Os últimos dias do ano são sempre pródigos em balanços - os videojogos não são excepção. Pessoalmente, é um prazer passar em revista os doze meses que nos levaram até este momento, compreendendo que efectivamente a indústria está cheia de pérolas e que quem dedica o seu tempo a estas criações digitais teve muito de onde extrair jornadas memoráveis, independentemente da plataforma que pelos seus próprios motivos elegeu como principal.

Foram meses em que experimentámos uma imensidão de obras, apesar de nem todas terem sido contempladas com uma análise definitiva. Ainda assim, isso não quer dizer que as horas empreendidas não tenham resultado em memórias suficientemente fulgurantes para que o trabalho dos seus criadores receba o merecido reconhecimento neste artigo. É um texto que assino com a plena convicção de que, independente do lugar ocupado por determinada obra, qualquer um dos nomes está em condições para ser uma recomendação.

Como poderão constatar já de seguida, são videojogos que ganharam vida em diferentes plataformas e que chegaram ao mercado graças a orçamentos que variam muito na hora de contar os zeros à direita da vírgula. Excelsas demonstrações de criatividade, do poder da escrita, do refinamento da jogabilidade e do músculo gráfico, diferentes fatores que impulsionaram cada um destes títulos sem que os restantes fossem descurados.

Entre muitos, muitos outros, estes foram os dez videojogos que eu acredito terem ajudado a elevar 2019. Como sempre, este Top é baseado naquilo que eu experimentei, ou seja, por muito consagradas que sejam nomes ausentes, não os posso considerar se as experièncias oferecidas não me passaram em frente aos olhos.

10. Telling Lies - Classificação VideoGamer Portugal: 8/10

Já tinha confessado o meu amor por Her Story, sendo uma das obras que mostrou nos últimos tempos que é possível produzir um videojogo de qualidade com atores de carne e osso. Sam Barlow, o criador da obra, voltou este ano com Telling Lies e, novamente, estamos perante um drama de adensado mistério que vale a pena jogar.

As prestações dos atores convencem e o argumento é novamente dotado de incontáveis camadas que são desvendadas lentamente pelo jogador. A forma como o arco narrativo é experienciado nem sempre é a mais esclarecida, mas mesmo assim o seu cômputo geral tem arcabouço para suportar isso e sair vitorioso no final.

Quem gosta de perseguir a verdade e de ser surpreendido pelo caminho tem aqui uma proposta sólida; quem gosta de tirar apontamentos e desfazer uma teia urdida para transparecer a sensação de impenetrabilidade tem aqui uma recomendação para começarem 2020 na pele de detective.

9. A Plague Tale: Innocence - Classificação VideoGamer Portugal: 8/10

Não, A Plague Tale: Innocence não é apenas “o jogo dos ratos”. Não me interpretem mal, a obra da Asobo Studio brilha no momento de colocar quantidades descomunais de roedores no ecrã, mas isso faz parte de processos de jogabilidade mais complexos. Aliás, a forma como temos que lidar com os ratos é uma das vigas mestras da jogabilidade e da forma como temos que lidar com os puzzles.

Contudo, estamos também perante uma história sobre as diferentes peças numa família e também uma obra com um departamento técnico assinalável. Nem sempre agraciada com uma Inteligência Artificial capaz de dar conta dos dois protagonistas, Innocence é ainda assim um dos títulos que marcou o meu 2019 e íamos apenas em maio.

8. Baba Is You - Classificação VideoGamer Portugal: 9/10

Lembrar-me do meu tempo com Baba Is You é recordar uma obra de puzzles que me desafiou de uma forma original. Pode-se sempre debater o que é um bom jogo de puzzles, mas é sempre mais útil passar a informação sobre os bons de puzzles que vão chegando ao mercado. Este ano foi também o ano que mostrou, novamente, que não, ainda não está tudo “inventado” neste género.

Modificar a sintaxe de uma frase para encontrar a solução pode não ser muito apelativo, mas acreditem que a execução eleva o conceito original a uma experiência que cativa o jogador que gosta de ser desafiado. Literalmente, estão a definir o que é tido como uma “vitória” e aquilo que vos pode matar. Ao apresentar diferentes variantes, uma jogabilidade tida como simples não demora a levar a massa cinzenta ao ginásio.

E além de Baba Is You, permitam-me esta secção do artigo para recordar outras obras de puzzles que merecem o vosso tempo. Em 2019 tive oportunidade de dedicar algum tempo a Manifold Garden e a Wilmot's Warehouse, ambos jogos que são recomendações imediatas.

7. Sayonara Wild Hearts - Classificação VideoGamer Portugal: 9/10

Depois de uns interessantissimos Device 6, Year Walk e The Sailor's Dream, a Simogo alcançou o estrelato que se adivinhava com Sayonara Wild Hearts. Não só a sua história é comovente sem ser lamechas, como os vários departamentos técnicos complementam-se na perfeição, notando-se um trabalho cuidadoso para que o espaço mental do jogador seja colocado no local ideal para consumir o jogo.

Quem escrever que Sayonara Wild Hearts é curto e pouco exigente não estará a mentir. Contudo, é também um jogo que se presta a inúmeras sessões de jogo para que todos os níveis sejam dominados do início ao fim. E quem o quiser fazer não terá pela frente um jogo sem desafio, mas sim uma proposta recompensadora. É acessível sem esquecer os jogadores que querem mais.

A Simogo estilizou a sua produção até ao ínfimo detalhe e deu-lhe uma excelente banda sonora. O resultado é um videojogo que fica na memória e que é uma genuína expressão artística.

6. Death Stranding

Pode-se amar ou amar odiar Death Stranding, mas a nova obra de Hideo Kojima agitou as águas em 2019. Pessoalmente, gostei das horas que dediquei ao temporário exclusivo da PlayStation 4. Sim, é verdade que há momentos mortiços e é verdade que ocasionalmente o arco narrativo assume um determinado conhecimento ou linha de pensamento do jogador, contudo, os momentos memoráveis foram imensos.

“O corriqueiro a almejar a grandiosidade”, foi uma das descrições que apliquei no meu artigo. O que retiram de Death Stranding será sempre proporcional ao que esperavam do jogo antes de começarem a jogar. A questão é que o corriqueiro mencionado não é um chorrilho de coisa nenhuma. Há uma intenção em fazer o jogador ser uma “mula humana” e há uma evolução do cargo de tarefeiro.

Kojima arriscou e experimentou. Semanas após chegar ao mercado, Death Stranding ainda não reúne um consenso. E sabem que mais, isso é perfeitamente aceitável. Eu gostei, mas compreendo perfeitamente quem detestou. Feitas as contas, a grande conclusão é que ninguém deve pensar que sabe exatamente o que esperar de uma obra assinada por Kojima.

5. The Legend of Zelda: Link’s Awakening - Classificação VideoGamer Portugal: 9/10

Mais uma obra que não é uma novidade absoluta, The Legend of Zelda: Link’s Awakening mostrou a preservação do seu legado. Muitos foram os que experimentaram o lançamento original e a nova versão na Switch; muitos foram os que partilharam segredos e processos com os jogadores mais novos. Link’s Awakening não criou, mas enalteceu o sentido de comunidade.

Isto, obviamente, além de ser uma excelente aventura. Graficamente polido e com um sentido de grandiosidade, é um dos jogos que marcou o meu ano e o ano da consola. Como terão oportunidade de ler posteriormente, este não é o único exclusivo Switch a figurar neste Top 10, o que diz bastante da qualidade que está a ser inserida no catálogo da consola.

Em 2020 teremos um novo Animal Crossing, mas não deixou de ser interessante, pelo menos para mim, que durante a estadia que Link’s Awakening proporciona, foram inúmeros os momentos em que o trajeto principal da aventura tenha sido colocado com pano de fundo, dando lugar ao corriqueiro, ao momentâneo, ou seja, a atividades e passeios que simplesmente aconchegam o estado de espírito.

4. Control - Classificação VideoGamer Portugal: 9/10

A Remedy sabe contar uma boa história. Isto não será propriamente uma grande novidade para quem tem experimentado as obras da produtora finlandesa. Contudo, em Control há essa excelência narrativa associada a um departamento técnico que é constantemente inspirado por um sentido de arquitectura que é, derradeiramente, parte do veículo usado para contar esta história.

Este ano que agora termina marcou a abertura das asas da produtora. Não que Alan Wake ou Quantum Break não fossem experimentações, mas Control arrisca mais, sim, mas é um risco assente em bases mais largas e sólidas. Mesmo que a exploração dos cenários seja ocasionalmente obtusa, é um mundo que se molda ao jogador, deixando-o de queixo caído, desafiado.

3. Disco Elysium

Disco Elysium é uma das maiores surpresas de 2019. É verdade que escrevemos sobre o título nos nossos trinta jogos mais antecipados do ano, contudo, mesmo para quem já esperava muito, a obra da ZA/UM esteve melhor. É um Role Playing que não se conformou com os moldes delineados, oferecendo uma aventura com uma qualidade narrativa marcante, tendo sido escrita pelo escritor estónio Robert Kurvitz.

Os temas, a forma como são lidados e, não menos importante, a constatação de que não há heróis perfeitos, tudo apanha o jogador desprevenido a querer saber mais destas vidas e destas circunstâncias. Hora após hora, os mistérios nunca deixam de surpreender, com o tal cuidado quase obsessivo a ser transversal a todas as personagens, não havendo verdadeiramente existências pouco amanhadas e sem dimensão.

2. Resident Evil 2 - Classificação VideoGamer Portugal: 9/10

Depois de Resident Evil 7, a série de terror da Capcom estava num bom lugar e não precisava das glórias passadas para mostrar as suas valências. Contudo, foi precisamente isso que a produtora nipónica resolveu fazer. O resultado foi um dos melhores jogos do ano, conservando as pedras basilares de Resident Evil 2, mas dando-lhe um fato moderno.

O terror e os sustos continuam, mas são as mecânicas dos puzzles que nos fazem viajar no tempo, tal como a forma como temos que gerir o nosso inventário com uma mão firme. Procurar objetos de forma tão vigorosa e intrínseca ao progresso feito relembrou ao público em 2019 que as linhas retas contemporâneas nem sempre foram assim.

Resident Evil 2 é um caso interessante, pois mostra-se quase como um videojogo novo sem nunca renunciar aos locais e às personagens que ajudaram a série a ganhar destaque. Sente-se alguns passos em falso no departamento da escrita, mas isso nem chega perto de danificar o prazer que se tira desta tensão. Sem grande surpresa, isto faz com que a expectativa em redor de Resident Evil 3 Remake seja elevadíssima.

1. Luigi’s Mansion 3 - Classificação VideoGamer Portugal: 9/10

Há muito que a Nintendo Switch deixou de ser um fenómeno para se afirmar como uma plataforma de excelentes méritos. E um dos videojogos que contribuiu para esse estatuto é Luigi’s Mansion 3. Sou fã confesso da série desde a sua estreia na Gamecube e foi um enorme prazer descobrir canto após recanto na terceira proposta numerada.

Não é um videojogo para durar meses, mas cada piso do Last Resort Hotel é um hino à criatividade e ao carisma. Os puzzles renovam-se continuamente e o sentido de humor é uma constante. Assim, o resultado não só é condigno com o que a série já tinha conseguido, como reafirma o seu lugar dentro do catálogo de exclusivos.

Luigi’s Mansion 3 revelou-se ser, além das métricas habituais, o videojogo que eu precisava para voltar a contemplar com tempo o que outros criaram. A Nintendo teve um bom 2019, mostrando o porquê dos seus exclusivos terem um encantamento próprio. Este jogo é a depuração de tudo isso e a constatação de que a magia dos videojogos está de boa saúde, que essa génese não foi esquecida, mesmo quando os números são mais estratosféricos do que nunca.

É simples: têm uma Nintendo Switch? Luigi’s Mansion 3 devia estar na vossa lista de compras. Não têm? Bem, talvez seja um bom momento para pensarem em alargar o parque de hardware que têm ao vosso dispôr.

Continuem a conversa nos fóruns VideoGamer!