Sendo relativamente curta, The Rain é uma série que vai mudando de tom com o passar dos episódios, terminando a sua primeira temporada dando aos espectadores uma miríade de sensações na sua algibeira emocional. Pode parecer uma premissa parva, mas o seu grande trunfo é que essa mesma premissa é apenas o ponto de partida.

É uma produção dinamarquesa designada como um original Netflix e ao longo destes oito episódios, somos confrontados com um simples dado: começa a cair uma chuva misteriosa e a maior parte da população da Dinamarca é dizimada. Mal a água toca na pele das personagens, começam os espasmos e os vómitos de sangue. A morte chega pouco tempo depois.

Ainda que o argumento possa parecer ficção científica barata, importa desde já mencionar que não são perdidos muitos minutos antes que este fenómeno apareça, mas também é importante escrever que The Rain acaba por explicar os motivos, acaba por não deixar o espectador com a sensação que foi traído por algo que nunca chegou a ser mencionado.

The Rain tem uma primeira metade lenta, capaz de fazer muitos interrogarem-se sobre qual é o propósito da sua existência como peça de entretenimento. Contudo, este grupo de rapazes e raparigas, unidos pelas circunstâncias de vidas que podem acabar num segundo, afirma-se claramente depois da exploração levar-nos de bunker em bunker.

Quando as peças começam a encaixar, quando The Rain começa a ganhar a sua própria voz é no momento em que as personalidades das personagens começam a mostrar os seus vincos. Mais: The Rain conta com episódios bastante curtos, alguns com pouco mais de trinta minutos. Mas é o suficiente para se abrirem janelas para os passados de quem está à nossa frente, revelando-nos quem eram antes desta massiva mortandade. E nesses episódios, ainda que não seja uma técnica propriamente nova, é quando algumas das suas ações no presente são, se não justificadas, pelo menos contextualizadas. 

Logo no primeiro episódio, Simone (Alba August) e Rasmus (Lucas Lynggaard Tønnesen) são apresentados como dois irmãos em fuga desesperada até ao primeiro bunker. Os seus pais estão presentes e os quatro são fechados no subsolo. Pouco depois - ainda que num salto temporal narrativo - o tapete é puxado debaixo dos espectadores, com os irmãos a terem que se adaptar e enquadrar num grupo mais diversificado de personagens.

Têm assim que se afirmar perante a idade e perante os choques de personalidades. Há uma personagem chamada Lea (Jessica Dinnage) que assina uma das cenas mais emocionalmente destrutivas que passaram pela minha televisão nos últimos tempos. É antes da chuva ter começado e é uma questão familiar, mas a situação de abuso misturada com uma excelente performance é motivo para pausa e para assimilação.

As relações, as lutas pelo poder, a forma como até nestas situações o amor floresce, tudo é disposto em redor do fenómeno mortal que dá o pontapé de saída. É um jogo que convida o jogador: as nuvens passam a ser uma ameaça, tal como são as poças de água e os ribeiros. Isto, porém, não mina o emulsionar da tensão emocional, com The Rain a justapor estas duas fontes bastante bem.

Há cenas em que o cenário chega a fazer lembrar The Last of Us e até uma cena com uma “família” que parece copiada diretamente de The Walking Dead da Telltale. Claro que numa situação tão precária há mortes, há a tensão de se cuidar de quem se gosta. O espectador é levado a experienciar tudo isso, sendo impulsionado a investir o seu interesse nestas pessoas.

E não, The Rain não se escapa a alguns clichés, particularmente como o aspecto empresarial está inserido na premissa original - o pai de Simone trabalha para uma empresa chamada Apollon. Isto, porém, não é suficiente para ofuscar algumas das reviravoltas, algumas das explicações que ainda não são suficientes para o último episódio acabar com a porta escancarada a uma eventual segunda temporada.

Somos levados a pensar numa versão diferente da sociedade, uma sociedade em ponto pequeno uma vez que os moldes tradicionais foram quebrados há muito. A sobrevivência não é explorada de forma banal, ou seja, é usada sobretudo para aumentar a já mencionada tensão. E ainda que possa parecer uma primeira tentativa de alguém pouco experienciado, The Rain foi criada por Jannik Tai Mosholt, Esben Toft Jacobsen e Christian Potalivo. Bem, Mosholt trabalhou em Borgen e em Rita.

Ainda que ninguém carregue o arco narrativo às costas, Simone é a personagem central, protagonista destemida, é muito fácil perceber o seu sofrimento, pelo que também é muito fácil estar lá para os seus triunfos. Mesmo Patrick (Lukas Løkken), o suposto bad boy, acaba por ter os seus momentos de redenção. E Beatrice (Angela Bundalovic) evolui com o tempo, sendo fundamental para percebermos que as relações amorosas são lidadas com algum tacto.

O ponto a reter é este: A chuva, a sobrevivência, a violência, tudo está em The Rain para elevar as emoções, para nos permitir estudar os choques, as aproximações e os afastamentos num microcosmos. Podem não atingir os píncaros de Dark ou The Bridge, mas não deixem de a ver se têm o medo justificado que seja apenas mais um clone de The Walking Dead. Não é.