Filipe Urriça por - Nov 15, 2021

Pikmin Bloom não deveria ser idêntico a Pokémon GO

A título de curiosidade, foneticamente, a palavra Pikmin é bastante parecida com Pokémon. Há uma troca de duas vogais e a supressão de uma outra. Estes nomes são de duas séries com conceitos muito diferentes, enquanto que associamos Pokémon a RPG, reconhecemos os jogos Pikmin como títulos de Estratégia em Tempo Real. Duvido muito que Shigeru Miyamoto se tenha inspirado no jogo de colecionar criaturas para batizar a sua obra de estratégia com pequenos seres vivos coloridos. No entanto, já acredito que a Niantic tenha observado atentamente o design doc do seu grande êxito, Pokémon GO, para adaptá-lo em Pikmin para o poder transformar no jogo que saiu recentemente para iOS e Android: Pikmin Bloom.

Fiquei muito curioso em conhecer a proposta da Nintendo, porque se Pikmin Bloom tiver metade do sucesso de Pokémon GO é um feito incrível. O sucesso de Pikmin Bloom seria bom para os jogadores, para poder haver lançamentos de novas obras Pikmin com mais frequência, sem estarmos sempre a desejar que sejam lançadas, como sempre, títulos de heróis como Mario ou Link. Depois, seria bom para a própria Nintendo que, além dos lucros, poderia revitalizar o seu catálogo com jogos de Estratégia em Tempo Real, um género com pouco sucesso em consolas e, curiosamente, com grandes obras publicadas no PC.

Após ter jogado até ao nível dezasseis, não acho que Pikmin Bloom conseguirá fazer o que Pokémon GO fez para a marca Pokémon. Pikmin não terá um novo vigor com Bloom, porque faltam-lhe as mecânicas nucleares da série. A Niantic quis replicar em Pikmin Bloom o que fez em Pokémon GO, mas sem os elementos característicos de Pikmin será difícil fazer com que tenha o mesmo êxito se não mantém  sua integridade como propriedade intelectual.

Os europeus tiveram de esperar mais alguns dias para poderem instalar Pikmin Bloom. Não é algo que me incomode particularmente muito, até porque o jogo da Niantic não foi amplamente discutido nas redes sociais. Por outro lado, se ninguém está a falar do jogo, no Twitter ou no Facebook, é porque não deve haver interesse no jogo por parte dos jogadores – pior do que um jogo ser mau, é ter uma audiência indiferente à sua existência. Também é verdade que a própria forma de jogar Pikmin Bloom não nos motiva a partilhar a experiência que entrega.

Pikmin Bloom é um jogo muito mais passivo do que Pokémon GO, porque as mecânicas do jogo dependem muito do número de passos que nós damos ao longo do dia. Por isso, quando instalei Pikmin Bloom no meu Huawei P Smart (2017), também tive de instalar Google Fit para registar a contagem dos meus passos quando não estou com Bloom ligado. Embora Pikmin Bloom nos diga diretamente que temos de andar para jogar, há algumas mecânicas para nos colocar a jogar e brincar com alguns sistemas de jogabilidade.

Com uma user interface muito similar a Pokémon GO, o jogo da Niantic convida-nos a passear ou fazer caminhadas com criaturas Pikmin junto de nós. Estas criaturas têm uma certa autonomia e respondem prontamente ao som estridente do nosso apito, quase como se fossem soldados a bater continência ao seu capitão. Os Pikmin, normalmente, recolhem pequenas ou grandes peças de fruta, quanto maior o tamanho do fruto, maior a quantidade de néctar que se pode retirar para alimentar as nossas criaturas coloridas. Além de frutos, os Pikmin também apanham plântulas que, na prática, são Pikmin prestes a nascer num pequeno vaso. Para nascerem, o jogador só tem dar a quantidade de passos assinalada e depois puxar o Pikmin pela sua folha.

Uma boa caminhada faz bem à saúde, principalmente se for com alguma regularidade semanal. Aliar saúde à diversão é meio caminho andado para manter uma pessoa motivada a continuar o hábito de fazer exercício físico. A definição de “diversão” está bem explicada no dicionário, contudo as atividades que se podem definir como divertidas é algo muito subjetivo, depende de indivíduo para indivíduo. Pikmin Bloom pode ser considerado de divertido, mas como está ligado ao nosso exercitar de pernas, é possível que muitas pessoas não venham a gostar desta experiência. Pokémon GO funciona essencialmente da mesma forma que Pikmin Bloom, mas disfarça a exigência de termos de fazer exercício físico com elementos basilares da série Pokémon: podemos combater outras criaturas Pokémon (mesmo que seja de maneira indireta) e é-nos permitido colecioná-los – quem quiser até pode transferi-los para o serviço que acumula as centenas de Pokémon existentes.

Em Pikmin Bloom, não temos de ter os Pikmin connosco só para servirem de objetos decorativos. Para jogar temos de ter um perfil de jogador e, à medida que cumprimos os objetivos que nos são propostos, subimos de nível. Um dos objetivos está relacionado com o jogo em si, ou seja têm de plantar flores pelo caminho, fazer crescer plântulas com os nossos passos ou alimentar os nossos Pikmin. Conforme se vai jogando, aumentam também os nossos recordes, assim quando atingimos certos patamares como, por exemplo, dar dez mil passos num dia, somos recompensados com medalhas que são exibidas no nosso perfil – ou seja, isto funciona, quase, como as conquistas da Xbox ou os troféus da PlayStation.

O problema é que Bloom deveria ser mais Pikmin do que Pokémon. É verdade que a Niantic foi buscar inspiração ao seu jogo Ingress para criar Pokémon GO, os pilares das mecânicas estão todos lá. Porém, Pokémon GO conseguiu ser um jogo com a sua própria identidade e ter mérito, por ser original e manter o que nos permite identificar o jogo da Niantic ser um jogo Pokémon. Já em Pikmin Bloom, há muito pouco daquilo que caracteriza a série da casa de Quioto e nos permite identificá-lo facilmente.

Os Pikmin não servem só para buscar fruta, também combatem monstros e suplantar obstáculos para atravessar determinados locais, por caminhos que estavam intransponíveis. Podem, por exemplo pegar em diversas peças de um objeto partido e consertá-lo como se nunca tivesse sofrido um único arranhão. O capitão Olimar, assim como todos os outros que podemos controlar nas diversas obras da série para consolas Nintendo, podia atirar criaturas Pikmin para cima de monstros para os aniquilar. E eram os corpos sucumbidos destas criaturas malvadas, que comem Pikmin durante a noite, que criavam outros Pikmin com uma máquina que estava perto da nossa nave. Enfim, são todos estes detalhes que não existem em Pikmin Bloom, o que faz com que em Bloom perca a sua identidade original ou possa ser moldada em próximos projetos.

Pessoalmente, não desgosto de Pikmin Bloom, até é provável que o vá jogar bem mais do que Pokémon GO. Dado que Bloom é um jogo muito mais passivo do que Pokémon GO, já não sou forçado a gastar o meu plafond limitado de dados de Internet 4G. Apesar da Niantic ter colocado características mais associadas à franquia Pokémon do que a Pikmin, aqui a experiência é muito mais relaxada e não nos sentimos obrigados a gastar dinheiro em microtransações para podermos evoluir para o próximo nível.

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