por - Jan 31, 2017

Joguei Kitchen no PlayStation VR e mal posso esperar para ser novamente aterrorizado

Alguns contactos com os videojogos não se esquecem. Pela positiva, pela negativa ou pela diferença, parecem pensados e destinados a ficar impregnados durante os anos seguintes. Tive oportunidade de experimentar Kitchen, a demonstração de Resident Evil 7, com o PlayStation VR e ao longo de apenas cinco minutos criei memórias que dificilmente se dissiparão. Esta amostra pode bem ser o levantar do véu do que será o género de terror na Realidade Virtual, uma ideia que me atormenta e seduz.

Há outra experiência de terror disponível para o acessório da Sony chamada Until Dawn: Rush of Blood, contudo, como podem ler aqui, deixa algo a desejar, alimentando-se muito de sustos fáceis, brilhando sobretudo nos momentos escassos em que consegue construir tensão. Kitchen está muito longe de ser um jogo, obviamente, mas provocou-me mais sensações em cinco minutos do que Rush of Blood em horas.

Para que não restem dúvidas, este tipo de experiências é aterradora, capaz de me fazer colar à cadeira durante praticamente toda a sua duração. Não é algo para todos e é possível que simplesmente não tenham interesse ou vontade de experimentar algo que sabem que irá alterar-vos o decorrer do dia. Não se trata de valentia. Até aqui o género de terror não era para todos, tal como os Role Playing Games, os jogos de futebol ou de condução. E isso não é um problema. A diversidade sempre foi e será bem-vinda.

Resident evil 7 kitchen.png

Contudo, aqueles que como eu gostam de terror, podem sorrir porque Kitchen promete um futuro risonho para o género. Ainda atónito pelo transporte para um universo tão diferente de onde estava fisicamente, olhei à minha volta para constatar a deterioração do cenário. Peter Walken está caído no chão é à minha frente tenho uma câmara de filmar montada num tripé. Há sangue um pouco por todo o lado. Eu sou Clancy Javis e tenho as mãos atadas. A primeira interação é estender os braços – na realidade e no jogo – para derrubar a câmara e resgatar Walken do seu estado desfalecido.

A Capcom sabia o que resultaria, ou seja, a forma como Walken se aproxima de nós, colocando a sua face em frente à nossa não é um acaso. Ainda que seja a nossa ajuda, há logo aqui um confronto que quebra a linha entre realidade e ficção, ou seja, há uma imersão desde o primeiro ao último minuto. É uma visão não muito convidativa, mesmo quando Kitchen não nos está a tentar aterrorizar: há lixo espalhado, a iluminação cria a penumbra, e todos sabemos volvidos dois minutos que estas personagens passaram por muito.

Resident evil 7 kitchen

É quando Walken está afincadamente a cortar as amarras das mãos que é esfaqueado pelas costas. Ver o sangue a escorrer-lhe pelos cantos da boca centímetros à nossa frente não é agradável, mas é o surgimento da criatura atrás dele que me fez começar a questionar a minha decisão de jogar a demo. “Se calhar, devia ter continuado com DriveClub,” indaguei internamente enquanto a faca que tinha atingido Walken estava agora apontada na minha direção.

Continuei porque tinha a certeza que a situação não poderia piorar muito. Como estava enganado. A personagem aproxima-se ainda mais da nossa face e está a distância de um beijo, faltando apenas a vontade de beijar algo tão hediondo. A faca acabaria por aterrar na minha perna e, novamente, a linha entre realidade e ficção é esfumada. Não, ainda não sentimos a dor do metal a cortar a carne, mas acreditem que o estremecer é real. Depois disto, Kitchen tem-nos na palma da mão.

A mestria da Capcom volta a estar em evidência quando as duas personagens saem de cena depois desta comoção, deixando-nos completamente sozinhos. O meu cérebro sabia disso, mas o pensamento estava a mil enquanto tentava antecipar o próximo passo do terror, ou seja, até a acalmia não pode ser confundida com paz. O PlayStation VR rodava em todas as direções, todas as sombras eram suspeitas, e uma vez ou outra há a criação do que não está lá, a fabricação do susto para que o susto não custe tanto.

Resident evil 7 kitchen

E o susto não é um susto, apenas uma cabeça que rola na direção, uma piada de quem sabe as reações dos jogadores, habitando na sua cabeça, conquistando-o de dentro para fora. O toque final é capaz de levar muitos jogadores a levarem as mãos à cabeça, a agarrarem o headset como se isso fosse enxotar este passageiro inesperado e nada bem-vindo. É capaz de ser a maior surpresa, pelo que é preferível não a descrever, limitando-me apenas a mencionar que a perspetiva é mudada e que o seu surgimento não será onde esperam.

Kitchen é mais aterrorizador que Rush of Blood e não recorre a tantos sustos fáceis, optando pelo refinar do que sabe deixar o jogador exasperado. Não temos que fazer muito para não querermos estar ali, não enjoamos, não há muito além de uma atmosfera desconcertante e cenas compiladas em menos de meia dúzia de minutos que não nos dão descanso. Haverá sempre o questionar de porquê estar a jogar isto, mas a verdade é que minutos depois de ter terminado a demo estava pronto para mais, para muito mais, mesmo que em curtas sessões de jogo.

Ainda agora, dias após ter experimentado este tipo de terror, não me importava nada de voltar aquela cadeira e de me sentir novamente arrependido de lá estar. As produtoras têm que aprender a trabalhar o terror na Realidade Virtual. Um susto aqui é muito mais fácil do que um susto nos moldes tradicionais, ou seja, não vale muito a pena estar constantemente a fazer o jogador saltar da cadeira, se passados dez minutos já se esqueceram dessa ação inconsequente. O futuro do género passará por experiências como esta, em que sim, saltamos da cadeira, mas em que passamos todo o tempo a roer as unhas, encolhidos, de olhos semicerrados. Não é deixar-nos sempre à espera de algo que nunca chega, mas sim conjugar esses fatores para desassorear quem está noutra dimensão, naquela dimensão.

Resident evil 7 kitchen

Ainda são os primeiros passos para todos no PlayStation VR, tanto para os jogadores como para as produtoras. Contudo, parece-me que aqui menos é mais. Sim, haverá sempre terror gratuito, mas o que ficará na memória é esta densidade de sensações capazes que amamos odiar. Não sei como é que a componente resultará na versão final de Resident Evil 7, mas depois de Kitchen acreditem que quero descobrir na primeira pessoa, por muito que isso me assuste, por muito que sobretudo me fascine. Se houver talento, os fãs do género têm pela frente emoções a ferver. Aliás, podem começar já com Kitchen.

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