por - May 23, 2013

O que andamos a ver, 10 de novembro

Este domingo, o Marco Gomes versa sobre uma obra que fica imediatamente no olho pelo título em Portugal. Continuando a preferir o DVD como o seu formato de eleição, o responsável pelas imagens do VideoGamer Portugal assistiu a Um Pombo Pousou Num Ramo a reflectir na Existência. Vale a pena ver esta contemplação da existência.

Mas há mais para lerem, obviamente. O primeiro a escrever sobre aquilo que andou a ver é Pedro Martins, que aproveitou a estreia da segunda temporada de The End of the F***ing World para voltar às vidas de Alyssa e James. A mistura do humor com o drama continua em destaque, contudo, há agora uma nova personagem e ameaça às vidas dos protagonistas. Bonnie não está na segunda temporada para fazer grandes amigos.

Finalmente, no final do artigo podem ler a opinião de FIlipe Urriça sobre Serenidade, filme que passou recentemente nos canais TVCine. Matthew McConaughey e Anne Hathaway são dirigidos por Steven Knight, o realizador que entregou ao mundo o excelente Locke. Se Serenidade está – ou não – ao nível da obra carregada às costas por Tom Hardy é algo para lerem no final deste texto.

Pedro Martins, The End of the F***ing World 2 (Netflix)

A primeira temporada de The End of the F***ing World foi mais um sucesso para a Netflix, pelo que a estreia dos novos episódios era, sem margem para grandes dúvidas, muito aguardada por uma legião de fãs das aventuras e desventuras de Alyssa (Jessica Barden) e James (Alex Lawther). Depois de ter assistido aos oito episódios, estas são as minhas impressões.

Como certamente ainda se lembrarão, a dupla de protagonistas tinha ficado em maus lençóis na icónica cena na praia. Os novos episódios continuam aproximadamente dois anos a seguir a esse momento e, como seria de esperar, não colocam Alyssa e James a viverem existências tranquilas. Estão separados e, depois de terem lidado com Clive Koch (Jonathan Aris), há agora uma nova personagem que é também uma nova ameaça, Bonnie (Naomi Ackie).

Por motivos que não devem ser mencionados, Bonnie quer matar a dupla, não demorando muito a enviar balas com os seus nomes. A forma como a dupla se reúne e como é formado o novo trio domina os acontecimentos da segunda temporada. Há muito que corre mal rapidamente, sendo colado no ecrã uma mistura de amor, violência, e desilusão que captam a atenção do espectador.

Pessoalmente, acho que a temporada perde algum vapor na segunda metade, porém, graças a episódios curtos, isso nunca chega a ser um verdadeiro problema. Além disso, graças aos inúmeros flashbacks incluídos e, já numa parte final, a visitas onde a primeira temporada decorreu, há também a clara sensação que as personagens, compreensivelmente, não conseguem viver muito além de passados que os continuam a devorar.

Ao contrário do final da primeira temporada, este final parece mais uma devida conclusão. Charlie Covell, criador da série, mencionou que não haverá uma terceira temporada. Contudo, como sabemos, isso pode mudar com a recepção dos fãs. Se não mudar, então fica na memória uma Alyssa que aparenta em todos segundos não querer saber, mas que no fundo é afetuosa para aqueles que a compreendem. E fica um James que mesmo perdendo tudo, encontrou no amor a esperança para continuar a viver.

Marco Gomes, Um Pombo Pousou Num Ramo a reflectir na Existência (DVD)

O Leão de Ouro atribuído em 2014, coincidente com o ano de distribuição em salas, na edição setenta e um do Festival de Cinema de Veneza a Um Pombo Pousou Num Ramo a Reflectir na Existência, En duva satt på en gren och funderade på tillvaron no original, mais do que distinguir especificamente o ensejo serviu de corolário ao percurso de Roy Andersson.

Até porque, fecha a película a trilogia “sobre o que é ser humano”, depois de Canções do Segundo Andar (2000) e Tu, Que Vives (2007), trazidas a este espaço nas duas últimas semanas, em conjunto transformando o sueco num autor de culto, ou não fora uma das mais idiossincráticas do continente sua visão da sétima arte.
 
Estimulante é ver plasmada sua identidade nos três filmes doseando-lhe as premissas por forma a manter unicidade das partes sem descurar a integridade do conjunto. Assim, Um Pombo Pousou Num Ramo a Reflectir na Existência é das três a que ostensivamente mais denota a pulsão dramática entre comédia, sentido poético e pensamento histórico-filosófico, ou como engraçadamente o crítico do Público Vasco Câmara escreveu, “É Monty Python cruzado com Bergman”.

Nesse acasalar de contrastes, presente em significativo número de quadros, dos quais o que inspira o título da obra como bom exemplo, evidencia-se outra cunhagem de Andersson, a ironia que amputa a transcendência, apegada a rotinas do quotidiano e às mais elementares preocupações terrenas, como o passarinho que pensava na vida por não ter dinheiro, regressando depois a casa.

Filipe Urriça, Serenidade (TVCine)

Quando acabei de ver Serenidade não esperava aquele desfecho, sobretudo a reviravolta que faz com que vejamos o filme numa outra perspetiva. Pensava que ia ver uma narrativa que incidia sobre um crime passional, afinal o tema do filme partilha mais semelhanças com videojogos do que com policiais.

Baker Dill é um pescador que vive obcecado com um enorme atum que não consegue capturar. Por muito que vá para o mar com outro objetivo, a presença desse peixe altera todas as suas decisões. Até que uma pessoa que se chama, literalmente, As Regras, diz-lhe que houve uma alteração nas regras do suposto jogo.

A ex-mulher de Dill aparece para lhe pedir ajuda, para se libertar do seu atual marido. E é aqui que todo um plano se monta para que este desapareça das suas vidas, com a sua eventual morte. E o mar é o álibi perfeito para acontecerem acidentes.

É esta revelação, de que a história de Dill é um videojogo, que torna o protagonista consciente das suas ações e do mundo que o rodeia. Nem o próprio acredita num conceito tão absurdo. É esta escapatória e desculpa para os acontecimentos do filme que o enfraquece. O que deveria ser a maior força motriz do filme, relega-o para um desperdício de talento dos atores, nomeadamente Matthew McConaughey.

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