São grandes nomes os que serão mencionados ao longo dos próximos parágrafos. Olhando para o primeiro texto, Pedro Martins dedicou parte do seu tempo a assistir aos dois primeiros episódios de Raised by Wolves. Com vários pontos de interrogação naturalmente ainda sem resposta, os episódios realizados por Ridley Scott ostentam uma epopeia.

O Marco Gomes teve uma semana com minutos para ver Gato Preto, Gato Branco. Filme realizado por Emir Kusturica, é segundo o responsável pelas imagens dos artigos e das análises uma obra que tem um trunfo na “prova do estatuto imprescindível que a arte de celulóide alcançou para a humanidade”.

The Shining foi o filme a que Filipe Urriça assistiu, testemunhando uma das obras mais celebradas de Stanley Kubrick. Escrevendo também sobre o poder do isolamento, o redator afirma que “o filme é um clássico porque tem um terror eficaz, apesar de não assustar uma única vez”, como podem ver na parte final do artigo.

Pedro Martins, Raised by Wolves (HBO Portugal)

Raised by Wolves é sinónimo de Ridley Scott, que assina a série exclusiva HBO como realizador e produtor, apesar da mesma ter sido criada por Aaron Guzikowski. No momento em que este artigo é publicado estão disponíveis três episódios, dos quais vi os dois primeiros - curiosamente, os dois que são realizados por Scott.

Proposta de ficção científica, Wolves conta a história de dois andróides, Mãe (Amanda Collin) e Pai (Abubakar Salim), que chegam a um planeta distante e abandonado, onde têm que começar uma civilização nova. Os androides carregam embriões humanos congelados - um plural usado para pintar as condições nefastas do planeta. Nestes primeiros episódios, além do interesse no conceito, Raised by Wolves coloca em evidência os argumentos religiosos, particularmente entre os ateus e um grupo religioso conhecido como Mitríacos.

Os valores de produção são elevados, algo facilmente identificável nos efeitos visuais e na escala de alguns cenários. Por esclarecer fica se o argumento não estará a tentar versar sobre demasiados temas, ou melhor, se terá talento para conseguir acompanhar e dar um desfecho condizente a tudo o que é proposto. O arranque, todavia, é auspicioso e com ambições de épico.

É assinalável, todavia, que apesar de estarmos perante uma visão muito pouco animadora sobre um futuro que não torna o presente mais tragável, uma boa parte destes episódios está relacionada com o cariz familiar. Mais concretamente, Raised by Wolves é para já uma série sufocante que se vira para a parentalidade na hora de voltar a colocar os pés na Terra.

Marco Gomes, Gato Preto, Gato Branco (DVD)

O mar leva, o mar traz. Situação clássica, emprestar algo a alguém e não mais saber de seu paradeiro. Situação um pouco menos clássica, emprestar algo a alguém e constatar o paradeiro incerto na oferta de um novo exemplar.

Assim foi com a cópia em DVD de Gato Preto, Gato Branco (1998), Crna macka, beli macor em língua nativa, se não o melhor - dos vistos a predileção vai para Underground (1995) -, o mais icónico filme de Emir Kusturica por abranger franja maior de audiência sem desmerecer a benção da crítica especializada.

Em grande parte a ele se deve em nossa memória a perpetuação do cinema algazarra do sérvio, romantizando a cultura cigana dos Balcãs e dando a ilusão que nos seus filmes a imagem existe para acolitar o ritmo das peripécias imposto pela modulação frenética da música romani.

O triunfo de Gato Preto, Gato Branco está em ser prova do estatuto imprescindível que a arte de celulóide alcançou para a humanidade, pedindo emprestado, primeiramente à oralidade, a capacidade de cativar com estórias singelas, naquilo que em exercício qualificativo simplista se vulgarizou de conto de fadas ou fábula dos tempos modernos. Como a truculência insaciável nasceu da simplicidade é o mistério e encanto da coisa.

Filipe Urriça, The Shining (TVCine Action)

Stanley Kubrick criou um filme notável com The Shining, apesar do criador do livro em que se inspira, Stephen King, já ter afirmado que detesta o filme. Não é um filme de fácil digestão, mas é um filme tecnicamente fantástico e com um ritmo incrível. Jack Nicholson é o grande ator que faz o filme ser a referência que é ainda hoje como filme de terror.

Nicholson interpreta Jack Torrance, um homem desesperado para poder acabar a sua obra literária, um trabalho que precisa de muita inspiração. Surge-lhe uma excelente oportunidade quando encontra uma oferta de emprego para tomar conta de um hotel durante o inverno e uma boa parte da primavera. Porém, não haverá ninguém no hotel para além da família Torrance, visto o inverno ser muito rigoroso na localidade isolada onde se encontra o hotel.

O isolamento é o ingrediente perfeito para alguém que quer trabalhar, como também pode ser psicologicamente muito perigoso, ainda por cima quando se sabe que ocorreu um crime macabro nesse mesmo hotel. Gradualmente, o filme expõe a espiral descendente à loucura do escritor que só queria o cenário perfeito para poder escrever em paz. Por vezes, sem dizer uma única palavra, no completo silêncio, só com as suas expressões faciais, Jack Torrance é assustador.

O filme é um clássico porque tem um terror eficaz, apesar de não assustar uma única vez. É um terror que se aproxima à medida que Jack se descontrola cada vez mais. É o terror de vermos alguém a ser um perigo para si próprio e das pessoas próximas dele. Enfim, Doutor Sono, a sequela de Shining também estará em breve nos canais TVCine e acaba por ser uma boa desculpa para revisitar uma obra deste calibre.

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