros mascarados em frente a uma escadaria com os reféns alinhados no chão. Isto tem tanto de piscadela de olho como de falta de ir mais além.

Sobre o assalto propriamente dito, resulta porque já tinha resultado. Porém e ironicamente, fiquei com a sensação que lhe falta mais tempo no ecrã ao longo dos episódios, especialmente no meio da temporada. Há a promessa de um trabalho em turnos de 12, 14, 16 e até 24 horas; um trabalho a 65 graus centígrados que vai fazer o local parecer um crematório. Bogotá diz que “vim fazer a pior parte do trabalho”. E isto é tudo prometido antes de chegarem ao cofre principal do Banco.

Mas este procedimento, obviamente importantíssimo para o assalto, poderia ser ainda mais detalhado em cena. Aliás, a série faz um excelente trabalho a detalhar o cofre: a 48 metros da superfície é uma câmara hermética, que se enche de água em 20 minutos depois de tocarem na porta. Esta inundação chega-nos de dois riachos que foram desviados graças ao uso de 45 quilómetros de tubagens reforçadas. É uma “sala do ouro” tão detalhada, que merecia mais exposição.

Uma das partes mais interessantes do assalto acaba por não ser o ouro, mas sim 24 caixas vermelhas que fazem os inspectores da polícia tremerem de medo. Material com inúmeros segredos que incluem o Ministério do Interior, o Ministério dos Negócios Estrangeiros e até os Serviços Secretos, chega mesmo a ser descrito como “os esgotos do Estado”.

E por falar em partes interessantes, os oito episódios arranjam tempo para mostrar, por exemplo, Denver a lidar com a paternidade, o peso que ter um filho tem nas suas decisões e no risco que está disposto a correr. Outro destaque é Alicia Sierra, a nova Inspectora. Grávida e com apetite por donuts, não tem qualquer escrúpulos e acaba mesmo por revelar um toque de sociopatia na forma como negoceia com o Professor.

Uma das personagens que domina a terceira parte é Palermo. Não só porque pouco depois de entrar no Banco fica com os olhos cheios de vidros, como é uma personagem complexa. Não quer dizer que seja uma personagem correcta ou com as quais os espectadores partilhem as opiniões, até porque deixa bem claro que as suas tiradas foram escritas para chocar – chega a afirmar que as mulheres encaram o sexo sobretudo para procriação, entre inúmeras tiradas sexistas e desprovidas de qualquer respeito para o sexo feminino – e para o masculino também, se pensarmos bem sobre o que diz.

Palermo, juntamente com Helsínquia e com Nairobi, protagoniza também uma das melhores cenas da nova temporada. Versando sobre o amor, a coragem de amar e, sobretudo, a coragem de o dizer, é Nairobi que rouba por completo a cena e o episódio. Importa destacar, sem estragar nenhuma surpresa, que Palermo entra na série com um passado que o liga diretamente a Berlin e, consequentemente, ao Professor. Tudo é devidamente explicado nos inúmeros flashbacks já mencionados.

O Professor é inevitavelmente outro dos pontos mais fortes, apresentando-se novamente como a voz da razão e como o lado mais lógico e minucioso do assalto. Não se escusa, obviamente, a dilemas morais, ao sentimento que está a trair o assalto, e a uma relação com Lisboa com mais altos e baixos do que uma montanha-russa. Curiosamente, é também incrivelmente frio e alguém que vive ensombrado por Berlin.

As prestações dos atores e o aprofundamento das suas personagens continuam na terceira parte a ser a continuação do que as afirmou nas partes anteriores. Quem já tiver escolhido quem gosta e quem odeia – e é muito provável que já o tenham feito há muito – não terá grandes motivos para mudar essa linha de pensamento. O Professor fala várias vezes que vê o assalto como uma partida de xadrez, mas estes oito episódios são precisamente isso: quem gostou das duas primeiras partes vai consumir estes oito episódios em duas ou três sessões; quem acha que a toada é mais pertença do género telenovela e de escrita ligeira, certamente não vai mudar o seu julgamento.

Praticamente desde o momento em que o assalto começa a decorrer, além do entusiasmo de perceber como é que vão chegar ao ouro, outro ponto da atenção do foco do espectador é como é que o vão retirar do banco. O formato é revelado na primeira parte, mas o argumento guarda quase até ao fim a revelação da estratégia. Num jogo do gato e do rato com a polícia, incluindo as investidas com gás halotano, por exemplo, que revelam uma incompetência incrível. Há muita astúcia da equipa mascarada, mas há também muitos deslizes dos investigadores.

Algo que é colocado novamente em evidência quando uma equipa de forças especiais, que teve treino de elite, se deixa surpreender pelos assaltantes. É verdade que o grupo dos fatos encarnados tinha sido avisado graças a mais uma artimanha do Professor, mas ainda assim a forma como tudo é apresentado, mais do que revelar a genialidade dos Dali, confirma o desnorte da equipa policial e da coordenação com quem está fora do banco. A equipa, já agora, acaba a gravar um vídeo em que cantam a sempre popular “Bella Ciao”.

Uma nota de rodapé para os fãs de Berlin, personagem que considerei a mais interessante até ao desfecho que todos conhecemos. Não acho útil versar sobre em que situações e moldes marca presença, mas importa sublinhar que tal é o peso que tem na trama e tal é o talento do ator Pedro Alonso, que se nota uma tentativa quase de replicar Berlin com Palermo, o que apenas consegue ser explicado pela proximidade de ambos.

A grande diferença é mesmo a produção, ou melhor, os valores da mesma, sendo claro que os bolsos fundos da Netflix foram abertos. Desde vários locais exteriores espalhados pelo mundo, aos efeitos, passando por uma banda sonora que conta músicas oficiais, sente-se que La Casa de Papel: Parte 3 não arrisca, mantém-se pensada para o binging, e que resulta no formato de sempre. Tudo isto com o músculo financeiro da Netflix.

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