Com vários eventos da indústria cancelados devido à pandemia do COVID-19, muitos foram os produtores independentes que perderam oportunidades de ouro para promover os seus títulos junto dos seus pares, da crítica especializada e dos jogadores que têm oportunidade de visitar estas convenções. Para minimizar os efeitos nocivos deste imprevisto, o Festival de Jogos do Steam surgiu como uma boa alternativa para colocar os olhos dos muitos jogadores que procuram na loja digital da Valve a companhia para o período de isolamento social.

Em vigor entre 18 e 23 de março, este evento digital deu-nos assim a possibilidade de experimentar pequenas porções - ênfase na palavra pequenas - de algumas das obras que prometem abrilhantar os próximos meses. Uns são já bem mais conhecidos que outros - alguns figuraram até na nossa lista dos 30 Jogos Mais Aguardados de 2020 -, mas o que mais importa realçar aqui é a oportunidade dada a jogadores de todo o globo, incluindo aqueles que dificilmente teriam acesso a estes jogos antes do seu lançamento oficial, para mergulharem de forma breve nas suas aliciantes propostas.

Como tantos outros, aproveitei esta iniciativa para ficar com uma melhor ideia do que esperar em relação a títulos que estão no meu radar desde o seu anúncio. No total, experimentei cinco jogos e se em todos eles ficou clara a sensação de que estas curtas amostras não são suficientes, obviamente, para mostrar todas as valias do produto final, também ficou demonstrado o seu potencial para oferecer algo de especial e a curiosidade em jogar a experiência completa não diminuiu.

Ao longo dos próximos parágrafos podem ler algumas considerações rápidas sobre cada um dos jogos testados, importando reforçar a ideia de que todos eles estiveram disponíveis para quem os quisesse experimentar e que esta seleção de títulos foi meramente motivada por preferência pessoais, e não por uma escolha do que de melhor o Festival de Jogos do Steam teve em oferta.

When The Past Was Around (Mojiken Studio/Toge Productions)

O único título desta lista que não conhecia até o ter visto listado neste evento digital, When The Past Was Around é uma aventura Point and Click que divide a sua atenção entre os puzzles tradicionais do género e uma narrativa emocional. Os visuais desenhados à mão e coloridos com tons pastel são o principal chamariz de uma experiência que se propõe a levar os jogadores pelos meandros de uma relação.

O prólogo do jogo, que pode ser concluído em pouco mais de um quarto de hora, serve essencialmente para ficarmos com uma ideia da estrutura da aventura. A missão do jogador passa por interagir com os vários objetos presentes no cenário de cada cena e utilizá-los depois na resolução do puzzle que não só desbloqueia o nosso progresso, como ajuda a descodificar a cena a que estamos a assistir.

Por ser uma amostra tão curta e pelo facto de a história ser apresentada sem qualquer recurso à palavra escrita ou falada, não é ainda possível perceber a eficácia com que a narrativa será entregue, nem sequer os temas que serão abordados. Sabemos que acompanhamos Edda, uma jovem mulher, e as suas memórias da relação com The Owl, mas os contornos da mesma apenas serão conhecidos quando a obra completa for lançada.

Os puzzles, pelo menos neste arranque, são acessíveis e o som do violino dá um tom melancólico à experiência. Um jogo sobre “amor, avançar, largar o passado e a alegria e dor de tudo pelo meio”, When The Past Was Around tem lançamento previsto para a primavera no PC. 

Chicory: A Colorful Tale (Greg Lobanov/Finji)

Chicory: A Colorful Tale - originalmente conhecido como Drawdog -, é o novo projeto de Greg Lobanov, o responsável pelo encantador e charmoso Wandersong, e é precisamente por essa razão que está no meu radar desde o seu anúncio. Se o seu antecessor mostrou o poder da música para a mudança, Chicory aplica uma lógica à cor, isto é, num mundo que se viu roubado das suas cores, cabe a um valente herói a missão de voltar a pintar tudo o que o rodeia e restabelecer a normalidade.

Esta é a premissa do jogo que nos coloca ao comando de um cão equipado com um pincel mágico capaz de colorir o mundo. Embora, tal como em Wandersong, exista potencial para momentos mais introspetivos e sombrios, a pequena amostra a que tivemos acesso este fim de semana realça sobretudo o lado mais leviano e bem humorado da situação, algo que fica desde logo evidente nas primeiras linhas de texto que surgem no ecrã.

Em termos mecânicos, Chicory não parece preocupar-se muito com a precisão da nossa pintura, o que é bom pois os controlos não se coadunam com grandes obras de arte. Dito isto, os visuais desenhados à mão e com fortes traços negros garantem que o título é apelativo, mesmo antes de lhe adicionarmos cor. Apesar de se apresentar com uma paleta de cores reduzida, há algo de bastante satisfatório em atribuir cor a cenários a preto e branco.

Nesta fase, fica por esclarecer qual será o real papel da coloração na aventura, ou seja, se será algo acessório, apenas relevante em ocasiões pontuais como sucedeu com a música em Wandersong, ou se será algo mais permanente na resolução de puzzles e na progressão. Neste pequeno tutorial foi utilizada a cor para abrir caminhos com obstáculos e usar árvores como plataformas e trampolins para aceder a áreas opcionais do cenário. Não é muito, mas é um sinal daquilo que podemos esperar.

Chicory: A Colorful Tale está confirmado para o PC, onde chegará numa data ainda por anunciar.

Röki (Polygon Treehouse/United Label)

Da autoria de antigos produtores da Guerrilla Games, Röki é mais um jogo que salta à vista pela sua direção de arte apurada, algo que é uma constante em todos os títulos incluídos neste artigo. A beleza dos cenários invernosos é por demais evidente e o recurso a um forte contraste entre cores dá um realce ainda maior aos diferentes elementos que compõem o cenário.

Inspirado no folclore escandinavo, a obra da Polygon Treehouse transporta-nos para um mundo de fantasia ao comando de Tove, uma rapariga à procura de salvar a sua família. O foco da amostra disponibilizada não é narrativa, contudo, mas sim a resolução de um puzzle através da exploração do cenário para encontrar e combinar os itens necessários para o objetivo proposto.

A missão em questão passa por ajudar um Troll através da remoção de um punhal das suas costas. Os processos são simples e o incentivo à exploração do bonito ambiente à nossa disposição é assegurada pelos diferentes passos necessários para a conclusão do objetivo principal.

Assim como com o primeiro jogo mencionado neste texto, interessa saber se a narrativa emocional terá o peso necessário para elevar a experiência, pois os visuais e a banda sonora atmosférica já agarraram a nossa atenção. Röki deve chegar este ano ao PC e Nintendo Switch.

Haven (The Game Bakers)

Um dos jogos que encontrou o seu caminho até ao nosso especial de antevisão de 2020, Haven foi a obra que joguei durante mais tempo e aquela que mais tinha para mostrar. Talvez por ser pertença ao género dos Role Playing Games e ter, por isso, mais processos de jogabilidade para destacar, este primeiro vislumbre do amor proibido de Yu e Kai deixa boas indicações para a experiência completa.

O seu elemento mais curioso é o facto de controlarmos as duas personagens em simultâneo - se partilharem a aventura com um segundo jogador, cada um controla a sua personagem -, mecânica que se estende não só à exploração do cenário aberto, alternando entre ambos com o premir de um botão, como às escolhas de diálogo e até ao combate. 

Com o d-pad para Kai e os botões de rosto para Yu, há quatro ações para cada personagem: Shield, que protege dos ataques dos inimigos, dois tipos de ataque - Impact e Blast - e Pacify, que restaura a sanidade à vida selvagem que combatem após drenada a sua energia. O combate decorre em tempo real, pelo que os dois protagonistas são comandados em simultâneo com o respetivo conjunto de botões. 

Para inimigos mais poderosos, pode ser necessária a realização de ataques combinados, isto é, ter as duas personagens a realizar o mesmo ataque ao mesmo tempo para quebrar as barreiras de proteção do oponente. Não é um sistema complexo e resta saber se haverá variedade empregue aos ataques e inimigos para suportar uma experiência mais longa.

Como é óbvio, a principal interrogação será a narrativa, sobretudo quando a mesma é focada exclusivamente neste casal e o jogador controla os dois lados da barricada nas interações. Esta pequena amostra oferece interações interessantes entre ambos e a vocalização parece ter a qualidade necessária para fazer jus aos momentos mais emocionais que a história deverá proporcionar.

Destaque também para a banda sonora com uso de sintetizadores e tons melódicos que se adequam à experiência em questão. O grafismo 3D com um estilo semelhante às adaptações anime da Bandai Namco não é brilhante, mas a direção de arte compensa o menor detalhe de algumas texturas. O colorido do cenário também ajuda a tornar a obra esteticamente apelativa.

Haven é um dos meus jogos mais aguardados do ano e este aperitivo deixou vontade de ver mais. Tem lançamento previsto para 2020 no PC, PlayStation 4, Xbox One e Nintendo Switch.

Spiritfarer (Thunder Lotus Games)

Uma das obras independente que promete marcar o atual ano civil, Spiritfarer é a nova empreitada dos produtores de Jotun e Sundered e uma aventura serena pelas águas turbulentas da morte. Aqui ajudamos as almas - ou espíritos, como preferirem - a partir em direção até à vida depois da morte a bordo da embarcação guiada por Stella e do seu adorável gato, Daffodil.

Ainda que a porção do título que jogámos não permita tirar quaisquer conclusões relativamente à sua componente narrativa, é uma amostra suficiente para perceber que, apesar da temática pesada, Spiritfarer pretende ser tudo menos uma experiência sombria. Os visuais desenhados à mão são lindíssimos e a qualidade das animações é brilhante, transformando a ação em autênticas pinturas em movimento.

A diversidade de cores em utilização e a banda sonora ajudam assim a cultivar o tom tranquilo da aventura, tranquilidade que é transposta também para a componente de gestão da obra. Durante a pouco mais de meia hora que passei com Spiritfarer houve tempo para cozinhar, para pescar, para cultivar e colher alimentos, para interagir com as almas a bordo e ainda para construir novas secções à nossa embarcação, incluindo um novo local de repouso para uma das almas a bordo e a adição de um jardim.

Tudo isto sem qualquer pressão de tempo ou uma grande preocupação com a gestão de recursos, algo que espero que se mantenha ao longo da aventura. Agora é preciso mais tempo para conhecer estas personagens, para deixar as relações maturar e avaliar o impacto que terão numa narrativa que se antevê forte em socos emocionais.

Spiritfarer deve chegar ao mercado em 2020 no PC, PlayStation 4, Xbox One e Nintendo Switch.

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