Pedro Martins por - Dec 20, 2018

Saudades do futuro cyberpunk? 2084 é um regresso ao mundo de Observer

A história de 2084 é particularmente interessante. O jogo começou a sua vida numa game jam de 72 horas organizada pela Feardemic. Entre os presentes estavam alguns membros da Bloober Team, produtora responsável pelos títulos Layers of Fear e Observer, e agora a obra deixou essa sessão de criação e está disponível em formato Early Access no Steam.

Tive oportunidade de experimentar 2084 ao longo destes últimos dias, tentando perceber se os pilares inaugurais tinham solidez suficiente para aquilo que o jogo poderá vir a ser com o passar dos próximos meses. Sim, a verdade é que já há alguma solidez, mas com alguns pontos que devem ser claramente retificados para que a experiência final seja melhor conseguida.

Se leram a minha análise a Observer terão certamente reparado que a aventura cyberpunk da Bloober Team decorre no ano 2084, título deste novo jogo. Ou seja, é um regresso a esse mundo, que agora se presta a ser palco de um Atirador na Primeira Pessoa. Não é, porém, apenas e só mais um título no género, ou melhor, pode não vir a ser apenas mais uma proposta cansada no meio de incontáveis obras.

Há dois aspectos da jogabilidade que merecem ser destacados. Primeiro, além dos medidores de balas e de saúde da personagem, há também o que é designado como Dash, habilidade de uso obrigatório para saírem de situações em que os inimigos se acumulam à vossa volta. O segundo aspecto está relacionado com os outros dois medidores mencionados, pois permitem-me fazer uma chamada ao hacking, o tal segundo aspecto que é transversal à obra.

Além de podermos fazer hacking a determinados inimigos, há várias estações espalhadas pelas paredes do mundo de jogo que dispensam munições e saúde se o hacking for feito com sucesso. Pelo que tive oportunidade de experimentar, não é complicado, simplesmente algo condicionante, até porque o processo assenta nos moldes de um Quick Time Event – que chega mesmo a ser usado no primeiro boss disponível.

As minhas dúvidas sobre 2084 estão relacionadas com os inimigos. Não só porque a maioria parecem de design algo genérico, mas sobretudo porque o dano necessário para os matar é díspar, parecendo que a produtora quis aumentar a dificuldade da sua obra simplesmente transformando algumas das criaturas em verdadeiras esponjas de balas. Isto revela-se um problema de solução aborrecida por dois motivos.

Primeiro porque as munições estão intrinsecamente condicionadas pelo processo de hacking, ou seja, terão que encontrar um dos dispensadores, e também porque ocasionalmente 2084 resolve atirar hordas de inimigos à cara dos jogadores, aparecendo de lugares inóspitos e fazendo fila para nos tentar matar como se estivessem a fazer compras dois dias antes do Natal. Morrer em 2084 também não é propriamente recomendável, pois os checkpoints não são exatamente vulgares na obra.

Por outro lado, a forma como o jogo nos leva novamente até ao mundo cyberpunk de Observer não é algo que denota o cansaço expectável de já lá ter estado aquando do lançamento original. É verdade que os corredores estreitos do design do jogo levam ao tal afunilamento de inimigos descrito no parágrafo anterior, contudo, também é verdade que a chama opressiva e claustrofóbica está de regresso e quase tão eficaz como anteriormente.

Há setas espalhadas pelos cenários que vão indicando para onde têm que ir, mas são inúmeras portas para abrir, algumas das quais recorrendo ao – sim, adivinharam – sistema de hacking, e há passagens secundárias que levam à descoberta de pormenores fora do caminho principal. Há quase tudo o que encantou em 2017, com o título a correr já com uma framerate mais estável do que a de Observer quando foi analisado. Além de nos fazer regressar aos cenários, de destacar que o arco narrativo também pisca o olho ao título onde se foi basear, pois o argumento engloba a Chiron Incorporated, com o arquiteto de redes a ser despedido logo nos momentos iniciais – e uma reviravolta sobre a personagem com que jogamos que abre por completo o argumento.

Além do modo história, 2084 conta também com um Endless Mode. Basicamente, faz aquilo que o seu título indicia: jogam contra hordas e hordas de inimigos, aplicando os mesmos princípios da jogabilidade já descritos. Quando morrerem podem comparar a vossa pontuação em três tabelas de liderança diferentes: Top 10 Global, entre os vossos amigos, e entre quem está nas redondezas.

Dependerá muito de como 2084 for sendo melhorado nos próximos tempos. Se isto é o resultado de uma sessão de 72 horas, então o talento está lá para conseguir transformar tudo isto num jogo completo que poderá funcionar bem como um spin-off de Observer. A questão é se algum dia conseguirá ser visto como esse tal spin-off ou se desaparecerá dos radares dos amantes de Atiradores na Primeira Pessoa e de cyberpunk sem deixar para trás a sensação de que poderia ter sido um mod para a obra da Bloober Team.

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