O PlayStation Now não é uma novidade no mundo dos videojogos, mas é algo novo para os fãs portugueses da marca nipónica. A proposta é simples: mediante o pagamento de uma mensalidade, o jogador tem acesso a mais de seiscentas obras pertencentes aos catálogos PlayStation 2, PlayStation 3 e PlayStation 4. Durante as últimas semanas, a minha vida de jogador passou pela ligação a estes servidores.

A primeira impressão quando cheguei ao catálogo do PlayStation Now não foi muito diferente do que senti quando iniciei sessão pela primeira vez na Netflix ou na HBO Portugal. São horas entregues à descoberta, passando em revista jogos atrás de jogos entre perguntas como “será que isto está disponível?” ou desilusões nos moldes do tradicional “como é possível este jogo não estar disponível”.

É uma poeira que demora algum tempo a assentar, mas quando tal acontece chega a vontade de finalmente começar a jogar por entre a imensidão avassaladora que é ter centenas de títulos, muitos dos quais despertadores de memórias, à distância do pressionar de um botão. Claro que nem todos os jogos incluídos são bons, transparecendo a sensação que estão ali mais para fazer número do que propriamente como seleção de uma curadoria que procurou apenas os melhores dos melhores.

Contudo, é um catálogo que, verdade seja dita, inclui também alguns clássicos da era moderna dos videojogos que é um prazer jogar novamente e que certamente serão um regozijo para os jogadores que estão prestes a descobri-los pela primeira vez. E não estamos a falar de uma proposta estanque, pois como certamente saberão há títulos a serem adicionados mensalmente para evitar a estagnação da montra e para tentar a fidelização do jogador pagante.

Mas vamos por partes que o PlayStation Now está neste momento disponível em dois dispositivos distintos, a PlayStation 4 e o PC. Na consola da Sony é possível jogar qualquer obra através do streaming, mas é também instalar no disco local da máquina os jogos PlayStation 2 e ainda PlayStation 4, o que significa por exclusão de partes que os videojogos PlayStation 3 terão que ser obrigatoriamente explorados com a consola ligada à Internet.

Quem está a pensar fazer o download dos jogos antes de começar a experimentação, obviamente que a grande contrapartida é o espaço que ocupam em disco, especialmente se tiverem uma consola equipada com um disco de “apenas” 500GB. Por outro lado, este método garante que jogam as obras com som 5.1 Surround e com a respetiva resolução original, que como se sabe na PlayStation 4 Pro pode chegar a 4K. É assim a forma mais próxima de terem comprado o jogo na PlayStation Store.

No PC, o PlayStation Now está disponível mediante o download de uma aplicação tradicional e do uso de um comando. Os testes que conduzi foram realizados com um DualShock 4 e com o adaptador sem fios oficial, não tendo sentido qualquer latência no registo de movimentos - o que transpareceu a estranha e fascinante sensação de ter uma PlayStation ligada ao portátil, algo que se tornou ainda mais bizarro quando os Troféus foram desbloqueados no ecrã do portátil.

O progresso que fizerem em qualquer uma das plataformas é emparelhado graças à sincronização através da nuvem. Durante estes vários dias de testes foi também possível constatar que não podem correr o PlayStation Now no PC e na PlayStation 4 em simultâneo. Outro ponto que fica como aviso é que, dado o seu músculo online, se ficarem inativos durante algum tempo são avisados que a vossa sessão no jogo será encerrada.

Uma vez que os jogos não estão a ser executados localmente no vosso PC, mais do que o poder computacional, independentemente de ser um título mais ou menos exigente, a necessidade maior é uma ligação estável à Internet. Oficialmente, a Sony recomenda uma velocidade de pelo menos 5 Mbps num PC com 2GB de RAM e equipado com pelo menos um Intel Core i3 ou um AMD A10. Como podem facilmente notar, requisitos bastante modestos para 2019. Ainda assim, os meus testes foram conduzidos num portátil equipado com um  Intel Core i7, 16GB de RAM e uma ligação de 1 Gbps.

Com esta configuração, o serviço da Sony apresentou uma infraestrutura sólida, ainda que com algumas reticências. Quando os jogos estão instalados localmente não há nada a escrever, uma vez que funcionam como uma compra feita na PlayStation Store e o fluxo de dados está dependendente do poder da PlayStation 4 que estão a usar. Contudo, no que aos jogos experimentados através do streaming, sente-se que há algum tempo dedicado à preparação do jogo e que pode chegar a quase um minuto mais o carregamento feito dentro da própria obra.

Outro ponto técnico que merece ser relatado é que Mafia II, obra PlayStation 3 a correr em streaming no PC, encravou e obrigou-me a reiniciar a aplicação e, consequentemente, perdendo o progresso feito durante os últimos minutos. Nada disto é suficientemente para ser uma nódoa no serviço, mas são também detalhes que lembram que estamos perante uma tecnologia que neste método necessita de estar em constante comunicação com o exterior do ambiente onde a obra está a ser jogada.

Continuando a relatar o processo de acesso aos videojogos que estão incluídos no catálogo, além do tempo de espera já mencionado, ocasionalmente podem ficar numa lista de espera, algo que me aconteceu várias vezes. As palavras oficiais da Sony são que “ao jogar um título no PlayStation Now, está a ocupar um lugar disponível num dos servidores. Se houver muitos jogadores a entrar ao mesmo tempo, o espaço livre nesses servidores pode esgotar-se rapidamente”. Este tempo de espera não é específico de certos jogos, ou seja, na prática não é algo que afete apenas as obras mais populares do momento.

A empresa nipónica afirma ainda que é algo que ocorre “apenas nas horas de pico” e que essa mesma espera normalmente não dura mais do que alguns minutos. Novamente segundo a minha experiência com o serviço, posso atestar que realmente a espera nunca foi superior a mais do que dois ou três minutos. De sublinhar que esta condicionante afeta apenas os jogos que estão a ser experimentados via streaming, não existindo qualquer espera quando estão a arrancar um videojogo instalado no disco.

Deixados para trás estes passos e estas situações iniciais, durante as minhas sessões com os jogos passaram-se horas em que a jogabilidade decorreu de forma ininterrupta, o que levou o meu cérebro a focar-se no conteúdo que estava a experimentar e não na arquitectura tecnológica que o estava a permitir. Se ocorrerem problemas que levem a ligação a ficar intermitente, o serviço mostra uma indicação que incentivará os jogadores a gravarem o progresso feito assim que tiverem oportunidade, evitando dissabores com a repetição de secções que já tinham sido conquistadas.

No que ao design diz respeito, a aplicação PlayStation Now é de fácil de compreensão e memorização. No topo da versão para a consola há quatro secções ao dispôr: “Início”, “Os Seus Jogos”, “Todos os Jogos” e ainda “Pesquisa”. O Início e a Pesquisa dispensam explicações, com a aba “Todos os Jogos” a deixar que o jogador aplique filtros por género, classificação PEGI (ou seja, de idade) e se querem que os jogos sejam ordenados de A a Z ou pela ordem inversa. Do quarteto de secções, a mais interessante é assim a que dá pelo nome de “Os Seus Jogos” e que se vai moldando consoante o tempo que vamos dedicando ao serviço.

Depois de lhe acederem, a secção permite consultar as obras que reproduziram recentemente, assim como aqueles que adicionaram à vossa lista e ainda o histórico de transferências efectuadas para o disco da PlayStation 4. Esta última torna-se particularmente útil, pois além da data de transferência é também também mostrado o tamanho de cada download e se está ou não instalado na consola no momento da consulta. Quando se deslocarem à página inicial do PlayStation Now terão acesso a consultar vários agrupamentos de jogos, como aqueles que chegaram recentemente ao serviço, os exclusivos PlayStation e os clássicos da PlayStation 2, por exemplo. Finalmente há também a agrupação de obras dedicadas à família, que foram aclamadas pela crítica especializada e, sem grande surpresa, seguindo uma agrupação por géneros.

Torna-se assim evidente que a pedra basilar da proposta é a infraestrutura técnica e sabe-se agora que funciona. A camada edificada sobre essa base, entenda-se os videojogos que estão incluídos, conta no momento em que este texto é escrito com alguns destaques e outras omissões. Entre os títulos que os fãs devem experimentar estão, por exemplo o incontornável The Last of Us juntamente com o DLC Left Behind, assim como Bloodborne, Until dawn, e a trilogia de obras desenvolvida pela Quantic Dream que até recentemente eram um exclusivo PlayStation, nomeadamente, Beyond: Duas Almas, Heavy Rain e Detroit: Become Human.

A principal qualidade do catálogo é a homogeneidade de géneros que inclui, não se fixando apenas em dois ou três diferentes. Desde obras independentes como Abzû, outras que recentemente têm andado afastadas dos holofotes, como Primal, Forbidden Siren, Rogue Galaxy, Dark Chronicle e Dark Cloud, até blockbusters como BioShock, seis títulos da série God of War, Fallout 3 e Fallout New Vegas, uma panóplia de propostas F1 desenvolvidas pela Codemasters e a vários jogos Batman Arkham.

No estado em que está, o PlayStation Now consegue justificar a visita, seja graças a boas obras que consomem dezenas e dezenas de horas ou em títulos arcada. Há vários Killzone - incluindo Shadow Fall - se quiserem descobrir a série de Atiradores na Primeira Pessoa que deu nome à Guerrilla Games antes de Horizon. Porém, o catálogo conta com inúmeras obras LEGO, que vão desde Indiana Jones a Star Wars e Piratas das Caraíbas, sendo facilmente apostas sólidas se nunca as tiverem experimentado e se quiserem passar alguns serões em família.

Ainda assim e apesar dos inúmeros títulos que estejam incluídos, não deixa de ser algo estranho que obras como Uncharted 4 não tenham encontrado o caminho para o leque de ofertas. É uma pena que não existam ainda mais obras desenvolvidas com a intervenção da Sony: InFamous está incluído, por exemplo, mas apenas sob a forma dos dois primeiros jogos e do DLC Festival of Blood. inFamous: Second Son, obra que está no mercado desde 2014 não pode ser experimentada. Compreendo que por muitos jogos que estivessem incluídos haveria sempre fãs descontentes com alguma omissão, mas estes exemplos ilustram ausências que impedem os fãs de compreender ainda melhor a marca PlayStation.

Por outro lado, os jogadores que passaram ao lado da PlayStation 2 e da PlayStation 3 podem agora ter nas mãos clássicos modernos como Ico e Shadow of the Colossus, o que faz ficar apenas a faltar o grandioso The Last Guardian para a tareia emocional dada por Fumito Ueda ficar concluída. Outra das propostas incontornáveis é Red Dead Redemption, o western que recentemente voltou a estar nas bocas do mundo graças ao lançamento da muito aguardada sequela praticamente oito anos depois - e aproveitem-no, pois as obras com o carimbo da Rockstar Games não abundam no PlayStation Now.  

Mais dois exemplos de obras que são também sorvedouros de horas: experimentem Yakuza 4 e Yakuza 5. Além de uma viagem memorável pelo oriente, são propostas que merecem ser exploradas e absorvidas com a lentidão de quem está embalado por uma excelente atmosfera. Todos estes exemplos - e os restantes jogos que merecem ser experimentados - estarão sempre dependentes da vossa ligação ao mundo PlayStation, pelo que os jogadores que dedicaram a sua infância e adolescência às máquinas da SEGA e da Nintendo retirarão ainda mais partido da proposta contemporânea da Sony.

O PlayStation Now chega a um mercado em que já existe o Xbox Game Pass, apesar de os moldes dos dois serviços não serem exatamente iguais. Na proposta da Microsoft não há tantos jogos disponíveis, com a empresa a mencionar apenas mais de uma centena de obras disponíveis. Contudo, fica evidente que há o esforço em adicionar ao serviço obras publicadas há menos tempo, ou seja, mais próximos do seu pico de relevância.

Como provavelmente saberão, há também o compromisso de levar até ao Xbox Game Pass todos os exclusivos Windows 10/Xbox One no dia em que são publicados. Na prática, isto resulta em que os subscritores tenham oportunidade de jogar desde o primeiro dia títulos como Sea of Thieves, Crackdown 3 (que nunca chegou verdadeiramente a convencer) e a obra-prima Forza Horizon 4. Espera-se os futuros exclusivos tenham o mesmo destino, o que abrangerá os próximos capítulos de séries como Gears e Halo.

Além dos exclusivos, nos últimos tempos foram adicionadas obras ainda frescas na memória dos jogadores, como Just Cause 4, Shadow of the Tomb Raider, Life is Strange, The Walking Dead, Strange Brigade, Hellblade. Ou seja, em termos práticos a oferta não tem tanta quantidade, mas há mais obras ainda inseridas no seu momento. Além disso, não há opção de fazer streaming, pelo que fazer o download de 10, 15 ou 30GB de cada vez tem o seu peso, especialmente se, tal como no caso da PlayStation 4, tiverem uma Xbox One com um disco de 500GB.

Sobre o streaming, espera-se que a casa de Redmond detalhe o seu Project xCloud na próxima E3, exposição em que a empresa já disse que vai estar em grande. Outro dos jogadores principais neste departamento é a Google, que recentemente revelou o seu Stadia e que como se saberá terá no streaming a sua base. Julgo que ainda é cedo para determinar se este será ou não o futuro dos videojogos, mas tenho a certeza que ignorar estes desenvolvimentos ou classificá-los apenas como uma tendência seria certamente viver apenas no passado e estar armado em Velho do Restelo.

Foram vários que decretaram um ferimento de morte nas costas da Sony e da Microsoft com a chegada do Google Stadia. Mesmo que o novo projeto seja um sucesso, importa não destacar que as duas empresas e obviamente a Nintendo não estão nesta indústria há meia dúzia de anos e poderão sempre adaptar-se à nova realidade suportada pelas preferèncias dos jogadores. No fundo, é um negócio e as infraestruturas podem ser ajustadas. Mesmo a Nintendo não é estranha ao streaming, pois convém não esquecer que há vários títulos Switch lançados no Japão seguindo esta prática.

Mais do que um ataque entre empresas, todos estes desenvolvimentos ameaçam mais as lojas que vendem videojogos em formato físico. Olhem para o streaming e para estas subscrições e facilmente encontrarão um denominador comum: o deixar para trás o jogo em formato físico. É óbvio que a indústria pode albergar várias marcas que façam o comércio das suas obras em formato digital, mas se o futuro for realmente digital em vários moldes de consumo é o espaço físico que deixa de fazer sentido para as massas.

Para terminar, uma mensalidade do PlayStation Now custa 14,99€, valor que sobre para 99,99€ se optarem por adquirir uma anuidade. Antes de investirem os vossos Euros podem experimentar o serviço gratuitamente durante sete dias. No lado da Microsoft, o Xbox Games Pass está disponível por 9,99€ mensais em Portugal, com os jogadores que nunca tiveram uma subscrição ativa a terem direito ao primeiro mês por 1€. E no lado oposto a todos estes avanços em GB estão casas como a Limited Run, que não só apostam no videojogo como objeto, como lhe dá uma aura e um estatuto que faz as suas tiragens esgotarem habitualmente em minutos.

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