Três propostas, três géneros distintos, três plataformas diferentes. É isto que poderão encontrar nesta edição da rubrica semanal onde a equipa VideoGamer Portugal escreve sobre o que tem passado pelos seus ecrãs além dos videojogos. E é, naturalmente, um trio que pode ser uma boa recomendação para o vosso domingo.

Adú foi a escolha de Pedro Martins. O diretor de conteúdos do site acedeu à Netflix para testemunhar as três histórias que alimentam a película. É uma obra que versa sobre a imigração, colocando em evidência vidas inequivocamente inseridas em planos de existência diferentes, mas que inevitavelmente se vão tocar. O filme foi aos Goya 2021 e saiu com diversos galardões, mas já era um monumental triunfo antes das nomeações.

Posteriormente, podem ler as conclusões a que Marco Gomes chegou depois de ver A Dupla Vida de Véronique. Publicado originalmente em 1991, o filme chega-nos da mente de Krzysztof Kieslowski, realizador que ficou conhecido pela sua “trilogia das cores”. Sobre Véronique, escreve o Marco que é “a procura de tangibilidade no mistério e até, como é o caso, no inexprimível”.

O Filipe Urriça viajou com a animação de Solar Opposites. Disponível no catálogo do Disney+ graças à inclusão dos conteúdos Star, a série de ficção científica foi criada por Justin Roiland, nome indissociável do colosso Rick & Morty. Vale a pena, segundo o Filipe, ainda que “Solar Opposites parece ser uma série que aproveitou as ideias rejeitadas que não foram utilizadas em Rick & Morty”.

Pedro Martins, Adú (Netflix)

Adú conta três arcos narrativos diferentes, todos debaixo do mesmo guarda-chuva. Realizado por Salvador Calvo, o filme não poupa o espectador e entrega-lhe um conjunto de olhares sobre a imigração de África para a Europa. Há cenas memoráveis e há uma cinematografia que usa a beleza para conquistar a retina e dominar o pensamento.

Melilha, cidade espanhola em Marrocos, é o palco da primeira veia narrativa. Desesperados, os migrantes tentam escalar uma vedação. O filme ilustra o impiedoso desastre e como os membros da Guardia Civil são chamados a tribunal. Mais concretamente: é ilustrado o pesar na consciência de um dos polícias.

Temos também o caso de um pai, Gonzalo (Luis Tosar) e da sua filha, Sandra (Anna Castillo), que tentam reatar uma relação tumultuosa em Espanha. Quando Sandra visita o seu pai em África, o espectador sente a bagagem emocional e tudo o que ainda não foi perdoado - à cabeça, o fim da relação de Gonzalo com a mãe de Sandra e todas as peças que deixaram de encaixar desde então.

Porventura o ramo mais emocional da narrativa: Adú (Moustapha Oumarou) faz uma longa viagem. Primeiro com a sua irmã, Alika (Zayiddiya Dissou), e depois com Massar (Adam Nourou). É uma constante luta pela sobrevivência, uma constante tentativa de ter algo quando se perdeu praticamente tudo. Ao não aderir a paninhos quentes, há cenas apresentadas como golpes sem piedade, desferidos com uma violência que nos abre os olhos que nunca deveriam estar fechados.

As performances dos atores e das atrizes é memorável, tantas vezes sendo gravada em situações agrestes. Adú foi aos Goya na noite passada e arrecadou vários galardões, incluindo a coroação de Nourou como Ator Revelação e Calvo como Melhor Realização. Ainda não tive oportunidade de ver os restantes destaques, especialmente Akelarre e Las Niñas (Melhor Filme), mas Adú é mais do que um filme e é mais do que uma longa lista de nomeações.

Desde os primeiros momentos há a curiosidade de saber como e se estas três histórias se vão tocar. A resposta chega naturalmente perto do final, mas Adú é a soma de todas as cenas anteriores, é uma soma que mostra as perdas e as conquistas de quem está a operar em diferentes níveis de desespero, de quem está a lutar para manter a cabeça à tona.

Marco Gomes, A Dupla Vida de Véronique (DVD)

Apertando-se critério não foi Krzysztof Kieslowski pelos contemporâneos considerado autor de primeira linha, nem os anos passados e que hão-de passar desde sua morte em 1996 lá o colocarão. Em nada belisca um percurso do qual podia, ou pode, dependendo da convicção na existência além corpórea, orgulhar.

Trilhado de forma consistente e coerente seria A Dupla Vida de Véronique (1991), La Double Vie de Véronique, disso exemplo tão bom como qualquer outro, mas, pelos argumentos abaixo elencados, é um dos mais certeiros a trazer.  

Antes de mais, por ser provavelmente seu primeiro filme com distribuição à escala global, franqueada pelas nomeações e prémios conquistados, em especial três categorias no Festival de Cannes de 1991, Prémio Melhor Interpretação Feminina, para Irène Jacob, Prémio do Júri Ecuménico e Prémio FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema).

Enquanto obra imediatamente anterior, aplanando terreno para o mais consagrado projeto autoral, a chamada Trilogia das Cores, representando Liberdade, Igualdade e Fraternidade as da bandeira francesa, Azul (1993), Branco (1994) e Vermelho (1994).

E também o carácter simbólico da narrativa, repartida entre sua Polónia berço e a França que lhe permitira reconhecimento internacional, cada nação com sua Weronika, Véronique. Essas almas siamesas afastadas pelos quilómetros e culturas distintas demonstram um dos assombros do cinema de autor, a procura de tangibilidade no mistério e até, como é o caso, no inexprimível.

Filipe Urriça, Solar Opposites (Disney+)

Uma das vezes que explorei o Disney Plus, para ver aquilo que tinha para além de WandaVision, parei em Solar Opposites. Não avancei mais na pesquisa de conteúdo porque a direção artística deste desenho animado parecia-me ser bastante familiar: a série, em termos visuais, é muito similar a Rick & Morty. Vi os quatro episódios disponíveis, é lançado um por semana, e fiquei bastante satisfeito com o que vi, apesar de não chegar aos calcanhares de Rick & Morty.

Depois de ter visto os quatro episódios (ainda não percebi porque é que não disponibilizam a temporada inteira de uma só vez), dá para ver que as semelhanças com Rick & Morty vão mais além do que o aspeto visual. Solar Opposites é uma série de desenhos animados de ficção-científica, onde uma família de extraterrestres aterrou em cima de uma casa no planeta Terra e lá ficou a viver. Há conceitos estranhos de ciência, mas sempre muito divertidos, principalmente quando envolve violência desmedida.

Solar Opposites parece ser uma série que aproveitou as ideias rejeitadas que não foram utilizadas em Rick & Morty. Embora não tenha uma narrativa e personagens tão elaboradas, estão lá bons conceitos e os episódios melhoram consideravelmente sempre que estreia um novo - ou é possível que esteja a gostar cada vez mais deste conceito visto partilhar tantas similaridades com Ricky & Morty. Até a personagem principal é vocalizada pelo mesmo ator que interpreta Rick.

Sinceramente, espero que Solar Opposites trabalhe muito mais as suas personagens, como por exemplo as suas histórias antes de chegarem ao planeta Terra. Mesmo que isso não seja suficiente, tem de haver relacionamentos mais vincados entre eles e, sobretudo, personalidades mais fortes. Acho que há aqui material muito bom para tornar Solar Opposites numa série tão boa como Futurama, mas se houver desleixo por parte dos seus autores ainda se pode tornar num Disenchantment.

Continuem a conversa nos fóruns VideoGamer!