VideoGamer Portugal por - Jan 9, 2022

O que andamos a ver, 9 de janeiro, 2022

Este domingo, O que andamos a ver apresenta um trio de propostas que vão desde um filme que decorre num videojogo a um filme português de culto, passando pela nova temporada de uma série que continua a ser popular no catálogo da Netflix.

O Pedro Martins viu finalmente Free Guy, a obra realizada por Shawn Levy que coloca uma personagem não-jogável no centro do palco. A película decorre no mundo do videojogo e no mundo real, tendo coração para contar uma trama que não mudará o vosso universo, mas que não se estatela ao comprido na hora de atar as pontas.

Podem também ler as impressões de Marco Gomes sobre São Jorge, o filme de Marco Martins em que se destaca a prestação do ator Nuno Lopes. Ainda assim, escreve o Marco que a obra tem alguns problemas, incluindo a “fetichização da linguagem visual clonando planos e sequências e as incoerências verificadas no processo de montagem”.

Para terminar esta edição da rubrica O que andamos a ver temos as palavras de Filipe Urriça. Terceira participação, terceira plataforma. O redator voltou à Netflix para escrever sobre a nova temporada de Cobra Kai, uma das razões pelas quais mantém uma subscrição do serviço.

Pedro Martins, Free Guy (Disney+)

Free Guy conta a história de um NPC (personagem não-jogável) num videojogo (Free City), ou seja, de alguém com quem interagimos diariamente. Simplesmente conhecido como Guy (Ryan Reynolds), a sua rotineira vida muda quando conhece a personagem de Millie (Jodie Comer).

Millie e Keys (Joe Keery) criaram um jogo antes de Free City existir e agora procuram provas que Antwan (Taika Waititi) usou o seu código para criar o colosso onde Guy existe. O problema é que Guy não sabe originalmente que é apenas uma personagem e que o seu mundo é virtual.

Realizado por Shawn Levy, Free Guy consegue alguns momentos cómicos e no final deixa o espectador com a sensação de uma aventura que começa com uma base surreal. Comer alimenta personagens nos dois mundos, Reynolds vive apenas no mundo do jogo e Keery no mundo real. Contudo, há um dinamismo com um fluxo que interliga tudo.

Há algumas participações surpreendentes e há também Dude, uma personagem que entra em cena perto do final da película e que rouba as cenas onde está presente – Dude é também interpretado por Reynolds. E é o ator que leva o filme às costas, dando vida a personagens que parecem ter sido pensadas para os fãs que há muito o acompanham.

Free Guy não é o melhor filme que trouxe ao O que andamos a ver, mas também não é uma perda de tempo. Os videojogos são o centro da trama e é possível sentir alguma devoção dos criadores – incluindo as referências e um claro piscar de olho, por exemplo, a Portal. Vejam-no se querem uma experiência mais descontraída do que acutilante; um sorriso em vez de uma gargalhada.

Marco Gomes, São Jorge (DVD)

Após discreta receção a Como Desenhar Um Círculo Perfeito (2009), decidiu Marco Martins na terceira longa-metragem fora do registo documental, porventura inconscientemente, recauchutar as fundações de Alice (2005), a de estreia que o colocara na rota das promessas da realização em Portugal.

Ou seja, conceber um guião ficcionado com base em apurada investigação de fenómenos do quotidiano, em Alice o desaparecimento de menores, da que hoje nos ocupa, São Jorge (2016), o modus operandi das empresas de cobrança difícil, proliferando no país durante os anos do regaste financeiro da Troika.

E também a dependência narrativa em torno do desempenho de Nuno Lopes, cujo desiderato na obra mais recente se atesta pelo mais significativo reconhecimento na carreira, prémio de melhor ator na secção Horizontes na edição daquele ano do Festival Internacional de Cinema de Veneza. Ao que não é alheia a exigência de um papel que obriga a transformações morfológicas e de preparação física.

Não obstante o esmero do ator é São Jorge combate feroz -expressão nada inocente sendo praticante amador de boxe o protagonista- entre conteúdo descartável e essencial. A mera existência da peleja representa a impossibilidade de sucesso, mais quando padece a fita de doença raríssima, alteia os lugares-comuns a patamar de evidência usual às de massas, não lhe sendo de todo o caso.

Dissemina-se a possível justificação entre as vias mal exploradas do argumento, também na densidade rasteira das personagens, fetichização da linguagem visual clonando planos e sequências e as incoerências verificadas no processo de montagem.

Filipe Urriça, Cobra Kai (Netflix)

A quarta temporada de Cobra Kai já estreou no gigante de streaming e é uma das razões pela qual mantenho a minha subscrição na Netflix. A rivalidade entre os sensei Johnny Lawrence e Daniel LaRusso será posta à prova, tudo em prol de derrubar o dojo Cobra Kai. Porém, o meu interesse está mais em saber o que é que o antagonista, o sensei do Cobra Kai, John Kreese, vai fazer para reforçar o seu dojo para o torneio de Karaté que, na primeira temporada fez Kreese revelar-se.

Cobra Kai é uma série que me mantém com um certo entusiasmo, porque aqui a temática central não é um simples “os maus contra os bons”, como se via muito nos filmes de ação dos anos oitenta. Aqui há toda uma construção de personagens e de moralidades, quando as ações tomadas pelos indivíduos que praticam Karaté de forma violenta e fora dos devidos dojos. Na escola de Miguel e Sam aconteceu precisamente isto, alguns alunos quiseram resolver os seus problemas à força de murros e pontapés, algo que teve consequências bem graves para quase todos os seus intervenientes.

O dojo Cobra Kai precisa de desaparecer ou, pelo menos, rever as suas ideologias violentas e inadequadas para os miúdos adolescentes. É realmente curioso ver Johnny (a quem foi incutida esta filosofia de estar na vida) e Daniel (que é o exato oposto de Johnny) a serem obrigados a unir forças para derrotar Kreese, assim como ver o que o sensei de Cobra Kai tem na manga para sair vitorioso deste confronto entre dojos.

Parece um contra-senso, mas quem tem de parar esta onda de violência são os próprios miúdos, porque não conseguem entender uma mensagem sem levá-la à letra. Ainda estou para ver quem é que vai ganhar o torneio, mas visto que introduziram uma personagem antiga, dos filmes, o minha aposta vai para Cobra Kai para a série encerrar numa quinta temporada com Myiagi-Do e Eagle Fang a erguerem das cinzas que nem uma fénix.

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