Talvez não se tenham apercebido, mas o que é certo é que ao longo do último fim de semana, algures num pavilhão de sete mil metros quadrados na cidade de Vila Nova Gaia, os melhores jogadores competitivos de videojogos de Portugal e arredores juntaram-se para estrear o Meet uP como uma nova marca de referência na organização de eventos deste tipo no nosso país.

Com diversos qualificadores internacionais em jogos como Counter Strike: Global Offensive ou HearthStone: Heroes of Warcraft, este evento organizado por uma das organizações de e-sports com maior tradição em território nacional tem vindo a dar que falar no seio das diversas comunidades competitivas. No rescaldo do evento, que decorreu entre os dias 3 e 5 de outubro, aproveitámos para falar com Raul Ralha, representante da organização.

Numa altura em que os maiores eventos do género a nível nacional estão a atravessar um período de reestruturação, o timing de avanço do Meet uP parece ter sido escolhido a dedo. Ao contrário do que aparenta, porém, como poderão ler já de seguida, este acontecimento estava guardado na manga há vários anos. "Nós fazemos parte da comunidade portuguesa e como tal sentimos, antes de mais, uma grande necessidade de mais e diferentes eventos em Portugal", começa por dizer Raul. "A verdade é que quase que houve um apelo para que os uP lançassem a sua primeira Lanparty. A título de curiosidade, em 2006 já tínhamos estado a preparar um evento do género que optámos por não levar para a frente."

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A experiência que uma organização como esta tem adquirido ao longo dos últimos anos é considerável, e mesmo tendo em conta o atual panorama da indústria nacional, a modéstia de objetivos a alcançar mantém-se presente no discurso do representante dos uP. "Em 12 anos, pudemos partilhar momentos nacionais e internacionais com ideias tão diferentes e mesmo assim tão ricas. A envergadura deste e dos próximos eventos dos uP não terá necessariamente uma meta", confessa Raul.

"A forma como estamos no gaming é transversal no projecto que construímos e nos eventos que pensamos. Exactamente há um ano, estávamos a preparar mais uma ida a Birmingham para estarmos presentes no Insomnia [Games Festival], ainda em 2013 passámos pela XL [Party] da FIL, não deixámos de participar na estreia da Tweek Lan Party, pelo segundo ano consecutivo estivemos na OCP e ainda antes de Agosto fomos novamente à DreamHack em Valência... acho que é um bom exemplo de como vemos e aproveitamos aquilo que consideramos oportunidades (mesmo quando não correm tão bem como gostaríamos)."

Face a toda esta demonstração de conhecimento e experiência na indústria, impunha-se uma pergunta. Afinal, como é que um grupo de amigos de jogo semelhante a tantos outros atinge este tipo de envergadura? Raul tem a resposta na ponta da língua: "Alicerces e persistência. Alicerces, porque vivemos numa época em que tudo parece ter que ser feito a correr, todos somos levados a querer saltar etapas e a querer começar as coisas pelo telhado, dá-se excessivo valor ao resultado e nem se saboreia o processo, começa por afirmar. "Persistência, pois como em muita coisa na vida, as adversidades andam lado a lado com as conquistas e o projecto dos uP tentou sempre crescer com os erros e os deslizes. A maior prova não está tanto na dimensão que atingimos mas na longevidade que alimentamos, quando tantos outros projectos chegam a acabar."

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Um evento com aspirações ao nível daquelas que esta organização tentou estipular exige um elevado grau de ponderação e grande responsabilidade nas tomadas de decisões. Normalmente, torna-se impossível agradar a gregos e a troianos, citação que se torna principalmente adequada na hora de escolher os jogos que figuram no cartaz principal.

O nosso entrevistado adianta sem meias medidas que "o critério foi muito claro e rigoroso com o compromisso anunciado: sem as comunidades não se fazem bons torneios." Toda a gestão não foi feita de ânimo leve: entre a ordem de trabalhos, os elementos dos quadros superiores dos uP estiveram envolvidos no lançamento de pré-registos e reuniões com algumas comunidades, numa espécie de tentativa de sondar aquilo que o público queria.

No processo, esteve sempre presente o espírito de quem se esforça para mostrar "que não lidamos com os jogos como se houvesse uns de primeira e outros de segunda, algo que contribuiu para uma confiança e compromisso por parte de praticamente todas as comunidades em que optámos por lançar torneios", uma abordagem que também se verificou na medida em que a organização garante "não ter trabalhado contra ninguém e mostrado que tem que ser possível uma maior colaboração e respeito entre equipas, convidando outras tantas a estarem connosco na construção do Meet uP".

Partindo para assuntos mais polémicos que costumam ser responsáveis pela divisão de comunidades, a pergunta seguinte relacionou-se com a curiosidade sobre o processo utilizado na escolha de Vila Nova de Gaia como palco do Meet uP, já que a maior adesão a eventos deste tipo costuma estar relacionada o posicionamento estratégico na capital. "Independentemente de números e da adesão dos últimos torneios, a verdade é que o norte do país também tem tido uma maior tradição na mobilização em alguns dos jogos. A nossa aposta na data e no local não nos pareceu assim tão relevante, já que apostámos muito significativamente na vertente mais competitiva dos e-sports; demos a possibilidade da viagem a outros países em 5 jogos do cartaz."

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Para terminar, resolvemos ir diretos ao elefante da sala e perguntar sem grandes rodeios se a relação com organizações como a XL Party e, mais recentemente, a Lisboa Games Week, podia ser classificada como competitiva ou cooperativa. A analogia utilizada por Raul não deixa margem para grandes dúvidas: "O termo competição é profundamente desadequado neste contexto, na minha opinião. Nós, não tendo sido um pai ou uma mãe da XL Party, fomos sem dúvida um tio muito próximo na forma como ajudámos e contribuímos para o crescimento da mesma" - começa por explicar.

"Por outro lado, a relação familiar não se fica por aqui, pois quase que somos também como um sobrinho pela forma como pudemos crescer com eles. Acho que se no futuro assumirmos uma proximidade de primos será uma boa forma de se estar." - adianta, concluindo dizendo que "de qualquer forma, considerando a Lisboa Games Week, não concordo que haja sequer qualquer tipo de disputa quando se tratam de dois modelos bastante diferentes: basta ver a importância que a Lanparty continua a ter para nós."

O Meet uP tinha como previsão inicial juntar 400 participantes na zona dedicada à já referida Lanparty, à qual se juntam mais uma centena de jogadores na componente de consolas do recinto. Resta saber de que forma a realidade se aproximou destas expectativas, dados a que vamos tentar ter acesso ao longo dos próximos dias. Se estiverem interessados em conhecer um pouco melhor o panorama competitivo da indústria dos videojogos, podem ler a nossa entrevista com um dos melhores jogadores portugueses de Call of Duty e também o nosso artigo sobre os benefícios dos e-sports.