Pedro Marques dos Santos por - Jan 1, 2014

2016 é Agora! (Parte I)

A primeira temporada de Mundos Paralelos vai adaptar o primeiro livro de Philip Pullman, autor que escreveu uma trilogia e que está neste momento a preparar um novo círculo composto por mais três obras literárias. A HBO e a BBC uniram esforços para fazer justiça a um mundo rico e o primeiro episódio começa essa epopeia, deixando já delineados alguns traços que podem elevá-la a um dos épicos que marcará 2019.

Neste universo, há humanos que são acompanhados pelo seu Daemon, uma expressão falante da sua personalidade. A relação entre humano e Daemon é sagrada e só quando o humano atinge a sua adolescência é que a forma final do seu Daemon é revelada. A estreia de Mundos Paralelos mostra Lyra (Dafne Keen) a chegar a Oxford, onde frequentará o Colégio Jordan como órfã depois de os seus pais terem sido mortos num acidente com um dirigível.

Contudo é uma estreia marcada pelo que acontece doze anos depois. O tio de Lyra, o Lorde Asriel (James McAvoy), regressa depois de uma viagem feita ao norte. Como rescaldo dessa viagem, Asriel mostra as suas descobertas: apesar de ter partido para descobrir o que tinha acontecido à expedição com Grumman, o maior acontecimento reporta-se às Luzes do Norte, que revelam uma cidade no céu quando o Pó é misturado. Este Pó é ainda uma incógnita na série, contudo, é revelado que o simples acto de mencionar tais avistamentos é considerado uma heresia e Grumman pagou com a sua própria vida.

O episódio de estreia é inteligente para não cometer um erro semelhante ao filme A Bússola Dourada, que tentou fazer demasiado em pouco tempo. Ou seja, pode ser encarado como o plantar de várias sementes que darão os seus frutos ao longo do resto da temporada. Por exemplo, o Magistério que controla o mundo ainda apenas foi mencionado ligeiramente, sendo um dos grandes temas que marcarão a forma como as personagens são controladas e contraídas.

Ao fazer isto, Mundos Paralelos fez com que a minha vontade de estar presente na estreia do segundo episódio fosse ainda maior do que era antes dos primeiros minutos. Vemos um vislumbre da festa organizada quando o Daemon atinge a sua forma final, uma ocasião que é descrita como o momento em que “a criança passa a ser homem”; uma ocasião assinalada com anéis de prata oferecida pelos habitantes da vila.

É um detalhe que imediatamente nos coloca à espera que o Daemon de Lyra chegue a essa transformação. A sua presença está cá e o seu nome também – a abreviatura “Pan” de Pantalaimon repetida diversas vezes. Mesmo que tenham visto nas imagens aquilo que vai acontecer, a forma como tal será colocado no ecrã é naturalmente motivo de grande interesse. Lyra que, importa mencionar, é descrita como alguém que “tem um papel importante”, mas que “tem de fazer tudo sem saber” que o está a fazer.

Outro dos factores mais importantes do episódio é que detém um ritmo em crescente. Cedo é mencionado o Aletiómetro, só na reta final é que o objeto usado para dizer a verdade ganha protagonismo e a sua função é, aliás, explicada. E o mesmo é válido para a Sra. Coulter (Ruth Wilson), que entra em cena numa fase tardia do episódio, mas que assina juntamente com Lyra algumas das cenas mais memoráveis – incluindo os momentos finais que escancaram o caminho dos próximos episódios, mas que não vale a pena mencionar por respeito aos leitores que ainda não viram a estreia.

O que vale a pena mencionar, porém, são as dezasseis crianças desaparecidas, o que leva à menção dos Gobblers, que nesta fase embrionária ainda são mencionados por alguns como mitos e por outros já como uma ameaça. Esta gestão de informação é, novamente, um passo certeiro para que o espectador fique para o próximo episódio, até porque as buscas por Billy Costa, uma das crianças desaparecidas, estão em curso e porque o único amigo de Lyra não está a viver os melhores dias da sua vida.

Mundos Paralelos faz tudo o que pode para que qualquer espectador se sinta preparado para acompanhar esta jornada, independentemente de terem lido os livros de Pullman ou não. Mais: é um episódio que abre várias estradas e que promete momentos épicos e, literalmente, traições durante a viagem que está prestes a começar. O espectador sente claramente a retenção de informação enquanto há a tentativa de assegurar que o interesse está vivo.

Nos momentos iniciais, mesmo antes do primeiro plano, é mencionado que o Magistério é todo-poderoso e controla este mundo há séculos. Contudo, é uma introdução que vai ainda mais longe ao afirmar que esse domínio do Magistério não se aplica ao norte selvagem, “onde bruxas falam de uma profecia. Uma profecia de uma criança com um grande destino. Durante a grande inundação, a criança foi trazida para Oxford”. Não é preciso muito para se perceber que o argumento está a apregoar o quão imponente será a viagem de Lyra.

Obviamente não sei como é que o resto da temporada vai decorrer, mas sei que depois de ter visto estes minutos fica a sensação que tudo isto aliado aos enormes valores de produção da HBO e da BBC deixam a sensação que está instaurada uma base para algo marcante. Se os diversos temas, incluindo os mais sérios e pesados, tiverem direito a tempo para serem abordados, é muito provável que sejam muitos os espectadores a acompanharem a viagem de Lyra, a sua relação com a Sra. Coulter, os encontros e desencontros com o seu tio. Juntem-lhe os Daemons e as relações que têm com os seus humanos e ainda os Gobblers e têm uma receita com muitos ingredientes de elevada qualidade.

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