Quem começar a ver Ozark com Breaking Bad em mente está um passo mais perto de ficar desiludido. A culpa não é necessariamente do trabalho assinado por Vince Gilligan, mas sim pelas expectativas que são insufladas antes dos créditos rolarem no primeiro episódio. Ozark não é perfeita, longe disso, mas não merecia ser julgada apenas como um clone pobre do que Walter White fez em Albuquerque.

Com uma primeira temporada composta por dez episódios, Ozark é um exclusivo Netflix criado pelo duo Bill Dubuque e Mark Williams, até aqui conhecido por The Accountant - Acerto de Contas e O Juiz. E enquanto fui progredindo pelos episódios durante os últimos dias sente-se as parecenças como uma das várias fontes de inspiração, não como um lema; não como o lema “vamos dar aos fãs de Breaking Bad aquilo que eles têm saudades”.

Apostando os seus minutos no cânone dramático, o arranque é feito com o protagonista Marty Byrde (Jason Bateman) numa descida vertiginosa em que tudo parece correr mal suficiente para acelerar o processo de bater no fundo encostado a uma parede. Em vez de se transformar num barão da droga, Byrde tem que começar a lavar dinheiro para um, Camino “Del” Rio (Esai Morales); tem que começar a provar depressa o seu valor, que não é apenas bluff.

Imagens Artigo Ozark Netflix

A vida corriqueira de Marty Byrde decorria em Chicago, e não demora muito até que esteja tomada a decisão de mandar o quotidiano e arrastar a família toda para o Lake Of The Ozarks. O núcleo desta família é composto por mais três membros: Wendy (Laura Linney), Charlotte (Sofia Hublitz) e o seu irmão mais novo, Jonah (Skylar Gaertner).

Ozark arranca num nível tão vertiginoso que apanhará a maioria dos espectadores desprevenidos. Além do primeiro episódio terminar com a família já no lago, no episódio seguinte os restantes três membros da família já descobriram o motivo da deslocação e, por exemplo, já se conhece o adultério de Wendy. Quem dedicar alguns minutos à série já terá descoberto o que acontece ao amante da mulher e já terá começado a descobrir que, afinal, lavar dinheiro não é assim tão fácil.

Enumerei estes acontecimentos que normalmente estão reservados após os desenvolvimentos iniciais porque nos episódios seguintes sente-se a paga. Ou seja, não há fôlego para continuar estes pontapés dramáticos em quem vê, ficando claramente a ideia que os argumentistas quiseram agarrar os colarinhos do espectador e depois ficaram indecisos, sem saber o que fazer com ele.

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Nunca chegamos a patamares de marasmo completo, mas teria sido mais eficaz fazer uma distribuição pela primeira metade da temporada. Isso evitava, por exemplo, a insistência desnecessária nas tentativas de Marty em comprar estabelecimentos para ajudar na lavagem dos dólares chegados de origens duvidosas. Chega quase a parecer uma paródia em vez de se afirmar como um processo-viga-mestra da narrativa.

Por outro lado, este baralhar do ritmo permite a Ozark levantar fervura às personagens que os Byrde encontram à volta da sua nova casa que, convém mencionar, tem um hóspede que consegue conquistar a sua permanência até o seu coração falhar de vez. Estes “vizinhos” são personificados sobretudo pelo clã Langmore, um baralho de clichês assentes em pessoas que fazem planos para vigarizar sem grande visão futura - como comprova a sede com que atacam o dinheiro de Marty no início e como perdem rapidamente na batalha de massas cinzentas.

Ainda assim, os Langmore têm uma das personagens mais interessantes da temporada: Ruth (Julia Garner). A forma como vai gerindo a ambição que tem e os trejeitos que arranja para jogar dos dois lados da barricada que separa os Langmore e os Byrde mantiveram a minha atenção e proporcionaram algumas reviravoltas que não estava à espera, particularmente na recta final da primeira dezena de episódios.

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Ainda que sejam hábitos que acabam por colher alguns frutos dramáticos, um dos meus problemas com Ozark é a forma como Marty arranja problemas para ele, para a operação que está ali para realizar e para a sua família em quase todos os episódios. Compreendo que lavar dinheiro possa não ser propriamente a tarefa mais discreta do mundo, contudo o aparecimento de várias facções que atacam Marty acaba por ocasionalmente tornar Ozark numa série de fórmula, em que os problemas aparecem apenas para satisfazer o espectador com a solução. Isto resulta, sim, mas apenas se o doseamento for feito com mão segura.

Sendo o motivo da ida dos Byrde mais do que simplesmente umas férias e levando as mortes que acontecem no início, é perfeitamente normal que o FBI não esteja propriamente afastado do argumento. Novamente, a investigação policial provou estar entre o melhor e o pior da série. O pior é a forma como o ritmo da série lida com a investigação. 

Visitas esporádicas, compras “estranhas” de negócios locais que não merecem assim tanta investigação, homicídios que coincidem com a chegada da nova família que a polícia local não dá assim tanta importância. Enfim, claramente, o foco do texto está tão vincado num ponto que, para mim, não dá a devida atenção a outro pontos importantes: comportamentos estranhos (lavagem de dinheiro, cultivo de papoilas) e pessoas a desaparecer do mapa são capazes de ser mais que uma pura coincidência.

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O lado bom do arco destinado ao FBI é que coloca em cena uma das personagens genuinamente perturbadoras da temporada. Roy Petty (Jason Butler Harner) é um agente que se vai revelando ser pouco menos do que um psicopata manipulador. Novamente sem enveredar por campos minados de spoilers, o que ele faz vai muito - mas muito - além do que a sua profissão exige. A forma como manipula quem está à sua volta é perturbadora, a maneira como esmaga os sentimentos de outras personagens está numa onda completamente diferente e desnecessária do que era preciso para obter uma confissão. 

Há, portanto, algum espalhafato narrativo sem grandes raízes. Mas há também momentos de introspecção, particularmente quando Ozark se vira para dentro da família: os ecos do adultério, o desnortear que esta atividade provoca no núcleo familiar, as saudades da vida anterior em Chicago, e a pressão da ameaça constante, não só de Del e dos seus “amigos”, mas também dos “amigos” que a família vai fazendo nos Ozarks.

Os problemas que a família já trazia consigo (as personalidades, por exemplo) encontram nesta nova existência combustível para um fogo que já lá estava. A forma como o filho mais novo tem uma fixação com animais, a forma como a sua irmã combina a vida de adolescente a fazer novas amizades e o facto dos pais não serem as pessoas mais honestas do mundo, o processo da mulher encontrar um trabalho, tudo isto acaba por mostrar o lado humano e mais interessante da família.

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É nestes momentos, mais do que olhos em frascos, que a criação de Dubuque conquista mais pontos. Juntamente com Petty, há também que dedicar algumas linhas à família Snell, mais concretamente a Jacob Snell (uma excelente performance de Peter Mullan). Ou seja, há vários vilões por estes lados, a diferença é que um veio com Marty de Chicago e os restantes foram feitos no local que deveria ser calmo, idílico para passar o mais despercebido possível.

Voltando ao parágrafo inicial, torna-se evidente que são propostas de entretenimento díspares. Não basta abordarem a temática da droga para serem parentes afastados. Se me dessem a escolher uma, sem grande surpresa optaria por Breaking Bad. Contudo, não se esqueçam que a sua primeira temporada não está ao nível da genialidade da segunda metade. 

Não sei se Ozark tiver cinco temporadas - as mesmas que Breaking Bad -, chegará lá, contudo, sei que enquanto vi a sua estreia lembrei-me mais de Bloodline (Chris Mundy, showrunner de Ozark escreveu alguns episódios de Bloodline) do que de Breaking Bad. Partindo do princípio que haverá uma segunda dose de episódios de Ozark, a grande questão é o argumento focar-se mais em vez de continuar a tentar manter demasiadas bolas no ar.

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Bateman, Linney e tantos outros atores merecem que haja uma segunda temporada, pois as suas prestações são sólidas, tal como é a cinematografia consistentemente ao longo dos episódios, com o próprio Bateman a sentar-se na cadeira de realizador algumas vezes. Os fãs de Breaking Bad podem ver Ozark, claro, mas não pensem que vão encontrar aqui um spin-off. Para isso já há Better Call Saul.

Para terminar, mesmo que não sejam fãs de Breaking Bad, Ozark é ainda assim uma proposta que faz bem o suficiente para esmorecer o mal. Depois do encantamento inicial, mesmo com o foco dissipado, invistam além do miolo mais desenxabido, cheguem ao episódio que se desenrola no passado e deixem-se ficar para o final - que podia ser um filme com quase oitenta minutos.