por - Jan 27, 2015

A Importância dos Videojogos na Sociedade – Parte 0: Introdução

Cloverfield, o filme que estreou em 2008, apanhou-me de surpresa. Sem saber muito bem o que esperar, é um daqueles raros casos em que a história é alicerçada pela forma como é contada – recorrendo a cassetes de vídeo e a planos que parecem saídos de uma máquina de filmar comum. A “sequela”, 10 Cloverfield Lane (2016), foi para mim ainda melhor. Despojado de grandes artifícios, tem no final uma explosão de surpresa que justifica tudo o que ficou para trás.

Ontem, ou melhor, ao início desta madrugada, podem imaginar o choque que foi descobrir que a Netflix, além de anunciar que o terceiro filme da saga não só ia estar disponível no seu catálogo de streaming, mas que tal iria acontecer nas horas seguintes. E esta manhã lá estava. Sem informação prévia, sem um trailer que divulga-se a trama, nada, apenas a minha curiosidade alimentada pelos dois filmes que já tinha visto.

O Paradoxo Cloverfield tem lugar em dois pontos distintos: a Terra e uma Estação Espacial. Há uma crise de energia que coloca na linha da frente a guerra. Determinados a sanar esta situação, os cientistas estão a tentar alcançar uma fonte de energia ilimitada com um acelerador de partículas, conhecido como Shepard Accelerator. Podia escrever que tal solução é alcançada e que vivem felizes para sempre, contudo, sendo um filme Cloverfield, obviamente que não tal não acontece.

Depois de várias tentativas falhadas, há finalmente um avanço científico, que não faz menos do que lançar o caos na Estação, com a obra finalmente a arrancar. Os espectadores não demoram muito a perceber os elos emocionais que ligam o que se passa no Espaço e o que decorre na superfície terrestre. Por exemplo, Ava deixou para trás o marido – que aparece via ligações digitais. As suas duas filhas, infelizmente, sucumbiram a uma tragédia diretamente ligada aos mantimentos para enfrentar a crise energética.

Não estragar a surpresa do desenvolvimento narrativo é como caminhar em cima de cascas de ovos. Posso escrever apenas que envolve a temática das dimensões e uma escolha que faz lembrar as obras da Telltale. O argumento de Oren Uziel não é o ponto mais fraco da obra, com o problema a ser o que fica por aproveitar, a sensação que deixa de poder ter sido muito mais eficaz.

A questão emocional entre os tripulantes da Estação e as vidas que deixaram na Terra nunca é fulminante, com O Paradoxo Cloverfield a apresentar esse gancho de forma um pouco atabalhoada e, consequentemente, menos eficaz. Além disso, ainda que não seja um filme longo (1h42m), há partes fraccionadas, trechos que deveriam fazer um todo, mas que não têm “cola” onde é necessário.

Imagens Critica O Paradoxo Cloverfield

Parte disto está entre os vários membros da tripulação. Como nunca chegam a ter tempo para ter profundidade, quando morrem os espectadores não sentem grande abalo. Em todos os filmes Cloverfield, senti que todo o enquadramento servia o grande final. Aqui sente-se isso, mas o enquadramento deixa a desejar e o final é pouco mais do que uma ligação ao universo da saga, parecendo demasiada forçada.

A premissa – pelo curto trailer mostrado ontem – era explicar o que levou ao aparecimento das criaturas no filme original. Bem, é dada a conhecer a teoria, sim, mas de uma forma tão ligeira que quase parece que podíamos ter assistido a um filme fora da saga. O final – literalmente os últimos dez segundos – são tão inesperados e tão aleatórios que ainda estou dividido entre o sentimento dramático e simplesmente o non sense cómico.

Ainda assim, mesmo que falhe também na hora de mostrar tensão e até terror, O Paradoxo Cloverfield não é o desastre completo. Isto porque ocasionalmente veem-se vislumbres de boa ficção científica, ou melhor, ficção científica com algo a dizer, com escolhas difíceis que vão levando o espectador a ficar para ver como o filme as responderá. Infelizmente, sabe-se agora que não tão bem como se esperaria.

Onde não desilude é no elenco. Ava é o destaque e é interpretada por Gugu Mbatha-Raw, sim, a atriz que nos encantou a todos em San Junipero, um dos episódios mais badalados de Black Mirror. Mas há também nomes consagrados como David Oyelowo (Kiel) e brilhante em Selma, Chris O’Dowd (Mundy) – o escape cómico do filme que nem sempre resulta, mas que tem algumas piadas minimamente eficazes graças ao seu braço, Elizabeth Debicki, que esteve em destaque no seu papel em Night Manager, Daniel Brühl, ator que apareceu no meu radar aquando da sua participação em Rush, onde interpreta Niki Lauda.

E ao leme temos Julius Onah, realizador que não consegue ombrear com Matt Reeves (Cloverfield) – que acabou por assinar dois Planetas dos Macacos – e com Dan Trachtenberg (10 Cloverfield Lane) – que depois realizou um episódio de Black Mirror – Playtest, o episódio que nos mostra os perigos da Realidade Virtual. 

Alguns planos são interessantes, alguns são simplesmente panorâmicas genéricas de mais uma “nave” espacial. É certo que os espectadores e sobretudo o elenco merecia mais. Mesmo 10 Cloverfield Lane, que importa não esquecer decorre praticamente apenas dentro de um bunker, consegue ter mais ideias. Assim, por tudo isto, O Paradoxo Cloverfield acaba por ser o pior da saga até aqui.

Imagens Critica O Paradoxo Cloverfield

Sejamos francos, os fãs de Cloverfield já sabiam que iam ver esta nova obra desde o momento em que ainda era conhecido como God Particle e provavelmente já o fizeram ou já o têm na lista. Talvez tenha sido esta a grande jogada da Netflix – apostar nesse núcleo. Resultou comigo. É um excelente filme? Não, não é, acabando traído por raramente assentar os pés na terra e nos dar contexto, nos dar as estacas da emoção. O argumento perde com isso e as prestações de um elenco de luxo sofrem por não terem mais matéria-prima.

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