Numa semana que volta a contar com a contribuição de todos os membros da equipa VideoGamer Portugal, temos também novamente algo para todos os gostos. Tive oportunidade ver finalmente The Neon Demon, filme de Nicolas Winding Refn que fica aquém em todos os departamentos menos na fotografia. O Filipe Urriça teve oportunidade de escrever sobre Legion, série que o está a encantar.

O Marco Gomes escreveu esta semana sobre Três Vidas e Uma Só Morte, filme de 1996 que conta com Mastroianni. O Pedro Marques dos Santos regressa a um dos seus desportos de eleição para escrever sobre ATP 1000 Indian Wells, prova que se revelou uma caixa de surpresas.

Imagens O que Andamos a Ver 19 de março 2017

Pedro Martins, The Neon Demon - O Demónio de Néon (TVCine, 2016) 

Nicolas Winding Refn tornou-se conhecido com Drive, filme interessante que gostei bastante de ver. Recentemente, tive oportunidade de assistir à sua obra mais recente, The Neon Demon. É mau, bastante mau. A realização aposta em planos que querem ficar na memória pelo contraste de cores, pela sobreposição de matérias. É uma película bonita, mas pouco mais do que isso.

The Neon Demon é protagonizado por Elle Fanning no papel de Jesse, uma jovem inocente que mente sobre a sua idade para se afirmar no mundo da moda. Se inicialmente estamos perante mais uma história inócua de mais uma luta pela afirmação na cidade desconhecida, quando o final chega é uma obra sobre a posse que não conhece barreiras.

Desde logo despertado inveja nos seus pares, Jesse acaba por ir mudando de personalidade, o que é talvez o ponto mais interessante da trama. Tudo aquilo que se vai mudando ao seu lado é simplesmente rídiculo, sem qualquer arco que o sustente. The Neon Demon passa sem grandes problemas por temas como necrofilia e canibalismo, o que o deixa completamente desancorado.

Quando se quer chocar apenas por chocar, o resultado é este: um filme que não ficará na memória, um ponto ao lado na carreira de Refn, que convém não esquecer já tinha falhado a mouche com Só Deus Perdoa. Deixei The Neon Demon chocado, sim, mas com a falta de substância em detrimento de uma realização pomposa, que grita “olhem para mim, olhem para mim”.

Imagens O que Andamos a Ver 19 de março 2017

Filipe Urriça, Legion (FOX, 2017)

Como é hábito, em séries que não são disponibilizadas de uma só vez, como faz a Netflix, acabo por me esquecer de acompanhar e deixar para trás. No entanto, graças a esta rubrica e a uma aplicação que uso para estar a par do que já vi e do que me falta ver, não me perco a ver Legion, o exemplo que trago para esta semana. 

Depois de já ter visto cinco dos oito episódios de Legion, após um episódio piloto confuso, estou a adorar para onde esta série me está a levar. David Haller não é um simples mutante, mas talvez o mutante mais poderoso da Marvel e cada um dos intervenientes da guerra que está em marcha tenta recrutá-lo, para terem ao seu lado uma peça poderosa contra o adversário. 

Contudo, a manifestação de alguns dos seus poderes é confundida com uma doença mental, a esquizofrenia. O que lhe impossibilita de ter um controlo total das suas capacidades psíquicas. Legion não é sobre uma doença mental em específico, mas retrata alguém com sintomas semelhantes que vive uma agonia diária para tentar equilibrar a sua sanidade mental. Isto obriga o protagonista a enfrentar os seus medos, a expor os seus segredos e aquilo que consegue fazer. 

Esta luta interna está muito bem representada, com efeitos especiais a darem um tom estilístico à série. E esta é a luta mais importante: encontrar uma forma de ser aceite pelos outros como ser humano e não como uma peça de um jogo do qual nunca pediu para participar. São mais três fins de semana bastante interessantes que aí vêm, uma conclusão que espero ser genial, tal como mais de metade da série o é. 

Imagens O que Andamos a Ver 19 de março 2017

Marco Gomes, Três Vidas e Uma Só Morte (DVD, 1996)

Em 2010 editada pela Clap Filmes, contêm a caixa Raúl Ruiz – A Consagração cinco obras que muito contribuíram para granjear ao realizador chileno radicado em França o estatuto hoje alcançado.

Seguindo o fio cronológico descerra-se o conjunto com a produção franco-lusitana de 1996, operacionalizada por Paulo Branco, Três Vidas e Uma Só Morte, Trois Vies & Une Seule Mort no original, registo que deve à arte milenar do conto no típico mecanismo de apropriação onde serve muleta de chamariz para o pé ligeiro.

Utilizando de forma ostensiva a diegese entre elas captando nas gravações o narrador, divide-se a estrutura da obra em três secções que, bem vistas as coisas, contar-se-iam melhor como duas mais duas metades de uma terceira, regurgitando compulsivamente a última elementos das restantes.

Faz-se empatia da descrição, característica subvalorizada quando a maioria das obras em cartaz se resume a sinopses visuais, e do bizarro, ficando cativo o espectador, um pouco menos, refira-se, no processo de epílogo, dos vinte anos de abandono do lar descritos ao atual companheiro da esposa, realizando-se pela mendicância um professor da Sorbonne e, por ações de um desconhecido, manietada a vida de um jovem casal perdido de amores.

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Pedro Marques dos Santos, ATP 1000 Indian Wells (Sport TV, 2017)

Pois é, a temporada de 2017 do ATP World Tour - o circuito masculino de Ténis - continua a provar ter surpresas reservadas para os seus principais torneios e isso voltou a verificar-se no deserto californiano que recebeu nestes últimos dez dias o primeiro torneio da categoria Masters 1000 da temporada, o torneio de Indian Wells, que é encarado por muitos como o "Quinto Grand Slam" devido ao seu número alargado de jogadores no quadro principal.

Com Murray, atual líder do ranking, a ser eliminado logo na sua partida de estreia no torneio por um jogador fora do Top 100 mundial - algo que aconteceu também a Djokovic no Open da Austrália e a Federer no Open do Dubai - e com um quarto do quadro que colocou em rota de colisão nomes como Zverev, Kyrgios, Nadal, Djokovic, Del Potro e Federer - ou seja, apenas um deste nomes podia chegar aos quartos de final da prova -, a prova norte-americana não desiludiu e ofereceu-nos confrontos bem interessantes que apenas pecaram pela fase precoce em que aconteceram e pelos horários tardios - em Portugal - a que se disputaram.

Djokovic voltou a demonstrar estar longe daquilo que vinha demonstrando nas últimas temporadas e, apesar de ter derrotado aquele que havia sido o último jogador a derrotá-lo neste torneio - Del Potro, em 2013 -, acabou por cair pela segunda semana consecutiva aos pés de Nick Kyrgios, o polémico, mas incrivelmente talentoso australiano de 22 anos que também o tinha derrotado no Open de Acapulco.

Para lá das desilusões provenientes dos principais favoritos, Indian Wells assistiu a mais uma batalha na longa rivalidade entre Nadal e Federer que, tal como na Austrália, voltou a sorrir ao suíço que fez uma exibição quase perfeita que não deu qualquer hipótese ao espanhol. Devido às surpresas e à já mencionada secção congestionada do quadro, Pablo Carreno Busta - finalista do Estoril Open em 2016 - e Jack Sock foram os destaques do torneio ao estrearem-se nas meias-finais de uma prova desta categoria.

Para a final, que terá lugar esta noite, fica reservado um duelo 100% suíço que colocará novamente frente-a-frente Federer e Wawrinka. O histórico é claramente favorável ao mais galardoado dos dois, mas é importante mencionar que até ao torneio de São Petersburgo, no final de 2016, Wawrinka tinha ganho todas as finais que tinha disputado na carreira. Ainda assim, tendo em conta a forma apresentada por Federer, é nele que recai a minha aposta para o vencedor da prova.