Este domingo, há dois membros da equipa VideoGamer Portugal que escrevem sobre propostas que retratam o mundo tecnológico de forma muito diferente.

Pedro Martins escolheu Hater, filme de Jan Komasa que conta a história de alguém que usa as potencialidades da tecnologia para revelar recantos sombrios da sua personalidade. É uma obra fria que coloca em evidência o que pode ser o alimento pouco saudável da mente: fazer o que está errado com a plena consciência que está errado.

No final do artigo podem encontrar a participação de Filipe Urriça. Optando por ver Upload, série que foi criada por Greg Daniels, nome que ganhou peso depois de ter desenvolvido The Office para a televisão americana. É uma série de comédia, diz o Filipe, que vale a pena o vosso tempo se tiverem uma subscrição Prime Video.

Antes podem ver as palavras que o Marco Gomes dedica este domingo a Que Fiz Eu Para Merecer Isto? Filme assinado por Pedro Almodóvar em 1984. Escreve Marco que a comédia sobre uma família sem estrutura apresenta já as particularidades de um filme Almodóvar, com um dos pontos que ficam a ser a sua capacidade de não se levar demasiado a sério.

Pedro Martins, Hater (Netflix)

Hater é um filme frio. Realizado por Jan Komasa, coloca Tomasz (Maciej Musiałowski) no papel de protagonista e praticamente desde o início que fica bem patente a espiral pelas artimanhas tecnológicas colocadas ao serviço ciente do fazer mal. Os minutos de estreia mostram Tomasz a ser expulso da faculdade depois de ser acusado de plágio, chispa que abre a porta para questionar os seus escrúpulos.

Intrinsecamente ligados à forma como Tomasz evolui no filme estão os amigos da sua família: Robert (Jacek Koman) e Zofia (Danuta Stenka), assim como a filha do casal, Gabi (Vanessa Aleksander). Há muito que o protagonista tem uma paixão por Gabi, ajudando-a e querendo desesperadamente fazer parte da sua vida, algo que se manifesta por uma obessão analogica e digital muito pouco saudaveis.

Além disso, os perigos da manipulação online, também com Tomasz no centro do palco, são demonstrados através da empresa para a qual começa a trabalhar, uma empresa que se dedica a sabotar a imagem de figuras proeminentes na sociedade. Hater parte desta premissa nefasta e une os dois mundos, colocando Tomasz a tentar prejudicar tanto a família como um político que a mesma suporta.

É impossível ver Hater sem traçar um paralelo para a realidade digital atual. A desinformação e as tentativas incansáveis de deturpar a realidade usando o digital, para inclinar a opinião pública, manipulando-a. Vale a pena ver, com Musiałowski entregue ao seu papel de uma forma que edifica uma desarmante neutralidade perante a exclamação da falta de moral.

Marco Gomes, Que Fiz Eu Para Merecer Isto? (DVD)

Dentre os viventes a larga distância da concorrência, com exceção de Alejandro Amenábar e Víctor Erice, o mais reconhecido realizador espanhol não colhe minhas simpatias, dando nessa condição uma esquálida imagem do que de melhor no meio se faz aqui ao lado, apesar de não ser a mais pujante de suas manifestações artísticas.

Também por isso não dediquei plena atenção à filmografia de Pedro Almodóvar, visualizando, quanto muito, um terço de suas longa-metragens, contadas atualmente em vinte e duas. Daquelas, uma porém deixou impressão abonatória em minha memória, Que Fiz Eu Para Merecer Isto? (1984).

A repassagem serve essencialmente para tentar descodificar o motivo, sendo o exercício de residual grau de complexidade. A comédia burlesca de subcamada dramática em torno de uma família desestruturada possui a superficialidade e excesso obsessivo transversais à obra de Almodóvar, a diferença face à maioria do trabalho posterior está em não se levar muito a sério, convocando mesmo interlúdios de esforçada liberdade criativa.

Filipe Urriça, Upload (Prime Video)

Ter começado a ver a oferta da Amazon Prime Video permitiu-me perceber a sua aposta forte no streaming, para assim dar a tão necessária concorrência à Netflix e à HBO. Upload é uma comédia original e moderna, porque oferece-nos uma visão do futuro como se pegasse numa ideia de Black Mirror para a expandir numa série.

No futuro que Upload mostra há uma solução para a vida após a morte, porque há quem assuma que não há nada e é o fim da vida, sem haver nenhuma consequência ditada pela religião que se segue. A solução passa por fazer uma cópia da consciência da pessoa falecida e levar os dados desta cópia para um local digital, um espaço onde a pessoa pode viver como se estivesse num espaço criado por produtores de videojogos.

Nathan Brown, o protagonista, está prestes a morrer após um acidente automóvel. Por isso, foi para o serviço Upload e como tal tem um assistente pessoal para resolver os seus problemas, sejam eles pessoais ou técnicos. Com a sua assistente, Nathan desenvolve uma relação de amizade com Nora, a sua assistente, porque chegar a um lugar como aquele requer um certo tempo de habituação.

A série da Amazon é uma boa comédia, pois é surpreendente na forma como aborda problemas de programação, sobretudo a parte onde se investiga as circunstâncias da morte de Nathan. Upload, a empresa, parece uma produtora de videojogos com más intenções, que já ultrapassaram a simples ganância e estão no campo da criminalidade.

Ainda só há uma temporada, mas já foi confirmado que haverá uma segunda. Será interessante ver a relação de Nathan com a sua namorada Ingrid, os sentimentos que tem com Nora, ou como é que vai reagir quando souber a verdade quanto aos últimos momentos da sua vida. Upload não é só uma boa série com uma narrativa intrigante, também o futuro que apresenta é tão fascinante, bem como a forma a sociedade está representada. Enfim, fica aqui uma sugestão caso tenham uma subscrição do serviço de streaming da Amazon.

Continuem a conversa nos fóruns VideoGamer!