Pontualmente, aparecem no mercado obras de criadores que experimentam conceitos peculiares. Ao tomar esta atitude, provam que este meio ainda tem muito para dar além dos tradicionais jogos de índole comercial. Os videojogos podem muito bem fomentar o pensamento crítico, tal como um livro ou um filme. The Stanley Parable é um bom exemplo daquilo que um jogo pode ser, ao romper com os moldes tradicionais, que nunca tinha sido feito (nem o voltará a ser) por nenhuma grande produtora de videojogos.

A produtora germânica Studio Seufz criou uma obra que incentivará à reflexão, porque The Longing não é um jogo que tem como objetivo a gratificação instantânea, como é o apanágio de praticamente todos os jogos que são lançados no mercado. Em The Longing ser-vos-á pedido que tenham muita paciência, porque um dos finais exige que aguardem quatrocentos dias reais. Obviamente, não têm de jogar durante todos estes dias seguidos, mas o contador continua, segundo a segundo, mesmo depois de saírem do jogo.

A premissa do jogo foi inspirada numa antiga lenda alemã de Kyffhäuser, onde o imperador Frederick Barbarossa estava a descansar numa gruta debaixo dos vales do seu reino, com a promessa que voltaria para salvar os problemas. Podemos dizer que é, essencialmente, um “Sebastianismo” alemão: tal como D. Sebastião, regressaria um dia para salvar o seu reino do que o atormentava.

O jogo começa e um rei gigante senta-se num trono situado numa caverna, vários metros debaixo do solo. A nossa personagem é The Shade, um criado do rei que é informado por sua majestade para acordá-lo dali a quatrocentos dias para que "o medo e o anseio desapareçam". Após as palavras do enorme rei, com uma barba a condizer com as suas dimensões, e de se sentar no trono, fica imóvel que nem uma pedra. A partir daqui a contagem decrescente de quatrocentos dias começa e é medida ao segundo.

Como é óbvio, o grande mistério é saber o que irá acontecer depois do rei acordar. Por isso, o melhor é explorar o que o jogo tem para oferecer com Shade, visto que o jogo oferece uma experiência point'n'click. Claro, se comprarem o jogo e preferirem regressar em 2021, para ver qual é a grande surpresa, estão livres de o fazer.

O propósito do jogo é outro: apreciar procedimentos mais lentos é algo que os jogadores, na sua generalidade, não conhecem. The Longing apresenta este lado mais demorado, como o simples abrir de uma porta, para salientar a importância de apreciar todos os momentos sem pressas.

O melhor é vaguear, sem rumo, pelos túneis labirínticos da caverna onde se encontram. Além de conhecer os cantos da vossa "casa" (um pequeno local junto do vosso rei), é também uma boa ideia explorar e ver o que o jogo tem para oferecer. Como qualquer experiência de apontar e clicar que se preze, podem apanhar objetos e manipulá-los. Por exemplo, podem apanhar livros do chão e colocá-los na vossa estante e lê-los posteriormente, pois tratam-se de livros verdadeiros. Graças ao Gutenberg Project, que tem um quantidade assinalável de livros gratuitos em formato e-book, podem ler clássicos de literatura no jogo.

The Longing cria situações que seriam consideradas irrisórias colocar num outro jogo de grande orçamento. Se encontrarem carvão no chão podem desenhar vários tipos de obras de arte pela mão de Shade, para estas serem depois penduradas para ornamentar o seu pequeno recanto de repouso. A produtora alemã apostou no minimalismo para deixar espaço à mente para pensar e, porventura, filosofar sobre as situações que são impostas à pobre personagem sem rumo, na solidão, sem ter controlo sobre o seu destino imediato.

É por ser tão minimalista que o aspeto cartoon do jogo encaixa tão bem, não querendo fazer da solidão e da imensidão daquela caverna tão vazia nos coloque a pensar em situações de terror. Por apreciar trabalhos como os de Stanley Kubrick, David Fincher ou David Lynch é que acho este título tão encantador.

O único impedimento de poder recomendar uma obra destas é o não saber tudo o que tem para entregar a quem decidiu arriscar numa premissa tão peculiar como esta. The Longing é um jogo que esconde o seu trunfo com um prazo pré-determinado: quatrocentos dias. São quatro centenas de dias em que indagamos os mistérios que estão escondidos nos seus recantos, mesmo que a resposta chegue um ano depois de começarmos a jogar o título alemão.

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